Segundo especialistas, medo de radiação japonesa é exagerado

População está exposta várias fontes de radiação, como raios-x, sem riscos significativos à saúde, afirmam os cientistas

The New York Times |

O desastre nuclear no Japão emitiu ondas de radiação e medo pelo mundo todo.

O número de pessoas comprando detectores de radiação e iodeto de potássio – usado no tratamento do câncer da tireoide – foi tão grande que os estoques rapidamente se esgotaram.

Segundo especialistas, o medo não se justifica. Cientistas afirmam que as pessoas próximas da usina de Fukushima podem ter motivos para temer as consequências de um vazamento radioativo e alguns operários dos reatores podem sofrer problemas de saúde. Fora do Japão, porém, o desdobramento é minúsculo – especialmente se comparado a diversas outras fontes de radiação do passado e do presente.

Especialistas dizem que humanos são bombardeados por tanta radiação, de tantas outras fontes, incluindo as naturais, que o pequeno aumento no Japão desaparece como causa de ansiedade assim que o cenário geral é considerado.

Essa perspectiva sugere uma população humana – e um ambiente global – em que a exposição à radiação é constante e significativa. Por exemplo, durante a Guerra Fria, pessoas do mundo todo foram expostas à radiação residual de centenas de testes com bombas nucleares na atmosfera. Hoje, pacientes médicos escolhem enfrentar doses regulares de radiação, ao fazer milhões de exames de raios-X e tomografias computadorizadas.

Nos oceanos, milhares de cilindros de lixo radioativo em decomposição apresentam riscos maiores do que as águas radioativas liberadas pela usina de Fukushima, em quantidade relativamente menor. E a radiação natural de rochas, raios cósmicos e outros aspectos do ambiente, segundo especialistas, representa o maior de todos os fatores – muito superior a todas as emissões criadas pelo homem, incluindo o atual acréscimo dos reatores japoneses.

“Isso desaparece como fator que contribui para as doses de radiação da população”, declarou Frank N. von Hippel, físico nuclear que assessorou a administração Clinton e hoje leciona na Princeton University. Mas o medo de radiação é diferente. “De alguma forma”, acrescentou, “coisas nucleares ficam estigmatizadas em relação a seus riscos estatísticos”.

Medo de conspiração
Após o início do desastre japonês, em 11 de março, blogs falaram em conspirações governamentais para encobrir perigos radioativos e grupos de interesse público soaram alarmes.

A Dra. Dale Dewar, diretora executiva do grupo Physicians for Global Survival, que defende a abolição das armas nucleares, disse que o acidente colocava gerações futuras num mundo com níveis elevados de radiação de fundo. “Seu cabelo não vai cair”, ela disse ao jornal “Vancouver Sun”.

“Mesmo assim, dizer que 'não há perigo imediato’ é uma forma muito simples de a indústria nuclear minimizar os efeitos em longo prazo”.

Até mesmo Washington sentiu a tensão. Em 15 de março, quatro dias após o início do desastre, a cirurgiã-geral dos EUA, Regina Benjamin, afirmou que não seria nenhum exagero se os americanos estocassem pílulas de iodo.

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“Trata-se de uma precaução”, declarou. Seu gabinete voltou atrás dois dias depois, após o presidente Barack Obama afirmar que os americanos não precisavam tomar medidas preventivas.

“A maioria das pessoas não conhece bem os riscos”, disse numa entrevista o Dr. Fred A. Mettler Jr., professor de radiologia da Universidade do Novo México e representante dos EUA num painel de avaliação radioativa da ONU.

“Elas não sabem a magnitude das fontes e por isso não conseguem colocar os riscos em perspectiva”.

O jargão não ajuda. A radiação é medida em unidades obscuras, que se alteram significativamente conforme a intensidade da emissão e se as unidades caracterizam radioatividade em si ou a interação da radiação com o corpo humano. Diz-se que fontes radioativas emitem “curies” ou “becquerels” de radiação, mas o efeito sobre seres vivos é medido em “sieverts” ou “rem” (sigla em inglês para “equivalente de roentgen no homem”).

Tendo em mãos informações aparentemente caóticas ou incompletas, as pessoas podem basear suas percepções de risco atômico numa volátil mistura de histórias sensacionalistas e instintos.

“O risco se apresenta geralmente como um sentimento”, afirmou Paul Slovic, pioneiro da psicologia nuclear na Universidade do Oregon. “É uma rápida reação instintiva, muitas vezes desencadeada por alguma imagem”, principalmente de filmes e da televisão.

Mettler diz que “as crianças dos EUA são bombardeadas por todo tipo de absurdo pela televisão, desde seus seis meses de idade”. Segundo ele, personagens de desenhos como Incrível Hulk, Homem-Aranha e Homer Simpson, que experimentam efeitos radioativos cientificamente impossíveis e altamente divertidos, tendem a proporcionar “lições de biologia da radiação” à maior parte do país.

