Pesquisadores brasileiros sequenciam genoma do boi nelore

Mapa genético vai possibilitar predizer, num futuro próximo, quais serão as características do animal antes de seu nascimento

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

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Pesquisadores sequenciaram o genoma do boi Futuro, de Araçatuba
Foi anunciado hoje o sequenciamento genético do nelore, raça de boi zebuíno responsável pela maior produção de carne no Brasil. O trabalho é um grande passo para a melhoria da qualidade da carne no país e também para o aumento da produção de leite. Isto porque com o mapeamento genético do animal, produtores vão poder aliar o genoma a decisões antes tomadas apenas pelas características físicas dos progenitores dos bovinos.

De acordo com o professor da Faculdade de Medicina Veterinário da UNESP, José Fernando Garcia, o mapeamento vai permitir que o produtor decida ainda no embrião para que o animal deve ser destinado. “Dá maior precisão para o melhoramento genético, que antes era feito apenas com base nas características físicas do animal. A seleção genomica vai revolucionar o processo que já é feito hoje”, disse. O estudo será publicado em setembro no periódico científico Genome Research.

Outro fator é a padronização da carne. “Se comprarmos alguns cortes de picanha no supermercado hoje, vai ter gente quebrando a dentadura enquanto outros vão achar a carne uma delícia. Pois não há um padrão da carne brasileira”, disse. Garcia acredita que em dez anos a carne nacional deva ter um salto de qualidade por causa do melhoramento baseado no genoma. “Fazendo uma comparação, nós acabamos de imprimir a lista telefônica, não há nada demais chato, mas é importante ter esta informação para a melhoria do animal”, disse.

O estudo da UNESP, que contou com a participação da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos e do Departamento Americano de Agricultura (USDA), sequenciou o código genético do boi Futuro, da raça Nelore ( Bos primigenius indicus ), que vive na região de Araçatuba. Futuro foi escolhido por ter um alto índice de endogamia, cruzamento entre parentes, para que não houvesse dúvidas sobre a origem do animal.

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José Fernando Garcia acredita que em 10 anos ocorra melhorias na qualidade da carne por causa do melhoramento baseado na genética
Com o genoma referencia da subespécie de bovinos, os pesquisadores pretendem testar o DNA de outros animais a partir do SNP chip, ferramenta que identifica os marcadores genéticos relacionados com as características dos animais. Com isto, não será preciso mapear o genoma de cada animal e identificar a qualidade da carne ou a quantidade de leite que ele possa produzir. Com a identificação dos pontos da sequencia genética referencia poderá ser possível prever qual será o melhor destino do animal antes mesmo dele nascer, a partir de uma biópsia do embrião.

“Os custos deste teste são determinados por quem fabrica a tecnologia. Os chips custam 200 dólares. Porém teste com 5 ou 6 marcadores que reconstroem o genoma, custam em torno de 40 dólares, querem que seja no máximo de 20 dólares, para que produtores possam identificar já no embrião as características do animal”, disse Garcia.

Produto nacional
O Brasil é o maior exportador de carne no mundo. Cerca de 90% da carne nacional é de animais zebuínos, com exceção dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina onde há a prevalência da subespécie de taurinos. O nelore é mais bem adaptado para o clima tropical e mais resistente ao carrapato, mas tem a carne de pior qualidade que animais da raça Hereford (taurinos), por exemplo.
Garcia participou também do projeto que sequenciou o genoma do taurino, da raça Hereford. O pesquisador afirma que o avanço da tecnologia para o sequenciamento genético não só barateou como deixou o processo mais rápido. O genoma do Hereford, que foi iniciado em 2003 e concluído em 2009, custou 50 milhões de dólares. Já o do nelore levou dois anos para ser concluído e sob o custo de 500 mil dólares.

A ideia dos pesquisadores é que agora com o genoma referência do Nelore e do Hereford seja possível comparar e identificar que partes do código genético são responsáveis pela qualidade da carne ou pela maior resistência ao clima e ao calor. A partir destas informações será possível entender melhor as características que diferem um zebuíno de um taurino e para que num futuro seja possível ter um maior controle no processo de seleção de animais resultantes do cruzamento das duas subespécies.

Garcia explica que um estudo mostrou que em uma mesma linhagem bezerros de zebuínos com taurinos, ao testar o DNA alguns animais tinham 90% de taurino, enquanto outros só 5%. “Quando se constroi o DNA há quebras e rearranjos que determinam esta porcentagem completamente diferente do que era o esperado de 50% zebuíno e 50% taurino”, disse.

Zebuínos e taurinos
A análise ainda é preliminar, mas os pesquisadores já puderam identificar que os zebuínos têm maior variabilidade que os taurinos. “Chega a 25%, 30%”, disse Garcia. Isto significa que a pressão de seleção que houve entre os taurinos foi muito maior. Os zebuínos foram trazidos da Índia no século passado, sem ser de programas de melhoramento. Em 50 anos eles foram colocados em melhoramento. “Há ainda muito o que melhorar em relação aos zebuínos”, disse Garcia.

De acordo com Tad Snstegard, pesquisador da USDA e que participou da pesquisa, a comparação vai propiciar a compreensão sobre a origem dos 17 milhões de variações genéticas comuns entre os taurinos e zebuínos – que ocorreu antes de eles se separarem evolutivamente. Há alguns milhões de variações exclusivas dos zebuínos.

“Nós já sabemos a diferenças entre taurinos e zebuínos, mas o que interessa é saber quais são as regiões do DNA que estão envolvidas nisso e assim poderemos explorá-las em vários sentidos, como o melhoramento, por exemplo”, disse.

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