Pesquisadores discutem o altruismo patológico

Quando o comportamento de ajuda é extremo, ele pode se tornar inútil, improdutivo e até mesmo destrutivo

The New York Times |

Há alguns anos, o Dr. Robert A. Burton era o neurologista de plantão num hospital de São Francisco quando um colega do departamento de oncologia pediu-lhe para realizar uma punção lombar num paciente idoso com um avançado câncer metastático. O paciente parecera um pouco confuso naquela manhã e o oncologista queria procurar uma meningite ou outra infecção que pudesse ser tratada com antibióticos.

Burton hesitou. Punções lombares são dolorosas. O prognóstico geral do paciente era bastante ruim. Por que ir atrás de alguma infecção auxiliar?

Mas o oncologista, conhecido por sua abordagem intransigente e agressiva ao tratamento, insistiu.

''Para ele, não existia nada excessivo’', disse Burton numa entrevista por telefone. ''Para ele, sempre havia esperança’'.

Ao entrar no quarto do paciente com a bandeja de punção lombar, Burton se deparou com os familiares do paciente. Eles lhe imploraram que não prosseguisse. O frágil paciente lhe implorou que não prosseguisse. Burton transmitiu seus pedidos ao oncologista, mas este continuou a defender a punção. Finalmente, a família cedeu.

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Como Burton temia, o procedimento se mostrou doloroso e difícil de administrar – além de não revelar nada de importância diagnóstica. E deixou o paciente com uma forte dor de cabeça que durou dias, até que o homem entrou em coma e morreu de sua doença.

Burton admirava seu colega oncologista (hoje falecido), mas também via como o ardor do médico pela cura podia beirar o fanatismo – e como sua determinação para ajudar seus pacientes a qualquer custo podia acabar por prejudicá-los.

''Se você é incrivelmente confiante de suas habilidades, e você tem certeza de que suas ações são boas para seus pacientes, pode ser muito difícil saber, por conta própria, quando se está aventurando em território perigoso’', disse ele.

Autor de 'On Being Certain’ e do ainda inédito 'A Skeptic’s Guide to the Mind’, Burton é colaborador num volume erudito – e surpreendentemente jovial – chamado 'Pathological Altruism’ ('altruísmo patológico’, em tradução livre), a ser publicado no segundo trimestre do ano pela Oxford University Press. E ele diz que o comportamento de seu colega é um bom exemplo desse sugestivo termo contraditório, apenas começando a fazer as rondas pelas ciências psicológicas.

Conforme o novo livro deixa claro, o altruísmo patológico não se limita a apresentar atos de autossacrifício, como doar um rim a um completo estranho.

O livro é o primeiro tratamento abrangente da ideia de que, quando o comportamento de ajuda é levado ao extremo, mal aplicado ou exagerado, ele pode se tornar inútil, improdutivo e até mesmo destrutivo.

O altruísmo mal aplicado pode ter participação numa ampla variedade de doenças, incluindo anorexia, mulheres que aguentam parceiros violentos e homens que permanecem no alcoolismo.

Como certo grau de comportamento altruísta é essencial ao desempenho harmonioso de qualquer grupo humano, o altruísmo descontrolado pode se esconder em contextos políticos. Ele promove a estimulante sensação de indignação virtuosa, a crença na pureza de sua equipe e de sua causa e o desprezo por todas as equipes e causas concorrentes.

David Brin, físico e escritor de ficção científica, argumenta em um capítulo que a hipocrisia pode ser tão fisicamente viciante quanto qualquer droga recreativa, e igualmente desestabilizadora. ''Um vício implacável pela indignação pode ser um dos principais causadores do dogmatismo obstinado’', escreve ele. ''Pode ser o propulsor fundamental por trás da atual 'guerra da cultura’''. Para não falar da epidemia de 'blogorreia’, da hipertensão induzida por jornais e do uso de uma bebida quente como mascote político.

Barbara Oakley, professora de engenharia na Universidade de Oakland, em Michigan, e editora do novo volume, afirmou numa entrevista que quando começou a conversar sobre o tema em conferências médicas ou de ciências sociais, ''as pessoas me olhavam como se eu estivesse com chifres de bode.

Elas diziam: 'Mas o altruísmo, por definição, nunca pode ser patológico’''.

Para Oakley, a resistência era significativa. ''Ela sintetizava a ideia de 'eu sei como fazer a coisa certa e quando decido fazer a coisa certa, isso nunca pode ser chamado de patológico’'', disse ela.

