Pesquisas revelam novas funções do aleitamento materno

Estudos mostram que composição do leite humano não é só de nutrientes e que ela pode mudar se o bebê for menino ou menina

Cristina Caldas, especial para o iG |

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Leite materno: novas pesquisas mostram que existe até diferença nos nutrientes conforme o sexo do bebê
A biologia do aleitamento materno é uma área que vem presenteando a ciência com resultados cada vez mais fascinantes. Se antes atribuía-se ao leite materno a função de apenas nutrir a prole, agora pesquisadores sabem que ele carrega moléculas que afetam amplamente o desenvolvimento de diferentes espécies, como mostra uma reportagem publicada hoje na revista especializada Nature: o leite produzido pela mãe modula o sistema imune, define as bactérias que vivem no intestino, controla a expressão de genes nas células do intestino e parece influenciar o desenvolvimento cognitivo.

Segundo a jornalista Anna Petherick, o estudo da lactação em humanos vem mudando, saindo do campo da saúde pública e passando a ser avaliado sob a perspectiva da evolução humana. Uma mãe deve gastar mais energia alimentando um filho - uma vez que ele tem capacidade de produzir mais descendentes - do que uma filha.

No apanhado que fez das pesquisas recentes na área, Anna destaca que há diferenças claras no leite materno consumido por meninos e meninas. “Em humanos, por exemplo, bebês meninos se alimentam de leite que contém substancialmente mais gorduras e proteínas do que o leite oferecido às meninas", escreve a jornalista ao se referir a um trabalho publicado em 2010.

Outra mudança importante tem sido a incorporação de novas ferramentas para responder perguntas antigas. “A pesquisa sobre a biologia do leite materno humano está progredindo rapidamente graças a novos métodos analíticos, modelos animais adequados e à crescente disponibilidade de moléculas complexas encontradas no leite, como os oligossacarídeos [açúcares]”, diz ao iG Thierry Hennet, pesquisador do Instituto de Fisiologia da Universidade de Zurique. Hennet estuda, em camundongos, os componentes do leite materno que alteram a flora intestinal, que por sua vez influenciam a susceptibilidade a doenças como inflamações.

Avanços tecnológicos têm permitido que cientistas estudem em detalhe os oligossacarídeos do leite materno. A reportagem menciona que alguns oligossacarídeos do leite não alimentam a criança, e sim as bactérias benéficas presentes no intestino do bebê, como é o caso da Bifidobacterium infantis. Outros estudos têm mostrado que certos oligossacarídeos impedem que bactérias e vírus se mantenham na mucosa intestinal, como a Campylobacter jejuni - causa mais comum de diarréia bacteriana -, inibindo a doença.

Mistura do bem
O leite materno é uma mistura de diversas moléculas: proteínas, açúcares, lipídeos e muitos outros fatores. “Pesquisando a contribuição de constituintes individuais do leite ajudará a entender melhor o desenvolvimento do rico ambiente intestinal onde nutrientes, bactérias e células do hospedeiro (humanos, nesse caso) interagem através de um complexo processo”, diz Hennet.

Segundo a reportagem, o leite materno carrega microrganismos da mãe diretamente para o intestino da prole. A maioria das bactérias do leite secretam substâncias que eliminam bactérias que possam causar doenças. Além disso, a lista de fatores imunológicos presentes no leite só tem crescido desde a última década. Há também evidências de que o leite materno influencia a expressão de genes nas células do intestino dos bebês.

Artificial não é necessariamente pior
Em relação ao polarizado debate leite materno versus fórmulas infantis, Anna conta que diversos pesquisadores procurados para a matéria reclamaram que tanto grupos que advogam pelo aleitamento materno quanto empresas que produzem os substitutos ao leite exageraram seus achados no passado.

O maior estudo de aleitamento materno conduzido até hoje em humanos, o PROBIT (Promotion of Breastfeeding Intervention Trial), citado na reportagem, não encontrou diferença de peso em dois grupos de crianças bielo-russas de 6 anos de idade, onde um grupo recebeu aleitamento materno por um tempo muito maior do que o outro antes de começar a se alimentar com leite artificial. Não houve diferença na prevalência de asma ou alergias entre os dois grupos.

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