Turismo espacial pode significar grande salto para pesquisadores

Cientistas poderão levar seus experimentos ao espaço mais rapidamente e com maior frequência

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Lou Beach/The New York Times
Turismo possibilita baixo custo das viagens espaciais
Se tudo correr como planejado, dentro de alguns anos turistas estarão voando para o espaço a bordo de um avião espacial Virgin Galactic – pagando US$ 200 mil por cerca de 4 minutos de microgravidade – antes de voltar e pousar numa pista de aterrissagem no Novo México.

No assento ao lado pode estar um cientista que trabalha num experimento de pesquisa.

A ciência, talvez mais que o turismo, pode se transformar num grande negócio para a Virgin e outras empresas que estão buscando oferecer viagens curtas acima de 100 quilômetros de altitude que marcam a entrada oficial no espaço interplanetário, quem sabe até diariamente.

Uma passagem de US$ 200 mil é de preço proibitivo, exceto para alguns abastados, mas em comparação aos milhões de dólares que agências do governo como a NASA normalmente gastam para levar experimentos para o espaço, “é revolucionário”, disse S. Alan Stern, vice-presidente associado da divisão de ciências espaciais e engenharia do Southwest Research Institute, em Boulder, Colorado.

Ele é um animado entusiasta das possibilidades científicas do que hoje é conhecido em círculos aeroespaciais como viagem suborbitária. Tão importante quanto o baixo custo, os cientistas poderão levar seus experimentos ao espaço mais rapidamente e com maior frequência, disse Stern.“Realmente estamos à beira de algo transformador”, acrescentou.

Mark Greenberg via The New York Times
Avião da Virgin Galactic White Knight Two levando o veículo a Space Ship Two (centro) durante um vôo de teste
O instituto de Stern anunciou recentemente que tinha assinado um contrato e pago o depósito para enviar dois de seus cientistas na SpaceShipTwo da Virgin. O Southwest também tem intencao de comprar mais seis assentos – um total de US$ 1,6 milhão em passagens.

Isso se segue a um anúncio realizado nos últimos dias de que o Southwest está comprando seis assentos de outra empresa suborbitária, a XCOR Aerospace, de Mojave, Califórnia, que vem cobrando US$ 95 mil para um assento para turistas. O avião espacial Lynx, da XCOR, transporta apenas duas pessoas – o piloto e o passageiro pagante.

“Geramos três cargas pagas”, disse Stern. “Estamos comprando passagens, antes que haja um programa governamental para fornecedores suborbitários, para que nosso próprio pessoal voe com esses experimentos”.

Um dos experimentos do Southwest observará como se comportam solo e rochas como aquelas que cobrem os asteróides. Outro embarcará um telescópio ultravioleta que voou no ônibus espacial Discovery em 1997. O terceiro é um equipamento biomédico para medir batimentos cardíacos, pressão arterial e outros parâmetros físicos do cientista durante o voo.

Ainda não foi estabelecido quando os experimentos chegarão ao espaço.

Nenhuma empresa anunciou ainda quando voos comerciais serão iniciados, mas a SpaceShipTwo poderia voar uma ou duas vezes por dia, e a Lynx foi projetada para até quatro voos diários.

A Virgin já realizou testes de voo planado sem energia para a SpaceShipTwo, com capacidade para seis passageiros, no Spaceport America, no Novo México, e logo iniciará testes com energia. A XCOR pode começar a executar testes para a Lynx ainda este ano.

Duas outras empresas – a Blue Origin, criada por Jeff Bezos, fundador do Amazon.com, e a Armadillo Aerospace – também estão desenvolvendo espaçonaves para turistas. Outra empresa, a Masten Space Systems Inc., está desenvolvendo um veículo suborbitário que transportará apenas cargas pagas, não passageiros.

Mesmo se apenas algumas dessas empresas tiverem sucesso, a perspectiva é que, em alguns anos, centenas de voos suborbitários possam decolar todos os anos. Stern previu que, embora um único voo oferecesse apenas alguns minutos de microgravidade, o tempo cumulativo dos experimentos suborbitários poderia rapidamente ultrapassar o da Estação Aérea Espacial, que está em órbita há mais de uma década.

A NASA voará cargas científicas automatizadas em foguetes Masten e Armadillo este ano, e a agência oferecerá mais oportunidades para os pesquisadores nos próximos anos, embora não tenha se oferecido para comprar assentos para que as pessoas acompanhem seus experimentos.Para os cientistas, isso poderia finalmente dar-lhes pronto acesso ao espaço.

“É quase impossível levar pesquisas para a estação espacial no momento”, disse Mark Shelhamer, professor da Johns Hopkins University que gostaria de estudar o equilíbrio e outras capacidades sensoriais motoras das pessoas antes e depois de voos suborbitários.

