Pesquisador estuda sexo das libélulas

Insetos possuem órgãos reprodutores complicados e cópula também é um ato elaborado em comparação com outras espécies

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Librado Romero/The New York Times
Pesquisador americano Michael May é autor do manual padrão de identificação de libélulas
Michael L. May saiu em uma quarta-feira de manhã de seu apertado escritório no edifício de entomologia da Universidade Rutgers para coletar algumas libélulas.

A estrada para uma lagoa mais antiga em um parque do interior estava fechada, então May pegou outra estrada a pouco mais de três quilômetros do campus e estacionou perto de uma lagoa triangular, rodeada por ervas altas, hera venenosa e hibiscos selvagens mostrando flores brancas como petecas.

Com o tráfego da Rota 1 zumbindo ao longe, May, um barbudo senhor nascido na Flórida e que acaba de fazer 65 anos, pegou sua rede e se enfiou nas margens até que seus sapatos estivessem afundados no lodo.

A lagoa era uma colmeia de atividade. Uma libélula verde patrulhava a superfície como um piloto de caça. Libélulas azuis pousavam empertigadamente em juncos delgados, e três atarracadas 'Perithemis tenera’ perseguiam-se umas às outras, em volta dos poleiros de sua escolha.

''Lá está um casal copulando no bambu’', diz May, apontando para duas libélulas 'pondhawk’ – a fêmea verde e preta e o macho, pintado de azul – que brilhavam ao sol no conhecido formado de um coração.

May voltou sua atenção e sua rede para outro lugar, preparou-se, e atacou. 'Vum-vum’, e uma criatura grossa e com a cabeça parecendo um elmo preto e azul – chamada de, à maneira caprichosa usada no mundo das libélulas, libélula incesta – dançava dentro do tecido da rede.

''Essa é a que eu estava esperando conseguir’', disse ele. ''É uma coisa bem comum, mas tem um pênis bastante primitivo’'.

May – autor principal da revisão moderna do manual padrão de identificação 'Dragonflies of North America’ ('libélulas da América do Norte’), editor da revista International Journal of Odonatology, descritor e nomeador de seis espécies de donzelinhas e libélulas e especialista em energética de insetos – passou seu último ano na Rutgers, no começo de um projeto que poderia deixá-lo muito bem ocupado durante a sua aposentadoria: a compreensão do sexo das libélulas.

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Complicados
As libélulas possuem órgãos reprodutivos estonteantemente complicados e variados. Seus pênis são engenhocas de juntas múltiplas, lembrando pernas prostéticas de alta tecnologia com acessórios como chifres, escovas, ganchos, agarradores, espalhadores e outros implementos, desenhados para afetar tanto a transmissão quanto o armazenamento do esperma, entre outras coisas. As fêmeas, comparativamente, são complexas, se não de maneira complementar – como a corrida armamentista evolucionária as programou, a Madame Libélula desenvolveu-se de modo a frustrar a capacidade de seu parceiro de remover os esperma de seus rivais.

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Na imagem, o órgão reprodutor de uma libélila macho
As exigências gerais para o sexo das libélulas são suficientemente elaboradas: Antes do acasalamento, o macho se contorce para transferir o esperma de seu local de fabricação – no final de seu abdômen – até uma fenda no pênis, que se encontra apontando a metade frontal de seu corpo, logo atrás do tórax. Quando o amor chama, o macho utiliza apêndices no final de sua cauda para se agarrar atrás da cabeça da fêmea. Ela, por sua vez, torce à frente a ponta de seu abdômen para permitir a penetração.

Mas, exatamente como as partes se juntam em uma espécie em particular, e quais tarefas específicas elas realizam, são tópicos difíceis de serem estudados: o processo de acasalamento é incompatível com a vivissecção. Com as primas magrelas da libélula, as donzelinhas, que podem copular por até uma hora, os pesquisadores aprenderam bastante pelo congelamento da ação (ou seja, matando os participantes) em vários estágios do ato sexual. As libélulas, no entanto, copulam por apenas alguns segundos.

Então, nesse último verão do Hemisfério Norte, May dirigiu-se às águas paradas de Nova Jersey e outros lugares, coletando espécimes, trazendo-os de volta a seu laboratório no campus, matando-os, extirpando seus órgãos genitais, espremendo-os com pinças para inflá-los até um estado de intumescência simulada e examinando-os em maiores detalhes.

''Estou tentando nos levar ao ponto onde estaremos um pouco menos confusos, em relação a evolução funcional e histórica’', diz ele.

Ele espera compreender os funcionamentos de espécies suficientes, para que possa reconhecer padrões mais amplos de funcionamento e design, mesmo quando as partes masculinas e femininas parecem não corresponder completamente.