Slovic citou a radiação médica como exemplo da variabilidade na percepção dos riscos.

Muitos especialistas acham que o público recebe uma dose potencialmente perigosa. Contudo, ele diz que o próprio público não pensa dessa forma. “Somos muito tolerantes quanto à exposição”, declarou Slovic numa entrevista. “Nós queremos ou precisamos dela, então a vemos como uma tecnologia bastante benéfica. Assim, o senso de risco é reduzido”.

De forma similar, países que usam muito a energia nuclear tendem a ver os reatores como benéficos, disse ele. “Mas onde não se tem essa forte percepção”, apontou ele, o desastre no Japão “deve elevar os temores”.

Em 1955, a Assembleia Geral das Nações Unidas votou pela criação de um comitê científico que avalia e relata regularmente sobre perigos radioativos, possibilitando comparar a magnitude de diferentes fontes de radiação.

Durante a Guerra Fria, por exemplo, mais de 500 detonações encheram a atmosfera mundial de terríveis materiais radioativos, alguns dos quais ainda emitem radiação.

“A precipitação de radiação residual”, observou um relatório da ONU, “representa uma fonte de contínua exposição até os dias atuais”.

Números da ONU colocam a radiação total de bombas, ao longo de décadas de testes nucleares atmosféricos, em quase 70 bilhões de curies. Como comparação, o acidente na usina de Chernobyl, em 1986, liberou cerca de 100 milhões de curies dos mais perigosos materiais.

Quanto à usina de Fukushima, autoridades japonesas declararam, em 12 de abril, que o complexo de reatores havia liberado aproximadamente 10 milhões de curies. Em 1979, o acidente em Three Mile Island liberou cerca de 50 curies no meio ambiente.

Um curie é a quantidade de radiação emitida por um grama de rádio e, em qualquer material nuclear, equivale à desintegração de 37 bilhões de átomos por segundo. Um antigo mostrador luminoso de relógio, com 12 pontos de rádio, emitia cerca de três milésimos de curie.

Os perigos de saúde com a radiação de explosões e acidentes são difíceis de julgar. Como os pesquisadores tentam discernir os efeitos de doses baixas em grandes populações, eles costumam usar estatísticas para realizar estimativas embasadas, em vez de estudar causas e efeitos.

Ethel Gilbert, epidemiologista de radiação no Instituto Nacional do Câncer, e colegas, usaram métodos estatísticos para aferir o risco de câncer para os americanos com a radiação residual de bombas. Os cientistas projetaram que os cidadãos, ao longo de suas vidas, sofreriam 11 mil mortes a mais por cânceres sólidos frente à taxa normal, de 40 milhões de mortes por câncer.

“É uma proporção minúscula do total de cânceres”, afirmou ela.

Gilbert acrescentou ser cedo demais para analisar o acidente japonês, devido à incompletude do cenário. Contudo, considerando o tamanho relativamente pequeno da liberação radioativa e as precauções tomadas pelas autoridades para evacuar a zona de perigo, o resultado provavelmente seria “um minúsculo aumento nos casos” de câncer.

Além disso, segundo muitos especialistas, a ameaça ao povo japonês é provavelmente baixa pois, diferente dos resíduos radioativos da Guerra Fria e de Chernobyl, acredita-se que a maior parte da radiação tenha sido carregada na direção do mar pelos ventos dominantes.

O oceano recebeu muitas explosões radiológicas ao longo das décadas. De 1946 a 1994, ano em que a prática foi proibida, governos do mundo todo despejaram milhares de tambores de lixo radioativo nas profundezas, além de reatores e submarinos abandonados.

Cientistas estimam que o total dos despejos chegue a 4 milhões de curies em material radioativo, tendo a União Soviética como principal responsável por essas eliminações. O enfraquecimento natural reduziu o nível dessa ameaça radioativa ao longo do tempo, mesmo com o apodrecimento de barris e tambores elevando o risco de contaminação ambiental.

Num aterro nuclear próximo às ilhas Farallon, na costa de São Francisco, pesquisas revelaram muitos tambores rompidos e evidências de que alguns materiais radioativos foram disseminados à vida marinha. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA descobriu que esponjas do mar continham quantidades “facilmente mensuráveis” de plutônio 239 e 240 – tipos de materiais radioativos produzidos pelo homem que raramente existem na natureza. Eles apresentam, respectivamente, meias-vidas de 24.360 anos e 6.560 anos.

Mas os seres humanos, e não as criaturas marinhas, são com folga os maiores receptores de radiação artificial – e a maior parte das exposições é intencional. Segundo relatórios da ONU, de 1988 a 2008, o número de exames mundiais envolvendo radiologia diagnóstica mais do que duplicou, de 1,4 bilhão a 3,1 bilhões.

Segundo um recente relatório da ONU, em muitos países as doses procedentes de raios-X e tomografias excederam, “pela primeira vez na história”, a radiação de fundo natural.

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