Livro avalia razões científicas por trás das pequenos aborrecimentos do dia-a-dia

Você se enfurece com os alarmes de carro que nunca param, com unhas arranhando a lousa e com um pernilongo zunindo em torno do seu ouvido? As prolongadas birras de uma criança, você mesmo ou alguma outra pessoa são capazes de te levar à loucura? Em outras palavras, certos aborrecimentos são específicos de cada pessoa, outros são universais à espécie, e alguns, como o pernilongo, chegam a ser uma tortura a todos os mamíferos. Se alguma vez já existiu um tópico de pesquisa para os cientistas estudarem por que somos quem somos, este certamente é um deles.

Por essa razão, conforme Joe Palca e Flora Lichtman esclarecem em sua pesquisa incrivelmente interessante, ainda existem mais perguntas do que respostas nos dois estudos sobre o que incomoda as pessoas e a disciplina intrinsecamente relacionada ao que faz com que elas se sintam incomodadas.

Palca e Lichtman --ele é correspondente científico da NPR e ela é editora do programa “Science Friday” da rede -- percorrem o globo na tentativa de tratar do assunto, e, a princípio, seu progresso parece um tanto randômico, como um daqueles vácuos robóticos. Mas, no final das contas, eles conseguem cobrir todas as partes do terreno: desde física e psicologia até estética, genética e até tratamento para os miseráveis aborrecimentos.

Formular uma definição plausível de aborrecimento é um desafio persistente para os pesquisadores. Alguns o consideram a forma mais fraca da raiva, apenas uma fúria diluída. Outros falam de traços de repugnância (um convidado que insiste em arrotar à mesa do jantar), desagrado (um concerto musical sem tons definidos) e até pânico (aquela reação visceral de desespero ao ver uma unha arranhando a lousa).

E assim surgem algumas constantes. Aborrecimento é desagradável. Ele segue um padrão, porém imprevisível. Ele certamente irá acabar em algum momento, mas não se sabe quando. Na verdade, ele não é prejudicial nem perigoso, mas geralmente carrega algo que seja.

Em suma: ele entra de repente na sua cabeça e assume o controle. Se for um som, ele ocupa o suficiente da sua atenção a ponto de interferir em outros pensamentos. Se estiver ligado a uma situação, ele o afasta de onde você deseja estar (a receita informa que se usem dois ovos e você só usa um). E se for uma pessoa atrasada (de novo!), ele afeta das duas formas.

Como muitos dos aborrecimentos são auditivos, acaba sendo particularmente fácil estudar os sons. Certas vezes, o contexto cria o problema, como um “semidiálogo” de uma conversa pelo celular: nosso cérebro é capaz de ignorar uma conversa inteira, mas parece programado para prestar atenção somente a meia conversa. Algumas vezes, o aborrecimento é o próprio som. Um dos grupos de pesquisa apontou que frequências intermediárias, algo entre um estrondo e um agudo, incomodam mais as pessoas do que o extremo entre um e outro. A reação ao som pode ser algo cultural, mas às vezes não: até mesmo membros de uma tribo africana isolada apresentaram sinais de incômodo devidos à música desafinada.

Alguns sons parecem incomodar por natureza, como o choro de um bebê. Um dos pesquisadores sugeriu que as unhas arranhando a lousa nos incomodam porque o nosso mesencéfalo primitivo ouve nelas as lamentações de um primata.

Além disso, algumas vezes o problema está mais nos ouvidos do que no próprio som. Pessoas com audição perfeita relatam que são diariamente levadas à loucura em decorrência de meios-tons indefinidos que não se adaptam ao comando de seu cérebro.

Palca e Lichtman sempre se divertem quando o assunto são os grandes repositórios de aborrecimentos: os colegas. Existe algum protótipo para uma pessoa que incomoda por natureza, parecendo um alarme de carro com duas pernas? Obviamente, existem muitos.

Existem pessoas que apresentam “hábitos estranhos, atos impensados e comportamentos inconvenientes”_e nós somos incomodados por esses que violam as regras sociais. E aí existem as infindáveis variações sobre a personalidade desastrosa. Em primeiro lugar na lista de traços que tendem a incomodar os outros, curiosamente está aquele de ser constantemente incomodado. Ele se torna chato e arrogante.

E o que dizer sobre a pessoalmente irritante esposa, que foi tão encantadora no início da relação e hoje é exatamente o oposto? Estudos indicam que precisamente esses traços que um dia foram atrativos começam a causar repulsa. Antes ele era carinhoso, agora ele é frio. Antes ela era adorável, agora é sufocante. Nesse caso, o problema parece estar relacionado à dosagem.

Pessoas que se incomodam ao ponto da irritabilidade devem passar por exames médicos: certas doenças neurológicas começam assim bem antes de outros sintomas aparecerem. Para pacientes nesse estado, antidepressivos costumam fazer milagres.

Para outras vítimas, as infelizes, existem métodos mais rápidos. Assim, quando você chutar minha cadeira, posso fingir que sou japonês, pois parece que o idealismo asiático de subjugação do “eu” para o grupo resulta em menos aborrecimento com o próximo. Eu poderia tentar mudar minha expectativa de que, quando sentada tranquilamente, não fosse sacudida feito uma vara de pescar, pois parece que, entre macacos de laboratório, expectativas contrariadas são a principal causa do aborrecimento. Ou posso apenas me virar, olhar para você e pedir gentilmente que pare com isso. Assim ficarei feliz. E você é quem ficará incomodado.

Notas de publicação: ‘`The Science of What Bugs Us’ De Joe Palca e Flora Lichtman. Wiley. 272 páginas. US$ 25,95.

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