Rivalidades e trapaças no laboratório

Correspondência de Francis Crick e casos de sabotagem ilustram a guerra de egos que pode acontecer no meio científico

Alessandro Greco, especial para o iG |

Courtesy to Cold Spring Harbor Laboratory Library & Archives
Trecho de uma carta de 1955 de Francis Crick a Brenner: troca de farpas
O co-descobridor da estrutura dupla hélice do DNA, Francis Crick (1916-2004), era conhecido por sua genialidade, pouca modéstia e língua afiada. Seu parceiro James Watson, abriu seu livro “Dupla Hélice” com a frase “Eu nunca vi Francis Crick se comportar de forma modesta”. Agora nove caixas com correspondências, fotografias, cartões postais, notas pessoais, entre outros documentos foram achados e revelam um pouco mais da história de uma das maiores descobertas da história da ciência e da personalidade dos envolvidos nela.

Os documentos estavam entre os papéis do biólogo e prêmio Nobel de Medicina Sidney Brenner que dividiu um laboratório com Crick entre 1956 e 1977 e doou no começo de 2010 seus papéis para o Laboratório Cold Spring Harbor (na sigla em inglês, CSHL). “Brenner havia nos dito que achava que havia alguns documentos do Crick no meio dos dele, mas ficamos absolutamente surpresos com o número de cartas e também com o fato de haver algumas delas de 1951”, disse ao iG Alexander Grann, diretor editorial do CSHL que relata a descoberta na edição desta quarta-feira da revista Nature juntamente com Jan Witkowski, diretor do Centro Banbury do CSHL.

As cartas contêm passagens históricas da troca de correspondência de Crick e Maurice Wilkins, biólogo que trabalhava no King’s College, em Londres, e buscava entender qual era a estrutura do DNA na mesma época que Watson e Crick - no final os três levaram o Nobel de Medicina de 1962 pela descoberta. O que se vê na conversa são dois laboratórios ingleses rivais, de um lado o Cavendish (onde trabalhavam Watson e Crick) e o King’s College (em que estava Wilkins) lutando para ver quem descobria primeiro a estrutura.

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Francis Crick entrou numa corrida com cientista rival para ver quem descobriria primeiro a estrutura do DNA
De um lado, Wilkins, educado, “Quero apenas dizer quão entediado estou...” fazendo referência ao fato de Watson e Crick terem sido proibidos de ver o modelo de estrutura de DNA que o grupo de Wilkins estava construindo após terem pego idéias da estrutura de um encontro no King’s College. O final da  resposta de Watson e Crick: “... então anime-se e saiba que mesmo que chutemos você é uma coisa entre amigos. Esperamos que ao menos nosso roubo faça com que seu grupo fique unido”. Apesar do tom provocativo e das palavras fortes, não houve roubo de dados entre os grupos nem nenhum outro tipo de golpe abaixo da linha da cintura.

Sabotagem e plágio
O mesmo não pode ser dito de outro relato publicado na mesma revista Nature desta semana, que reconta um caso de sabotagem ocorrido na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Durante meses o pós-doutorando Vipul Bhrigu sabotou o trabalho de sua colega Heather Ames para impedir que os experimentos dela avançassem. Bhrigu simplesmente alterou e contaminou a cultura de células dela e se justificou dizendo que fez isso por “pressão interna”

A tramoia foi descoberta por uma câmera escondida que filmou a sabotagem. Bhrigu confessou o crime e foi condenado em julho a pagar US$ 8.800 em reagentes e US$ 600 em custas judiciais . O promotor do caso, no entanto, não ficou satisfeito e pediu à chefe do laboratório Theo Ross que fizesse uma avaliação mais extensa dos danos financeiros feitos por Bhrigu. O valor chegou a US$ 72.000. O caso deve ser julgado em outubro – deveria ter sido em setembro, mas Bhrigu, que é indiano, saiu dos Estados Unidos antes dele dizendo que seu visto não permitia que ficasse mais tempo no país.

O nível de sabotagem perpretado por Bighru é provavelmente incomum. “Nunca vi algo deste tipo”, disse ao iG Mayana Zatz, professora titular do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano. E completou: “Mas outros tipos de má conduta como plágio acontecem o tempo inteiro em todos os países do mundo, inclusive no Brasil”.

Ela mesma passou por uma situação parecida quando foi fazer pós-doutorado nos Estados Unidos. "Fui sacaneada por um aluna da Índia, que havia sido designada para me ensinar. Como eu já tinha doutorado e ela só tinha mestrado ela morria de ciúmes de mim. Quando me dei conta, fui contar ao meu orientador e lhe disse para que ele nunca mais a colocasse para ensinar ninguém", conta ela.

Um caso recente em que houve um longo e duro debate sobre plágio no Brasil ocorreu na própria USP dentro do Instituto de Física. O então diretor Alejandro de Toledo teria "copiado e colado" trechos de um artigo científico do físico e também professor da USP Mahir Hussein. A investigação interna da instituição nada concluiu sobre o caso.

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Isaac Newton: fama indevida pela invenção do cálculo diferencial integral
Outra vertente de conduta científica duvidosa é a publicação de dados que depois não conseguem ser reproduzidos. Recentemente a prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2004 Linda Buck teve dois artigos seus publicados nas revistas Science e no Proceedings of the National Academy of the Sciences (PNAS) anulados por não conseguir reproduzir as descobertas feitas por seu ex pós-doutorado Zhihua Zou no Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson Cancer Research Center (FHCRC), onde Buck trabalhava quando publicou os artigos. Nos dois artigos, Zou era o principal autor e responsável por conduzir os experimentos. O FHCRC abriu uma investigação para apurar o caso, mas ainda não chegou à conclusão se houve ou não má conduta por parte de Zou.

Um caso similar ocorreu com David Baltimore, Nobel de Medicina em 1975, e envolveu a cientista brasileira Thereza Imanishi-Kari. Ela foi acusada de ter fabricado dados de um artigo publicado em conjunto com Baltimore na revista Cell em 1986. Dez anos depois, em 1996, Thereza foi totalmente inocentada da acusação.

Ainda no tempo de Newton
O lado bom dessas histórias de má conduta é que, se olhadas em perspectiva, elas mostram que o mundo científico evoluiu. Se uma delas ocorresse no século XVII nada aconteceria. Foi o caso da disputa pela invenção do cálculo diferencial integral entre o inglês Isaac Newton (1642-1727) e o alemão Gottfried Leibniz (1646-1716), ferramenta usada, entre outras coisas para construir foguetes. Newton levou a fama de ter inventado a ferramenta, embora Leibniz a tenha criado anos antes. O motivo foi simples: Newton era o cientista todo poderoso de sua época e simplesmente passou por cima de Lebiniz. Sem dó nem piedade.

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