Um adeus ao Atlantis e a 30 anos circulando a órbita da Terra

Repórter do New York times analisa o fim do programa de ônibus espaciais da Nasa

Dennis Overbye, The New York Times |

Na época de abril de 1981, parecia que o ônibus espacial Columbia seria parte da paisagem da Flórida para sempre. O brilho branco durante o dia, e os holofotes que o banhavam durante toda a noite, o grupo de foguetes, avião espacial e tanques de combustíveis gigantes parecia-se com um Matterhorn escarpado, transposto para a costa úmida.

Era, com certeza, grande demais para se mover, e mesmo assim o destino da nação parecia depender de que fizesse exatamente isso. Meses antes, eu havia viajado com um grupo de escritores científicos em uma turnê de uma semana pelos centros espaciais do país. Na Califórnia, andamos por debaixo do próximo ônibus, o Challenger, onde os trabalhadores de Rockwell colavam os frágeis ladrilhos anticalor ao seu 'corpo’. No Cabo Canaveral, nosso jatinho privado aterrissou na pista de aterrissagem do ônibus espacial, e fomos levados a uma distância mínima da nave, perto o suficiente para conseguirmos ver soltados patrulhando o lançador, com metralhadoras.

O ônibus espacial era importante, naquela época. Agora, no entanto, depois de 30 anos de missões espaciais, a última missão de todos os tempos era preparada para o lançamento ocorrido em 8 de julho . Os humanos não estão mais perto das estrelas do que antes e o programa espacial está em farrapos. Veja na galeria a cronologia dos 30 anos dos ônibus espaciais:

Até aquela minha viagem pelos lançadores, em 1981, o programa espacial era algo que eu havia visto apenas de uma pequena TV preto e branco, com imagem granulada, no meu apartamento em Cambridge, Massachusetts. Criado pela ficção científica, eu conhecia o roteiro: primeiro conquistamos a Lua, depois Marte. De fato, essa era a visão passada em 1969 pelo administrador da Nasa, Thomas O. Paine, e pelo vice-presidente Spiro T. Agnew, mas o presidente Richard M. Nixon não mordeu a isca e a história não ocorreu de acordo com o planejado.

Em 1981, uma década depois das glórias da chegada à Lua pela Apollo, haviam se passado seis anos desde as últimas aventuras da América pelo espaço e os jornalistas lamentavam a “retirada do espaço”. Os ônibus espaciais reutilizáveis deveriam ter tornado as viagens espaciais mais baratas e quase tão rotineiras quanto as viagens aéreas e o lançamento de satélites tão calmo quanto as entregas do correio. Não havia dinheiro para ser feito no espaço, e uma proposta de 'missões secretas’ para manter a nação segura.

Mas o ônibus estava atrasado e fora do orçamento. Aqueles ladrilhos térmicos, vitais para protegê-lo das temperaturas extremas da reentrada, tinham o embaraçoso hábito de descolarem-se. Algumas pessoas chamavam a nave de 'pátio de cerâmica voador’.

Pior ainda, atrasos e estouros de verbas haviam drasticamente esgotado os recursos da agência para ciências. A Nasa não pôde nem enviar uma missão ao cometa Halley.

A maioria dos cientistas que conheço ficariam maravilhados em ver humanos explorando o espaço e pousando em Marte, por exemplo – eles apenas não acham que a ciência deveria pagar a conta. Muitos deles olhavam desconfiados para os ônibus espaciais, por causa dos custos absurdos, e porque fazer instrumentos compatíveis com eles, como os telescópios espaciais, iria comprometer o potencial científico, restringindo-os à órbita baixa da Terra, por exemplo, e tornando-os reféns às exigências dos voos espaciais humanos.

Mas politicamente, se não tecnicamente, o ônibus e o telescópio espacial precisavam um do outro.

A montanha acabou se movendo em 12 de abril de 1981. Acordamos à meia-noite para dirigir por estradas alternativas através da Estação Aérea de Cabo Canaveral e então comermos bolachas de manteiga de amendoim em nossos carros, enquanto aguardávamos o amanhecer e a nova era espacial. Quando os foguetes de combustível sólido do veículo foram ativados, foi como um segundo nascer do sol golpeando nossos rostos oleosos. Os Alpes desapareceram em uma torre bíblica de fumaça e fogo.

Dois dias depois, quando John W. Young e Robert L. Crippen flutuaram de volta ao chão no deserto de Mojave, o estalo duplo do estrondo sônico da Columbia soou como uma mensagem dos deuses. Exultantes por estarem chegando com a dignidade de pilotos de teste em vez de parecer carga sendo jogada no oceano, os astronautas procederam a caminhar empertigados em volta do veículo, inspecionando-o para possíveis talhos ou batidas.

E então, logo estávamos na era do frete espacial para lugar algum, viagens fáceis para órbita, e a visão de astronautas brincando como filhotes de leão-marinho sem peso, nos espaçosos decks e laboratórios dos ônibus espaciais. Mulheres, cientistas, um congressista e um senador, sem mencionar uma lista de astronautas convidados de outros países, marcaram presença em órbita, fazendo experimentos científicos, frequentemente uns com os outros.

Young, que havia estado duas vezes na Lua, redefiniu a noção da 'coisa certa’ quando foi fotografado em sua poltrona de comando com seus óculos de leitura, olhando planos de voo. Judith A. Resnik a redefiniu ainda mais, quando suas longas tranças encaracoladas flutuaram em órbita, como uma coroa negra pairando sobre sua cabeça.

O físico Ronald E. McNair trouxe seu saxofone para tocar no espaço. Havia rumores de levar uma professora de escola para o espaço e até mesmo um jornalista. Aprendemos que até um terço dos astronautas sofria de ataques de mal-estar espacial, até que a Nasa declarou que tais assuntos não eram apropriados para discussões públicas.

