Sede de justiça pode ter nos ajudado a sobreviver

Crença na reprocidade, capacidade de reprocidade e cooperação são legado da época das cavernas que nos faz viver em sociedade

The New York Times |

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Novos estudos psicológicos e neurológicos mostram que senso de justiça é inerente ao homem
Na tribo ache de caçadores e coletores do leste do Paraguai, espera-se que adultos saudáveis sem prole doem de 70 a 90 por cento da comida que angariarem para os membros mais necessitados do grupo. E quando esses robustos fornecedores de alimento ficam eles mesmos doentes, têm filhos ou envelhecem, eles sabem que podem contar com a tribo para sustentá-los.

Na tribo bosquímana kung do deserto do Kalahari, na África, um caçador bem-sucedido que pode estar inclinado a se vangloriar é mantido sob controle por seus compatriotas por meio de um jogo ritualístico chamado “insultando a carne”. Você nos pediu ajuda para carregar essa carcaça lamentável? O que é isso, um tipo de coelho? Na tribo dos forrageiros hadza do norte da Tanzânia, aqueles que confrontam uma pessoa mesquinha para dividir comida não aceitam simplesmente o que lhes é oferecido. Eles mantêm a mão estendida, de acordo com Frank Marlowe, antropólogo da Universidade de Durham, na Inglaterra, “encorajando o doador a continuar dando até que ele estabeleça um limite”.

No grupo dos maiores executivos dos Estados Unidos hoje, de acordo com uma análise comissionada pelo jornal The New York Times, a média anual de salário é de cerca de US$ 10 milhões e cresce 12 por cento ao ano. Ao mesmo tempo, o resto da tribo dos Estados Unidos da América luta contra um nível de desemprego terrivelmente alto, salários estagnados e a pior crise econômica desde a Grande Depressão. Talvez essa lacuna de riqueza seja um problema temporário e moedas brilhantes logo choverão sobre todos nós.

Porém, se você disser que está rabugento e enfadado em relação ao fato de não ter um emprego, se você está tentado a sair e falar mal de um pedaço de carne corporativo, pesquisadores que estudam a natureza e a evolução da organização social humana não ficariam surpresos.

Darwinistas argumentam que o Homo sapiens tem um desgosto inato para extremos hierárquicos, o legado de nossa longa pré-história nômade quando éramos bandos fortemente unidos vivendo sob regras do campo para construção: a crença na justiça e na reciprocidade, capacidade de empatia e controle de impulsos e uma vontade de trabalhar cooperativamente de forma que nem mesmo nossos antepassados primatas mais inteligentes conseguiriam acompanhar. Assim como Michael Tomasello do Instituto de Antropologia Evolucionária Max Planck apontou, você jamais verá dois chimpanzés carregando uma carga juntos. O advento da agricultura e da vida sedentária pode ter jogado alguns macacos feudais e monarcas na mistura, mas teóricos evolucionistas dizem que nossas tendências igualitárias básicas se mantiveram.

Estudos descobriram que nossa sede por justiça é profunda. Assim como foi reportado por Ernst Fehr, da Universidade de Zurique, e seus colegas na revista Nature, na idade de 6 ou 7 anos crianças são zelosamente devotas à repartição equitativa de bens e punem aquelas que tentam pegar mais do que a porção aritmeticamente correta de Smarties e jujubas mesmo que isso signifique que os próprios punidores precisem sacrificar sua porção de doces.

Em uma pesquisa subsequente ainda não publicada com crianças mais velhas e adolescentes, Fehr e seus colegas encontraram uma compreensão com mais nuances do que é justiça, um reconhecimento de que algum grau de desigualdade pode fazer sentido: a criança que estuda todas as noites merece uma nota melhor que a da preguiçosa. No entanto, disse Fehr, há limites para a tolerância adolescente. “'Um para mim e dois para você’ pode não ser tão ruim”, disse Fehr. “Mas 'um para mim, cinco para você’ não seria aceito”.

