Serotonina, o hormônio multiuso

Pesquisadores descobrem que a substância desempenha um grande número de funções no corpo humano, ainda antes do nascimento

The New York Times | 05/06/2011 15:15

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Agora que você pensava que a serotonina estava obsoleta e jogou fora todos os vidros de inibidores seletivos de receptação de serotonina pela metade porque aqueles que não lhe provocavam náusea ou diminuíam sua libido te deixaram pensando que estava sob o poder de um placebo de um ensaio clínico, surge uma leva de novas descobertas que está colocando essa pequena, antiga e aparentemente impotente molécula de volta ao centro das atenções.

Pesquisadores aprenderam recentemente que a serotonina desempenha um número impressionante de papéis fundamentais pelo corpo, abaixo e acima do pescoço, e desde os primeiros dias da sensibilidade pré-natal. Um grupo descobriu que a serotonina começa a se infiltrar no encéfalo frontal embrionário durante o primeiro trimestre da gestação, ajudando a formar os circuitos neurais, os quais posteriormente na vida serão usados para aprender, emocionar e consultar um psiquiatra.

Ainda mais surpreendente, Pat Levitt do Zilkha Neurogenetic Institute na University of Southern California e seus colegas reportaram na edição de 21 de abril da revista Nature que o criador de toda a serotonina arquitetônica pré-natal é um órgão há muito dispensado como passivo e esquecido: a placenta.

Outros pesquisadores apontaram que a serotonina do estômago ajuda a orquestrar a remodelação dos ossos, o acúmulo e repartição de osteoclastos e osteoblastos que fazem do esqueleto humano um sistema orgânico tão fascinante.

As últimas descobertas podem nunca solucionar satisfatoriamente o dilema farmacológico relacionado àquilo que o psiquiatra Kay Redfield Jamison chamou de “angústia existencial comum” e outras “doenças do ser”, porém podem um dia auxiliar a endireitar o assunto e nos lembram de que vale a pena dar ouvidos à serotonina não importa o que ela tenha a dizer.

“Se eu não admitisse que fiquei surpresa com o tamanho do escopo da função da serotonina e quanto é importante para tecidos como os ossos, eu estaria mentindo”, disse Patricia Ducy, que estuda o efeito da serotonina na biologia óssea no centro médico da Universidade de Colúmbia.

Serotonina é uma molécula pequenina, um bibelô composto por apenas 10 átomos de carbono, uma dúzia de hidrogênio, dois de nitrogênio e apenas um de oxigênio. A molécula foi detectada pela primeira vez em 1948, em soro sanguíneo, e identificada como um agente tônico muscular que faz com que os vasos sanguíneos se contraiam – daí seu nome, uma junção de “soro” e “tônus”. Cinco anos depois, cientistas encontraram serotonina em extratos do cérebro também, e logo perceberam que a droga alucinógena recém-inventada dietilamida de ácido lisérgico (ou LSD) funcionava interferindo no sistema de serotonina do cérebro e, se fosse usada em excesso, poderia fazer com que o usuário acabasse usando perucas extravagantes.

Serotonina e moléculas similares também foram encontradas nos reinos animal, vegetal e em fungos. Como vasoconstritor, a serotonina é potente como um ferrão de abelha, e como hormônio é poderosa o suficiente para especificar o plano de formação corporal de um ouriço marinho ainda em desenvolvimento no ovo.

Para sintetizar a serotonina, humanos e outras espécies começam com triptofano, um aminoácido essencial encontrado em diversos itens da nossa dieta incluindo peru, queijo, tofu, nozes, sementes e bananas, uma fruta que, a despeito de ser alvo de piadas, sempre acaba entrando nas listas de “alimentos muito saudáveis com possível valor medicinal”.

Muito esforço foi despendido no estudo de como a serotonina age no cérebro, onde funciona como um neurotransmissor, um elemento químico que faz as células cerebrais enviarem mensagens entre si através de seu código Morse de impulsos. No cérebro adulto, toda serotonina é fornecida por uma porção de células localizadas no rombencéfalo, acima da medula espinhal, mas esses neurônios compartilham sua magnanimidade de forma vasta através de projeções filamentosas.

Não é surpresa que o sistema de sinalização da serotonina seja extremamente complexo. Cientistas identificaram 15 receptores de serotonina, proteínas que aderem à serotonina e reagem de acordo. Além disso, há um transportador de serotonina, uma proteína zeladora que remove a serotonina das pequenas fendas entre as células nervosas uma vez que a tarefa de transmissão de mensagens pela molécula tenha sido finalizada.

Por toda essa complexidade, a serotonina no cérebro tem uma personalidade básica. “É uma molécula envolvida em ajudar as pessoas a lidar com a adversidade, a não desistir, seguir em frente e tentar resolver tudo”, disse Philip J. Cowen, um expert em serotonina na Universidade de Oxford e no Medical Research Council. Nas palavras de seu colega da Manchester University, Bill Deakin, “é o neurotransmissor que 'não entre em pânico”', disse Cowen. Dada a descrição das funções da serotonina, distúrbios no sistema podem contribuir para a depressão, ansiedade, crises de pânico e calcificação mental, uma incapacidade de ver o mundo de uma nova maneira – ao menos em pessoas vulneráveis.