Eu estava exultante para assistir a astronautas levantarem voo em meio a pilares de fumaça mas, passado algum tempo, era irritante o fato que eles não estavam indo para lugar algum, para ficar dando voltas ao redor da Terra, e que a ciência que estavam fazendo era entediante em sua maioria, comparada com os resultados que eram enviados pelo veículo espacial Voyager, que explorava os planetas mais longínquos, com custo e riscos consideravelmente menores.

Porque estávamos lá? Eu me lembro da pergunta, feita por um repórter de jornal em altos brados, antes que ele mesmo respondesse. “Estamos em uma vigília de morte”, disse ele.

O ônibus espacial havia sido declarado “operacional” depois de quatro voos, mas nunca poderia se tornar rotineiro. A gravidade pode ser a força mais fraca da natureza, como nos dizem os físicos, mas a violência necessária para vencê-la e nos libertar da Terra foi reveladora para mim quando eu realmente a vi em ação, de perto.

Naquela época, acreditei totalmente na ideia de um veículo espacial reutilizável – afinal de contas, a era espacial havia começado com aviões-foguete como o X-15, que subiam e depois planavam de volta para baixo. Mas o design do ônibus espacial havia sido comprometido pela política e economia – uma versão mais cara e mais segura poderia ter enviado a equipe a altitudes muito maiores, como acontecia com os violentos foguetes de longa marcha da Lua, se não fossem rodeados por foguetes de reforço e um tanque de combustível gigante, no desajeitado arranjo que prevaleceu – e os gestores da Nasa seguiam cegamente seus próprios preceitos.

Na manhã de 28 de janeiro de 1986, eu estava atravessando o estacionamento do Laboratório de Propulsão a Jato em Pasadena, na Califórnia, a caminho do último dia do encontro da Voyager 2 com Urano, quando um repórter do USA Today passou correndo e entrou em uma cabine telefônica. Perguntei a ele sobre o lançamento iminente do Challenger , que levava a bordo a professora Christa McAuliffe. “ Ele explodiu ”, me respondeu abruptamente.

Entrei no prédio para encontrar os meus colegas na sala de imprensa, encarando as telas de televisão, com olhos escancarados e vazios. Metade das telas mostrava Urano, parecendo-se com um enorme olho rodeado por seus tênues anéis, e a outra metade mostrava a nuvem em formato de Y, que era tudo o que havia sobrado da Challenger e de sua tripulação de sete pessoas.

Os sonhos de nos tornarmos Buck Rogers morreram naquele dia. E morreram uma segunda vez, em 1º de fevereiro de 2003, quando o Columbia espatifou-se na reentrada, matando mais sete pessoas, quando seu isolamento de espuma fez um buraco na asa.

Não acompanhei mais o ônibus espacial até 1993, quando assisti ao trem de astronautas como dançarinos de balé subaquático em uma piscina em Huntsville, Alabama, fazerem reparos no telescópio espacial Hubble, que havia famosamente e humilhadamente sido lançado com um espelho disforme. No final do dia, um engenheiro sugeriu que Story Musgrave, o astronauta líder naquela tripulação, mudasse sua rotina e se virasse, em certo momento, para ajustar sua chave de torque. Musgrave o repreendeu, dizendo que essas mudanças de último segundo colocavam a missão em perigo.

As missões do Hubble, cinco ao todo, foram os últimos momentos do ônibus espacial. No fim, o Hubble realmente havia precisado do ônibus e de seus astronautas . Tudo atingiu um ápice de alta tecnologia, baixa tecnologia, dois anos atrás, quando Michael J. Massimino, personificando seu tio Frank consertando o carro em Long Island, arrancou um corrimão do lado do telescópio para conseguir chegar ao espectrógrafo quebrado que estava embaixo.

Aquele espectrógrafo poderia, algum dia, ter nos fornecido alguma pista para a descoberta de um outro planeta Terra.

O Hubble está agora sozinho com as estrelas, sua visão tão incomparável quanto foi desenhada para ser. Mas a América ainda não tem nenhuma visão para seu programa espacial, nenhum plano para onde ir em seguida, ou como.

Não consigo culpar a Nasa por isso. A Nasa trabalha para o presidente, e o presidente pode fazer apenas o que o Congresso lhe dê dinheiro para fazer. E o Congresso responde ao povo – que aqui pode ser definido como seus contribuintes de campanha. Eles apenas têm feito o que acham que tem que fazer; mas um astrônomo que conheço, e que cresceu com os mesmos sonhos e expectativas de ficção científica que eu, certa vez descreveu-se como sendo membro da “geração trapaceada”.

Não espero mais ver pegadas em Marte durante meu tempo de vida, nem espero que a pessoa que eventualmente venha a fazer essas pegadas esteja sendo paga pela Nasa ou mesmo que fale inglês.

Durante as missões do ônibus espacial, você não conseguia imaginar além dos antigos foguetes Saturn 5, quando sentado do lado de fora dos centros espaciais Johnson e Kennedy, e não pensar com reverência nos gigantes que haviam construído esses foguetes e enviado seres humanos por todo o caminho até a Lua. Não posso evitar o sentimento de que algum dia, nós vamos passar por aqueles veículos espaciais, agora a caminho de museus, e admirar seus instrumentos de conforto, flexibilidade e pesquisa aerodinâmica, que ocorreram no processo de aprendizado sobre como se voar em Mach 25. E imaginar quem construiu essas coisas.

Eu desejo ao comandante Christopher Ferguson e seus camaradas um voo seguro e glorioso, a bordo de sua falha, mas magnífica, carruagem. E maiores e mais corajosos sonhos para todos nós, no futuro.

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