Explosão cerebral na injustiça
Senso de justiça é cerebral e visceral, cortical e límbico. Na revista PLoS Biology, Katarina Gospic do Instituto Karolinska, em Estocolmo, e seus colegas descreveram tomografias cerebrais de 35 sujeitos enquanto eles jogavam o jogo Ultimatum, em que os participantes barganham sobre como dividir uma quantia fixa de dinheiro. Imediatamente após ouvir um oponente propor uma divisão de '80 por cento para mim, 20 por cento para você’, os sujeitos envolvidos na pesquisa apresentaram uma explosão de atividade na amídala, a antiga sede do ultraje e da agressividade, seguida por uma excitação nos domínios corticais superiores associados à introspecção, resolução de conflitos e regras de defesa; e 40 por cento do tempo eles rejeitaram furiosamente o acordo por ser injusto.

Esse primeiro chute límbico repentino foi a chave. Ao tomarem uma droga antiansiedade leve que suprimia a ação da amídala, os sujeitos disseram que viam uma divisão 80-20 como injusta, mas sua vontade de prontamente rejeita-la caiu pela metade. “Isso indica que o ato de tratar as pessoas de forma justa e implementar justiça na sociedade tem raízes evolutivas”, disse Gospic. “Isso aumenta nossa sobrevivência”.

David Sloan Wilson, um teórico evolucionista na Universidade do Estado de Nova York em Binghamton, vê o começo da cooperação humana e do espírito de justiça como uma das maiores transições da história da vida na terra, momentos em que organismos individuais ou unidades selecionadas se juntaram e apoiaram sua adaptação ao futuro uns nos outros. Uma grande célula bacteriana engloba uma célula bacteriana menor para formar o primeiro complexo celular eucariótico. Células avulsas se fundem a organismos multicelulares em partes específicas. Formigas e abelhas se tornaram superorganismos com mentalidade de colmeia e deixaram todos os outros insetos para trás.

“Uma grande transição ocorre quando você tem mecanismos para suprimir diferenças de aptidão e estabelecer equidade dentro de grupos, de forma que não é mais possível suceder às custas do grupo”, disse Wilson. “É um evento raro e é difícil iniciá-lo, porém quando se inicia, é possível dominar o mundo rapidamente”. A evolução humana, disse ele, “claramente se inclui nesse paradigma”.

Cooperação permitiu dominação do planeta
Nossa ascensão à dominância global começou, paradoxalmente, quando deixamos de lado as rígidas hierarquias de dominância. “Em um grupo típico de primatas, os indivíduos mais valentes podem fazer o que querem e dominar todo o restante do grupo”, disse Wilson. “Chimpanzés são muito espertos, porém sua inteligência é atribuída à desconfiança”.

Nossos ancestrais precisaram aprender a confiar em seus vizinhos e as sementes do mutualismo podem ser vistas nos nossos gestos mais simples, como a vontade de apontar um objeto escondido a quem o procura: coisa que até crianças bem pequenas fazem. Humanos primitivos também precisaram de formas de controlar aqueles que claramente iriam se tornar valentões, e nossas excepcionais habilidades de lançamento – que pesquisadores especulam que tenha se originado para nos auxiliar a manter predadores distantes – provavelmente ajudaram. “Nós podemos arremessar muito melhor que qualquer outro primata”, disse Wilson, “e uma vez que podíamos arremessar coisas a uma determinada distância, de repente o macho alfa estava vulnerável a ser acertado por pedras. Apedrejar pode ter sido uma de nossas primeiras adaptações”.

Baixa hierarquia não significa ausência de hierarquia. Por meio de estudos etnográficos e transculturais, pesquisadores concluíram que o formato básico de grupos sociais humanos é moderadamente igualitário, não infalivelmente.

Eles encontraram graus de poder e riqueza mesmo entre os grupos mais nômades, mas os degraus tendem a ser amenos. Em uma análise recente de populações caçadoras e coletoras, Eric Aiden Smith, da Universidade de Washington, e seus colegas descobriram que a média do grau ideal de igualdade de rendimentos é pouco mais de metade daquela vista nos Estados Unidos e próxima ao grau de distribuição de riqueza da Dinamarca.

Curiosamente, outro estudo recente descobriu que quando os americanos tiveram a chance de construir sua versão dos graus de riqueza ideais para os Estados Unidos, tanto republicanos quanto democratas chegaram a um gráfico final que se parece com o da Suécia. Não há necessidade de insultar o pedaço de carne na terra do lutefisk.

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