Taxonomistas: espécie ameaçada de extinção

Os catalogadores de espécies são cada vez menos numerosos na comunidade científica. Restam apenas poucos milhares deles no mundo

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Menino examina coleção de besouros: os taxonomistas, que catalogam espécies, estão cada vez mais raros no mundo científico
Estaríamos privados de uma molécula milagrosa contra o câncer por causa de uma planta ainda desconhecida? Menos de 2 milhões de espécies foram identificadas até hoje de 10 a 30 milhões estimadas, mas a ciência que permite inventariá-las, a taxonomia, está ameaçada de desaparecer.

Pouco rentável, negligenciada pelas grandes instituições internacionais, a taxonomia mereceria uma oração fúnebre neste Ano Internacional da Biodiversidade se não fosse por um pequeno grupo persistente, de cerca de apenas 1.000 pessoas na Europa, alguns milhares no mundo - principalmente nos países industrializados.

Na França, o Museu Nacional de História Natural de Paris é o "último bastião" com cem especialistas, indica seu presidente, Gilles Boeuf. "Mas grupos importantes não têm mais especialistas ou eles estão prestes a se aposentar".

Os pulgões e as medusas já estão órfãos, restando apenas dois taxonomistas para os coleópteros, (ordem da qual participam os besouros), com apenas um terço de espécies já identificado. Também são órfãos, ou quase, os anfíbios e os cogumelos, entre outros.

"Cerca de 16 mil espécies novas são identificadas por ano, seriam necessários de 700 a 1.000 anos de trabalho para identificar todas, mas não há tempo: corremos o risco de perder a metade até o final do século", insiste Gilles Boeuf. "Ainda não somos capazes de saber com antecedência o que é útil para a humanidade ou não".

Especialista principalmente em pinguins, Yvon Le Maho menciona com frequência a descoberta de um peptídio bactericida no estômago da ave, que permite a ela manter intacta por várias semanas o pedaço de comida que leva a seu filhote. Esta descoberta poderá permitir lutar de maneira mais eficaz contra as infecções hospitalares. "Imaginem se todos os pinguins tivessem acabado nos barcos pesqueiros do século XIX?"

No mar, a situação é ainda pior. "O oceano profundo tem dez vezes o volume das terras e identificamos cerca de 1.500 espécies novas por ano. Ainda descobrimos, em 2003, uma baleia de 12 metros: o que dizer dos micro-organismos!", alerta Daniel Desbruyères, especialista em ecossistemas marinhos profundos do Instituto Francês de Pesquisas para a Exploração do Mar (Ifremer).

A alguns meses de sua aposentadoria, este especialista ainda se revolta: "Estamos em um planeta do qual ignoramos 80% e não somos capazes de investir três tostões para conhecê-lo melhor".

A taxonomia moderna, herança do botânico sueco do século XVIII Carl von Linné, conhecido como Lineu, sempre foi beneficiada pela ajuda de amadores esclarecidos, amantes das borboletas ou dos insetos.

"Mas esses não-profissionais se dedicam a espécies populares e de fácil acesso, e não aos vermes ou às medusas, que precisam de um material sofisticado", disse Simon Tillier, professor e presidente do programa EDIT (European Distributed Institute of Taxonomy) que reúne trinta instituições europeias.

Citando como exemplo a fauna dos recifes de corais, ele acrescenta: "Conhecemos o que vemos, mas o tamanho médio de um gasterópodo [moluscos como o caracol] é de menos de 5 mm".

E a simples descrição não é mais suficiente, ressaltam os especialistas. Muitos dos taxonomistas ainda em atividade não passaram "a um estágio superior", segundo Gilles Boeuf, o da da análise molecular, que permite identificar os genes dos organismos, descrever suas relações com os outros, com seu ambiente e com o homem.

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