Cowen enfatiza que o rompimento da serotonina sozinho não causa depressão diretamente. Experimentos mostraram que se a produção de serotonina for zerada em pessoas normais através de dietas de extrema restrição de triptofano, elas podem nem sentir a diferença; aqueles com histórico de depressão, no entanto, podem muito bem voltar ao seu estado de melancolia.

Prozac, Zoloft e outros assim chamados inibidores específicos de recaptação de serotonina procuram intensificar o tráfego de serotonina bloqueando o transportador, permitindo que o neurotransmissor fique mais tempo em átrios neuronais para continuar fornecendo estímulos a qualquer receptor que estiver pronto para recebê-los.

Uma nova classe de antidepressivos vai mais longe, focando não somente no transportador, mas também em um ou mais dos 15 diferentes receptores de serotonina, uma abordagem que pode aumentar a efetividade da droga ao mesmo tempo que limita os efeitos colaterais. No começo desse ano, a Food and Drug Administration aprovou uma dessas novidades farmacológicas, um antidepressivo chamado Vilazodone, que parece estar livre de alguns dos mais incômodos efeitos colaterais presentes nas drogas tradicionais que agem somente nos transportadores como, por exemplo, o notório ganho de peso e dificuldades sexuais. É tentador perguntar ao psiquiatra a respeito, mas por enquanto continuarei com as bananas.

Muito da nova pesquisa sobre serotonina foca na molécula agindo não como um neurotransmissor, um transportador de informações, mas como um hormônio, um modelador de tecidos. Em novo artigo da revista “Nature”, Levitt e os coautores descreveram seus estudos sobre o desenvolvimento neural precoce em ratos e como perceberam que, ao redor do décimo dia de gestação – o equivalente à oitava semana em humanos, aproximadamente – o encéfalo frontal do rato começava a ser inundado de serotonina, fluxo que continuava até o que seria a metade da gestação. Nenhuma outra parte do cérebro era temperada com serotonina, apenas o encéfalo frontal.

Os pesquisadores reuniram previamente evidências de que a serotonina servia para estimular o crescimento de novas conexões neurais em vez de incitar atividade sináptica em neurônios já existentes; afinal, a infraestrutura do encéfalo frontal era ainda muito rudimentar para começar a fazer ligações.

Mas qual era a fonte da serotonina anabólica? Por meio de uma série de experimentos, pesquisadores excluíram outras partes do embrião, incluindo o rombencéfalo, excluíram a mãe e finalmente se voltaram ao “gêmeo” silencioso e sem cabeça do embrião, a placenta. A placenta sintetiza serotonina e a envia direto ao encéfalo frontal. “Faz sentido que esses circuitos envolvidos com o humor, emoções, confrontar desafios no ambiente”, disse Levitt, “tenham sido eles mesmos moldados pelo ambiente anteriormente” – um tutorial da placenta, escrito com serotonina e uma irrevogável cortesia materna. “A única maneira de a placenta obter triptofano”, disse Levitt, “é pela mãe”.

A serotonina neuronal pode ser mais bem conhecida, mas assim como a grande maioria da oferta de serotonina do corpo, mais do que 95 por cento, é sintetizada fora do cérebro, principalmente no estômago. Os dois estoques de serotonina são mantidos estritamente segregados pela barreira sangue-cérebro, no entanto, e são capazes de agir por caminhos inteiramente independentes.

Novas pesquisas sugerem que nossos ossos beneficiam-se de ambos os circuitos de serotonina, para administrar a delicada dança entre suas duas castas celulares: os osteoblastos construtivos, que se acumulam para construir a estrutura óssea, reparar fissuras e tapar buracos, e os osteoclastos destrutivos que lascam as partes antigas e deterioradas de tecido ósseo a ser reposto.

Conforme descrito por Ducy, Gerard Karsenty e seus colegas em uma série de artigos publicados no “Journal of Cell Biology”, “Nature Medicine” e outros, o osso depende indiretamente das cascatas de serotonina para estimular os osteoblastos e inibir a ação destrutiva dos osteoclastos.

A serotonina do estômago, por outro lado, mantém a formação de ossos em xeque: suprime a ação dos osteoblastos que fazem tecido ósseo fresco, porém não diz nem sim nem não aos osteoclastos. Em experimentos com camundongos e ratos com osteoporose severa, os pesquisadores demonstraram que, ao utilizar uma droga que cortasse a produção estomacal de serotonina dos roedores em apenas 40 por cento, liberaram os osteoblastos carpinteiros dos animais tão bem que mesmo os esqueletos mais frágeis e ocos foram recompostos a um estado de novo.

“Nós não conseguimos encontrar nenhum efeito colateral do tratamento”, disse Ducy, “provavelmente porque nós não precisamos erradicar totalmente a sintetização de serotonina para ver o impacto positivo no osso”. Serotonina pode ser vital ou malévola, oferecendo calma durante a adversidade ou porosidade no esqueleto. Às vezes a serotonina fala demais, é melhor mesmo só desligar o telefone.

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