De fato, o estudo do altruísmo, da generosidade e outros comportamentos de afiliação tem estado bastante em voga no meio acadêmico, em parte como contrapeso à noção do gene egoísta no darwinismo, em parte como recompensa financiada de organizações como a John Templeton Foundation. Muitos pesquisadores apontam que os seres humanos são uma espécie incrivelmente cooperativa, ultrapassando facilmente outros animais na disposição para trabalhar íntima e amigavelmente com pessoas sem parentesco. Nosso impulso altruístico, segundo ele, não é uma mera joia da humanidade, mas o alicerce sobre o qual crescemos.

Dado seu histórico profissional, porém, Oakley não podia deixar de duvidar da exaltada reputação do altruísmo. ''Não estou observando o altruísmo como algo sagrado’', explicou. ''Estou olhando para ele com olhos de engenheira’'.

E pela primeira regra da engenharia, disse ela, ''não existe um almoço gratuito; sempre há alguma troca’'. Se você eleva a ordem de um lado, é preciso reduzi-la de outro.

Além disso, as leis da termodinâmica dizem que a própria transferência de energia já cobra seu preço, sugerindo que a desordem geral causada pela transação será levemente maior do que a nova ordem criada. Segundo Oakley, nada disso significa ser contra as boas ações, mas adotar um pouco da mentalidade do engenheiro – e estar preparado para perdas de energia e suas próprias limitações.

Treine as enfermeiras para que sejam altamente empáticas e, sim, os pacientes gostarão delas. Mas estudos mostram que enfermeiras carinhosas se cansam e deixam a profissão mais rapidamente do que suas colegas de menor consideração. Seja generoso com a criança A e a criança B imediatamente começará a gritar, enquanto a quieta criança C irá crescer e escrever romances terríveis sobre você. ''As patologias do altruísmo estão obrigadas a aparecer’', declarou Oakley.

Rachel Bachner-Melman, psicóloga do Centro Médico da Universidade de Hadassah, em Jerusalém, especializada em distúrbios alimentares, pôde observar o impacto do altruísmo extremo sobre jovens meninas anoréxicas.

''Elas são terrivelmente sensíveis às necessidades dos que estão ao seu redor’', explicou ela numa entrevista. ''Elas sabem quem precisa ser empurrado numa cadeira de rodas, quem precisa de uma palavra de encorajamento, quem precisa ser alimentado’'.

Mas essas sensitivas espectrais não expressam desejos próprios. ''Elas tentam ocultar suas necessidades, negá-las ou fingir que elas não existem’', continuou Bachner-Melman. ''Elas mal acham que têm o direito de existir’'.

Elas se desculpam por elas mesmas com o ato de se doar, doar incessantemente.

Em terapia, elas são lembradas de que, para dar, primeiro é preciso ter. ''É como num avião’', disse Bachner-Melman. ''Os pais precisam colocar a máscara de oxigênio primeiro, não por serem mais importantes, mas porque se os pais não puderem respirar, eles não poderão ajudar seus filhos’'.

A negação e a compartimentalização mental também caracterizam pessoas que permanecem em relações abusivas, que convencem a si mesmas de que um dia seus parceiros brigões ou bêbados irão mudar. A negação sensorial extrema define a condição chamada de acumulação de animais, em que pessoas mantêm muito mais animais de estimação do que podem cuidar – dúzias, centenas de gatos, roedores, cachorros, tartarugas.

Os acumuladores compulsivos podem ser indivíduos funcionais, diz o Dr. Gary J. Patronek, professor da escola de veterinária da Universidade Tufts e fundador do Hoarding of Animals Research Consortium. ''Já vimos professores, enfermeiros, funcionários públicos e até mesmo veterinários’', afirmou ele numa entrevista. ''Eles levam uma vida dupla’'.

No trabalho, eles se comportam de maneira responsável e conhecem a importância da boa higiene. Então voltam para casa e entram num mundo distinto, de sujeira e caos, de odores terríveis e animais subnutridos, de animais de estimação que morreram por falta de cuidados.

Mas os acumuladores não percebem nada disso. ''Você entra na sala e não consegue respirar, há animais mortos e moribundos presentes, mas a pessoa não consegue enxergar’', disse Patronek. No refrigerador pode haver carcaças de gatos ao lado de alimentos, ''mas na cabeça da pessoa tudo está lindo e feliz e aquilo é um reino de paz’'.

Acumuladores podem ver a si mesmos como salvadores de animais, resgatando bichinhos em perigo; mas eles não são nem remotamente capazes de cuidar das multidões de animais, e logo desistem de tentar. ''É um comportamento bastante focal e delirante’', afirmou o Dr. Patronek. E pode ser ainda mais difícil de tratar, por se apoiar nos fundamentos do altruísmo e do amor.

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