Casos da doença nos 20 municípios que usam o sistema criado pela instituição caíram pela metade em relação às outras cidades

Um sistema de monitoramento e controle da dengue criado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) está mostrando eficácia no combate à doença. Os 20 municípios que utilizam a tecnologia desde 2009 registraram a metade dos casos de dengue ocorridos nas cidades mineiras que não possuem o mesmo tipo de controle.

O criador do sistema, Álvaro Eiras, conta que o cálculo foi feito com base em comparações entre o número de casos de dengue registrados em 2009 e em 2010. Apenas 5,5% dos municípios que não controlam a doença pelo método da UFMG conseguiram reduzir os casos nesse período. Em 2010, 250 mil pessoas foram infectadas no Estado. No Brasil, foram quase 500 mil casos.

Batizada de MI-Dengue, a tecnologia idealizada por Eiras há quase dez anos ganhou forma e popularidade aos poucos. Chefe do Laboratório de Ecologia Química de Insetos Vetores do Departamento de Parasitologia da UFMG, Eiras quis romper com a lógica de prevenção mais comum no País, que se baseia na pesquisa das larvas do mosquito Aedes aegypti.

O professor decidiu inovar e criar um método que identifica as áreas em que há mais mosquitos adultos circulando. Para isso, ele criou um líquido que “atrai” as fêmeas do inseto para uma armadilha – estruturas de plástico que imitam um criadouro. Os municípios espalham essas armadilhas a cada quatro quarteirões e todas são visitadas semanalmente por agentes.

Munidos de celulares com conexão direta ao sistema informatizado de monitoramento da doença, os agentes informam quantos mosquitos foram pegos nas armadilhas, em qual região, bairro, rua. Os dados são analisados por biólogos e transformados em mapas e planilhas para monitoramento dos gestores, que podem priorizar ações em áreas mais infestadas.

Depois disso, os mosquitos são enviados para laboratórios, onde outros especialistas analisam quais mosquitos estão infectados pelo vírus da dengue. Com amostras do material genético dos insetos, ainda identificam o tipo de vírus que eles carregam. Novamente, as informações são enviadas para o sistema de monitoramento e controle.

Popularidade

O professor da UFMG calcula que, se as cidades que utilizam o MI-Dengue não estivessem controlando a infestação do mosquito com tanta precisão, o número de casos da doença em Minas Gerais aumentaria em 86%. Nesses municípios não houve aumento no número de óbitos em relação a 2009 e, em 2011, nenhuma morte foi registrada por causa da dengue.

Ele afirma que o custo com a tecnologia é de R$ 1,30 por habitante a cada ano, o que compensaria o dinheiro gasto com hospitalizações, medicamentos, afastamento das pessoas do trabalho. “A lógica muda. Não controlamos a doença pelas pessoas infectadas e sim pelo mosquito, que deixa de transmitir a dengue. É uma tecnologia preventiva”, analisa o professor.

Todos os produtos criados pela UFMG foram patenteados e as pesquisas, financiadas pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), CNPq e Sebrae. A Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, a Unesco, a Organização Pan Americana de Saúde (Opas), a Anvisa e a Fapesp apoiaram o estudo.

Hoje, o sistema é comercializado pela empresa de biotecnologia Ecovec, que nasceu na instituição e financia projetos de pesquisa na universidade. Mais de 50 cidades brasileiras já utilizaram a tecnologia – entre os municípios mineiros estão Governador Valadares e Montes Claros. A Austrália também usa o sistema e, em Cingapura, há testes sendo realizados.

“Agora, estamos desenvolvendo uma metodologia para eliminar os mosquitos no bairro onde forem encontrados”, conta Eiras.

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