Na Terra, a gravidade é a força dominante, e muitos processos comuns – a forma como a água ferve, por exemplo, e como o fogo queima – se comportam de forma bastante diferente sem ela. Porém, muitas das teorias que descrevem como a física funcionaria em microgravidade ainda não foram detalhadamente testadas.

Os cientistas atualmente possuem poucas opções para investigar a ausência de gravidade. Eles podem deixar cair o experimento de uma torre alta, o que oferece alguns segundos de gravidade zero antes de se espatifar no chão.

Eles podem enviar o experimento num avião que voa uma trajetória arqueada conhecida como parábola, que oferece até meio minuto de aparente ausência de gravidade. Ou podem levar algo até a Estação Aérea Espacial, onde a força da gravidade está sempre ausente.

Os voos suborbitários oferecerão uma oportunidade que se enquadra entre os voos parabólicos de avião e a estação espacial.

Os novos veículos comerciais são basicamente projéteis propulsados por foguetes que fazem um arco para cima e depois caem, sem jamais chegar perto da velocidade de 17.500 milhas por hora necessária para alcançar a órbita.

No topo do arco, os passageiros flutuam por alguns minutos.

Os voos suborbitários também permitirão que cientistas atmosféricos explorem em detalhes a atmosfera intermediária da Terra, que se estende de 48,38km a 80,46km acima da superfície e não pode ser facilmente observada a partir da Terra ou satélites. Biólogos também esperam estudar como as pessoas, que dependem da gravidade para saber o que é embaixo e o que é em cima, respondem aos rápidos giros de gravidade durante um voo suborbitário.

Refletindo o interesse na comunidade científica, mais de 300 pessoas estão inscritas para participar de uma conferência esta semana na University of Central Florida, em Orlando, organizada por Stern, para discutir a pesquisa suborbitária. Segundo ele, os pesquisadores “votam com os pés quando vão a esses encontros”.

Na conferência, as empresas de voos suborbitários trarão atualizações sobre seu progresso, e os cientistas discutiram os tipos de pesquisa possíveis.

O Southwest Research Institute é o primeiro cliente pagante científico da Virgin, que já tem depósitos de mais de 400 supostos turistas espaciais.

George Whitesides, diretor executivo, disse que os avanços científicos e tecnológicos podem se tornar um grande mercado. “Achamos que muitas novas aplicações e estudos florescerão com esse tipo de acesso – um acesso que não existe hoje”.

Whitesides afirmou que os experimentos científicos geralmente voariam separadamente dos turistas, embora pesquisadores com experimentos biológicos discretos possam embarcar num voo turístico. “É claro, não vamos misturar as duas categorias no mesmo voo se acharmos que uma teria impacto negativo sobre a outra”, disse ele.

Nem todos os experimentos exigem que o cientista seja passageiro. A Blue Origin, por exemplo, selecionou três cargas pagantes científicas que irão embarcar em voos-teste não-tripulados de seu veículo New Shepard. Um dos cientistas da Blue Origin é Joshua Colwell, professor de física da University of Central Florida, que deseja entender como grãos de poeira no começo do sistema solar se uniram através de colisões de alta velocidade e se transformaram em planetesimais de cinco milhas de largura, que então se uniram para formar planetas.

Em 1995, Colwell se registrou junto à NASA para embarcar seu experimento no ônibus espacial, e chegou a voá-lo duas vezes, em 1998 e 2001, mas ele não conseguiu enviar pesquisas de acompanhamento desde então.

Para os experimentos de Colwell, que exigem apenas alguns minutos de gravidade zero, os voos suborbitários poderiam funcionar tão bem quanto voos mais caros em ônibus espaciais. E ele espera ser capaz de voá-los muitas vezes por ano, em vez de apenas uma vez em alguns anos. A Blue Origin não revelou quando os voos de teste podem ocorrer.

Um dos pesquisadores da Blue Origin, Steven Collicott, da Purdue University, observa como a tensão superficial – a força que faz com que gotas de chuva se transformem em continhas sobre folhas – empurra líquidos no espaço. Sem a gravidade, esses chamados efeitos capilares são as forças dominantes em líquidos.

Collicott, que já colaborou em experimentos na estação espacial, disse que os voos suborbitários seriam um complemento à estação, não uma substituição.

“Acho que, inicialmente, trata-se de duas oportunidades amplamente diferentes, de fato”, afirmou. Na estação, “a capacidade de executar um experimento por horas e horas é absoluta. Nesses novos foguetes suborbitários, podemos ter três minutos, mas é muito mais barato. É bem mais rápido”.

Ele disse que seu experimento da Blue Origin, financiado pela National Science Foundation, custa US$ 20 mil. Ele também tem alguns experimentos menores construídos por estudantes de graduação por menos de US$ 1 mil.

Esses devem embarcar em voos da Masten e da Armadillo.

“É um ótimo acréscimo às instalações disponíveis para pesquisa hoje”, disse Collicott.

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