Prêmio Nobel afirma que não há base científica contra transgênicos

Werner Arber, em visita ao Brasil, acredita que crítica a alimentos geneticamente modificados tenha motivação apenas política

Maria Fernanda Ziegler, enviada a Águas de Lindoia |

Para o prêmio Nobel Werner Arber não faz sentido ter medo de consumir alimentos transgênicos. Ele acredita que a rejeição esteja relacionada com a “motivação política que não tem boa base científica”. O microbiologista participa esta semana do Congresso Brasileiro de genética, em Águas de Lindoia (SP) onde é o grande homenageado.

O cientista suíço descobriu as chamadas enzimas de restrição, que permitem cortar fragmentos de DNA. Seu estudo marcou a nova era da manipulação genética e lhe rendeu o prêmio Nobel de Medicina em 1978. De acordo com Carlos Menck, presidente da Sociedade Brasileira de Genética, “fica difícil imaginar como fazer genética sem os mecanismos descobertos por Arber”.

Maria Fernanda Ziegler / iG
Prêmio Nobel de Medicina fez a palestra de abertura do Congresso Brasileiro de Genética
Arber, de 82 anos, afirma com entusiasmo que a engenharia genética seria uma forma de acelerar o que já ocorre na natureza, como uma expansão da teoria da seleção natural, de Darwin. “Eu conclui que os riscos de engenharia genética são similares com o que acontece desde bilhões de anos na natureza. Caso contrário, não teríamos a evolução das espécies”, disse.

O prêmio Nobel acredita que vai levar mais de 50 anos para colocar algumas das vantagens da engenharia genética em plantações de arroz, feijão, soja entre outros. “A engenharia genética é de grande importância, seja para a saúde alimentar ou talvez para ajudar a tornar as lavouras mais resistentes a pragas e também a fenômenos relacionados às mudanças climáticas, como as secas”, disse.

Enzimas de restrição, as tesouras do DNA

Arber descobriu com mais dois pesquisadores que há enzimas que “cortam o DNA” possibilitando, assim, que ele seja estudado. Nos anos 1960, ele conseguiu explicar que bactérias podem distinguir o próprio DNA do DNA de outros organismos. Isto quando ele penetra nas células por meio de infecções virais, resultando em alterações no DNA da bactéria. Há tanto enzimas que permitem que isto quanto aquelas que quando ativadas protegem as células.

“Não sabíamos o que gerava esta diferença. Levamos cerca de dois anos para termos provas de que as modificações estão localizadas em sequências específicas relacionadas a alguns nucleotídeos, as letrinhas da sequência genética”, disse Arber que começou seus estudos nesta área apoiado por verbas destinadas à pesquisa para o desenvolvimento do uso pacífico da energia atômica, isto na década de 1940. A descoberta das enzimas de restrição fez com que ele mudasse o rumo da pesquisa, embora tenha publicado um artigo sobre energia atômica.

Anos depois, em 1995, ele escreveu um artigo sobre estas modificações em sequências específicas do DNA, onde afirmou que as enzimas podem fragmentar o DNA em pequenas partes. “Me dei conta de que isto pode abrir caminho para determinar a sequência genética. Eu também já esperava, naquela época, que os fragmentos pudessem ser recombinados com cada um deles”, disse.

O sistema de defesa

Vale lembrar que as enzimas de restrição são produzidas pelas bactérias. Elas atuam no sistema de defesa contra o ataque dos vírus, quebrando o DNA do vírus em pequenos fragmentos. Desta forma, ele não se reproduz na bactéria e protege o material genético da bactéria da degradação. Ocorre, então, modificação da sequência genética.

Arber concluiu que para as bactérias é bom ter o sistema que permite ver quando a informação genética externa penetra de um sistema de fora ou vem de uma célula irmã. “Porque assim pode dar o direito de incorporação do genoma e todos os seres vivos devem ter alguma garantia de que a informação genética não está todo o tempo mudando, é preciso haver alguma estabilidade”, disse. Ele afirma que todos os seres vivos têm transferência horizontal de genes, como acontece com as bactérias estudadas por ele.

Os sistemas de restrição, no entanto permitem que a grande maioria da população mantenha identidade genética, mas ocasionalmente eles também permitem que um fragmento seja incorporado. “O sistema ajuda a controlar a taxa de evolução biológica nos organismo. Genes podem ser trocados espontaneamente, só que não é sempre que acontece, ocorre em pequenos fragmentos do DNA, como se fossem pequenos passos”, disse.

Isto faz com que haja uma pequena taxa de alteração genética que ao mesmo tempo garante que a evolução continue. “Por outro lado, a pequena taxa dá certa garantia de que as mudanças não acontecem todo o tempo”, disse.

Genética e biodiversidade

Por conta disto, Arber defende a proteção da biodiversidade para proteger a variabilidade genética. O cientista acredita que a engenharia genética possa contribuir em várias questões, principalmente nas alimentícias, seja para aumentar o valor nutricional de um alimento, injetado vitamina A no arroz, por exemplo, ou selecionando plantas mais aptas a crescer em grande quantidade, aumentando a distribuição de alimentos em países pobres ou ameaçados pelas mudanças climáticas.

“Antigamente se você quisesse usar algum produto natural. Você via na natureza onde ele estava disponível e era preciso fazer com que ele crescesse na natureza. Para mudar era preciso fazer melhoria pelo cruzamento natural de espécies. Hoje com a engenharia genética, você pode não só mudar por esta forma direta como também transferir um fragmento do DNA de interesse e transferi-lo para um novo genoma de microorganismo, ou planta mais apto para crescer em grandes quantidades”, diz.

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