''Se isso irá ou não levar à Grande Teoria Unificada dos Pênis dos Odonatas’, eu sinceramente não sei’', escreveu ele em um e-mail recente. ''Pode ocorrer de espécies diferentes terem resolvido os mesmos problemas de muitas maneiras diferentes, mas, para mim, isso também seria interessante de saber’'.

No laboratório – um local de trabalho agradavelmente usado cheio de equipamentos antigos que parecem caixotes e insetos guardados em vidros, frascos e envelopes de plástico e empalados por alfinetes – May colocou a libélula capturada em um vidro, com um pedaço de papel empapado com solvente; seu bater de asas desacelerou, e então parou. Ele cortou a placa à qual o pênis estava grudado, espremeu a vesícula seminal, ferveu a genitália por cinco minutos em uma proveta de etanol, e a admirou em um microscópio.

''Os lobos laterais’' – projeções parecidas com remos do quarto e final segmento – ''são bons e longos, bem como espalhados de maneira realmente ampla’', disse ele. ''E as partes que inflam são grandes e possuem pequenos pelos. Você pode notar que é um órgão complexo’'.

Mas a função exata desses lobos laterais para o exemplar capturado é um mistério.

Talvez eles funcionem como espéculos para estender o canal vaginal e permitir o acesso de outras partes do pênis. Ou talvez eles alcancem as bolsas secundárias de armazenamento de esperma da fêmea, as espermatecas, para remover esperma, embora pareçam mal localizados e insuficientemente agarradores para tal tarefa. Ou eles poderiam retirar o esperma dos rivais da área principal de armazenagem de esperma, a 'bursa copulatrix’. Uma resposta poderia surgir quando May conseguisse dissecar as fêmeas, processo no qual ele está apenas começando.

Librado Romero/The New York Times
Atual projeto de May depende da obtenção de animais vivos, pois quando a libélula é armazenada, seus genitais não podem mais ser inflados
A mesma coisa ocorre com a estrutura esponjosa e ouriçada no final do pênis, conhecida como lobo médio. ''Isso poderia ser algum tipo de pente, que raspa o esperma para fora da 'bursa copulatrix’. Mas, novamente, nós não sabemos’'.

O suave capuz atrás do lobo médio e o lobo anterior peludo e parecido com um polegar? Funcionalidades desconhecidas. Idem para o magrelo 'cornu’, parecido com um chifre.

May também espera determinar se as diferenças na morfologia genital podem ser usadas para ajudar no mapeamento das relações, entre os gêneros e famílias dos odonatas.

''Acredito que conseguirei pelo menos uma resposta parcial sobre a existência de similaridades suficientes entre espécies parecidas, mas não verdadeiramente próximas, para ser usada como ferramenta taxonômica’', diz ele.

O jovem Michael May estava no meio de sua graduação em bioquímica no Instituto de Tecnologia da Califórnia quando pensou duas vezes e aceitou um emprego na Flórida, em 1969, como assistente de laboratório do pai de seu companheiro de moradia da faculdade, que por acaso era o autor original de 'Dragonflies of North America’.

''Quando finalmente abri meus olhos, estava olhando para uma donzelinha através de uma lupa’', diz ele – uma donzelinha macho de Rambur, de olhos verdes, com o tórax azul-esverdeado e a cauda finalizando um abdômen preto e amarelo. As donzelinhas são aquelas capazes de dobrar suas asas transparentes ao longo do comprimento de seus corpos frágeis, uma habilidade que as libélulas não possuem. ''Eu pensei: 'Nossa, eu nunca havia percebido que elas tinham todas essas cores e partes diferentes’''.

Desde então, ele vem perseguindo odonatas em seis continentes e na maioria do território dos Estados Unidos (seu retrato oficial no site do departamento de entomologia mostra-o colocando um dólar em uma máquina de venda de iscas no norte do estado de Nova York, com o subtítulo 'Dr. May coletando larvas de libélula’). Ele usou dados moleculares para mapear árvores genealógicas; demonstrou que as libélulas regulam sua temperatura corporal por meio de 'tremores’ de seus músculos de voo, habilidade que elas compartilham com algumas grandes mariposas, abelhas e besouros; e tomou parte em um estudo que rastreou as migrações das libélulas, colando transmissores de rádio em seus tórax.

O projeto atual de May depende da obtenção de espécimes vivos porque uma vez que uma libélula foi armazenada e preservada, seus genitais não podem mais ser inflados. Mas segundo ele, Nova Jersey tem uma densidade suficiente de espécies da família mais comum e diversa de libélulas, Libellulidae, para permitir que ele consiga progressos significativos.

May reconhece, no entanto, que embarcou em uma expedição de pesca cega, sem destino ou recompensa garantidos. É um risco que, nesse estágio de sua carreira, ele está disposto e feliz em assumir.

''Posso terminar com montes de fotografias de pênis estranhos’', diz ele, ''e nunca conseguir realmente entender, de maneira satisfatória, como as coisas se encaixam’'.

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