As presas de 1,3 centímetros da cobra-real liberam uma dose enorme, de até sete mililitros de veneno

Cobra real devora outra cobra menor
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Cobra real devora outra cobra menor
Eu me lembro da primeira vez em que vi uma delas, na Zoológico de St. Louis, e da sensação de que algo mortal estava do outro lado daquele vidro.

Não podia acreditar no tamanho da cobra – aquela tinha cerca de 4 metros de comprimento. Eu estava acostumado a ver cobras gigantes em zoológicos (sempre caminhava diretamente à área dos répteis), mas as pítons não me pareciam muito assustadoras, pois raramente se moviam. Aquela serpente brilhante, ágil e muito alerta era uma cobra-real, a maior cobra peçonhenta do mundo e um ícone para todos os entusiastas desse animal, incluindo este que lhes escreve.

O veneno da cobra-real não é, miligrama por miligrama, o mais potente. Entre as cobras terrestres, essa honra parece pertencer à taipan da Austrália. Mas o que falta à cobra-real em potência, ela compensa em volume. Suas presas de 1,3 centímetros liberam uma dose enorme, de até sete mililitros de veneno. A letalidade do veneno depende de uma combinação de sua potência, do volume liberado e do tamanho da vítima. Uma picada de cobra-real pode matar um ser humano em 15 minutos, e um elefante adulto em algumas horas.

O que torna essas cobras “reais” não é apenas seu tamanho, ou sua capacidade letal – afinal, elas não se alimentam de humanos ou elefantes –, mas o fato de que elas comem outras cobras. Até mesmo cobras mortais, como a bungarus e a naja, do sul da Ásia, são suas presas. Essas cobras picam quando atacadas, é claro, o que nos leva à pergunta: como a cobra-real mantém um estilo de vida aparentemente tão arriscado?

O veneno da bungarus e das cobras asiáticas, incluindo o da cobra-real, age rapidamente em incapacitar o sistema nervoso. Entre o arsenal interno no veneno das cobras, há uma neurotoxina especialmente potente que age se ligando a receptores nas células musculares. A toxina bloqueia a habilidade da acetilcolina, um dos neurotransmissores químicos do corpo, de controlar a contração muscular. O bloqueio desses receptores causa paralisia, falência respiratória e morte.

Porém, a cobra-real não se intimida com mordidas de suas vítimas. Bioquímicos mapearam de maneira cuidadosa exatamente como as neurotoxinas bloqueiam o receptor de acetilcolina de muitas espécies, e descobriram que as toxinas não se unem ao receptor dessa cobra. Mutações alteraram seu receptor de tal forma que, como a toxina não consegue se prender ao receptor, a função da acetilcolina permanece inalterada. A cobra-real consegue subjugar seu jantar sem sofrer qualquer contra-ataque venenoso.

Essa grande cobra, resistente aos poderosos venenos de suas presas, poderia posar como impenetrável. Mas todos conhecemos a história do mangusto, se não dos programas de vida selvagem, então do conto “Rikki-Tikki-Tavi”, de Rudyard Kipling. Como um mangusto pode derrotar a cobra-real?

Os rápidos reflexos do mangusto o ajudam a se desviar da picada defensiva da cobra, e suas poderosas mandíbulas podem matar uma serpente com apenas um golpe. Porém, há também fundamentos genéticos para a coragem do mangusto. Algumas vezes um mangusto é mordido durante seu ataque, mas ele possui outra linha de defesa contra o veneno – seu receptor de acetilcolina também evoluiu de forma que a neurotoxina da cobra não consegue se prender a ele. Uma série de mudanças no receptor do mangusto o tornam similar ao receptor resistente da própria cobra-real.

A adaptação evolutiva do mangusto não é exclusiva. Outras criaturas pequenas e humildes também desenvolveram formas de suportar o que, para outros animais, seriam picadas letais, e alguns desses animais resistentes conseguem virar a mesa e conquistar e consumir seus antagonistas venenosos.

Cobras marinhas geralmente possuem venenos muito tóxicos. Embora as serpentes raramente piquem humanos na água, pescadores são ocasionalmente atacados quando limpam suas redes – e acabam morrendo pelas mordidas de algumas espécies. O poderoso veneno não é focado em animais grandes como os humanos, obviamente. As cobras do mar caçam pequenos animais marinhos, e as potentes toxinas no veneno rapidamente imobilizam a presa antes que ela possa nadar para longe. Enguias são um dos alimentos preferidos da krait listrada do mar. Foi observado, porém, que algumas enguias são incrivelmente resistentes ao veneno dessa espécie.

Harold Heatwole e Judy Powell, da Universidade da Carolina do Norte, mostraram que as moreias onduladas e as moreias marrons, encontradas nas águas ao redor da Nova Guiné, conseguem aguentar centenas de vezes mais da dose de veneno que mata as enguias pintadas das Bahamas.

A explicação dos biólogos para a grande disparidade de sensibilidade entre as espécies de enguias é que as cobras marinhas não são encontradas no Oceano Atlântico, e por isso não houve pressão seletiva sobre as enguias dali – enquanto no Pacífico, onde as serpentes marinhas são abundantes, a seleção foi tão intensa que algumas espécies de enguias desenvolveram a resistência.

Uma situação similar foi gerada entre esquilos da Califórnia, em relação ao veneno das cascavéis do norte do Pacífico. Essa espécie, e a maioria das outras cascavéis, mata suas presas com uma bateria distinta de toxinas. As toxinas no veneno da cascavel agem rompendo tecidos e causando hemorragia interna.

Uma cascavel de bom tamanho pode liberar uma dose substancial de veneno, suficiente para matar um ser humano caso a picada não seja tratada. Mas os esquilos de algumas partes da Califórnia, mesmo tendo um centésimo do tamanho dos humanos, demonstram efeitos razoavelmente suaves com o veneno. Essa resistência não é resultado de receptores alterados, mas da habilidade de seu soro sanguíneo de neutralizar os efeitos do veneno.

No entanto, esquilos da mesma espécie no Alasca, onde não existem cobras cascavéis, exibem uma sensibilidade muito maior aos ataques, e seu soro é muito menos eficaz na neutralização de venenos. Essas observações sugerem que em algumas regiões, onde as cascavéis são abundantes, populações locais de esquilos desenvolveram um grau de resistência.

Uma família de cobras completamente inofensivas, chamadas de “kingsnakes”, também evoluiu a um soro que neutraliza o veneno de cascavéis – e usa essa habilidade de forma muito mais vantajosa que os esquilos. Essas cobras são um grupo de belas esmagadoras, encontradas em muitas regiões dos Estados Unidos. Como seu nome indica, as kingsnakes se alimentam de outras cobras – e não hesitam em atacar, matar e consumir cascavéis.

Essas histórias de evolução são um pouco como dramas shakespearianos, onde aquele mais apto a conduzir ou frustrar tramas venenosas acaba se tornando o rei. As serpentes em geral, e especialmente as cobras-reais, nunca serão muito queridas pelos humanos – mas esses animais são tão extraordinários que este entusiasta não consegue resistir a um pensamento sentimental: vida longa aos reis.

Por Sean B. Carroll

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