Pesquisa defende preservação do legado de astronautas na Lua

Com a volta do interesse pela Lua, equipe catalogou o que foi deixado na Lua após as seis aterrissagens da Apollo

The New York Times |

Nasa
Buzz Aldrin passeia na superfície lunar, durante a missão Apollo 11, em julho de 1969
O catálogo de artefatos históricos da Califórnia inclui dois pares de botas, uma bandeira dos EUA, sacos de comida vazios, um par de pinças e mais de uma centena de outros itens deixados para trás em um lugar chamado Base da Tranquilidade.

O registro histórico do Novo México lista os mesmos itens.

Isso pode ser surpreendente, uma vez que a Base da Tranquilidade não fica no Novo México ou na Califórnia, mas a um quarto de milhão de quilômetros de distância, no local onde Neil A. Armstrong e Buzz Aldrin pisaram em 1969: a Lua.

Contudo, para os arqueólogos e historiadores preocupados com que a próxima geração de pessoas que visitar a lua possa obliterar descuidadamente o local de uma das maiores conquistas da humanidade, essas designações foram primeiros passos importantes em direção a uma sensibilização para a necessidade de proteger artefatos que estão fora do planeta.

"Eu acho que a lua é patrimônio da humanidade", disse Beth L. O'Leary, professora de antropologia na Universidade Estadual do Novo México. "Ela é simplesmente um domínio incrível que os arqueólogos até agora não começaram a estudar."

O'Leary não tinha dado muita atenção à ideia da preservação histórica na lua até que um aluno lhe perguntou, em 1999, se as leis de conservação federais poderiam ser aplicadas aos locais de pouso da Apollo.

"Esse foi o pontapé inicial", disse ela.

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Essa acabou por ser uma pergunta complicada. Pelo direito internacional, o governo dos EUA ainda é dono de tudo o que deixou na Lua: a metade inferior da primeira sonda lunar, os experimentos científicos, os sacos de urina. Mas 100 países, incluindo os Estados Unidos, assinaram o Tratado do Espaço Exterior, em que se comprometem a não reivindicar soberania sobre qualquer parte da lua.

Durante a maior parte da última década, a tentativa de O'Leary e seus alunos de buscar proteção formal para os locais de pouso da Apollo foi uma iniciativa solitária. A NASA, por natureza, olha mais para o seu futuro que para o seu passado.

"Quando os programas da NASA são finalizados, eles tendem a se livrar de tudo", disse Milford Wayne Donaldson, oficial de preservação histórica da Califórnia.

As autoridades federais também foram cautelosas quanto à possibilidade dos outros países verem a concessão de proteção histórica aos locais de pouso da Apollo como um estratagema dos Estados Unidos para acabar fazendo reivindicações territoriais. E sem planos de voltar à Lua, tudo isso parecia um exercício acadêmico.

Mas o interesse pela lua ressurgiu. A Rússia e a Índia planejam enviar sondas robóticas. Até o governo Obama mudar de rumo poucos anos atrás, a NASA pretendia enviar astronautas de volta lá.

O que chama ainda mais atenção é que o Google Lunar X Prize, uma competição entre 26 equipes que tentam se tornar a primeira organização privada a colocar uma nave espacial na Lua, ofereceu um bônus de 1 milhão de dólares para visitar um local histórico lá. Pelo menos uma equipe anunciou que iria à Base da Tranquilidade.

De repente, a perspectiva de vermos um pequeno novo transeunte passar por cima das pegadas de Neil Armstrong não era inteiramente absurda.

Então, O'Leary começou a divulgar chamadas para funcionários de preservação histórica nos estados onde a indústria espacial tem bastante importância. Ela soube que o Texas não poderia ajudá-la, porque para ser listado como um recurso histórico de lá, um item deve estar no Texas.

No início de 2009, ela ligou para Donaldson, de Sacramento, Califórnia, para conseguir a sua ajuda para proteger as relíquias dos EUA que estavam na superfície da lua, "o que eu achei de cara que era uma ideia incrível, excelente", disse ele. O'Leary e seus alunos já haviam tentado conseguir que o Serviço Nacional de Parques listasse a base como marco histórico nacional, mas "eles se negaram categoricamente", disse Donaldson.

Quando ele verificou as leis da Califórnia, descobriu que os artefatos precisavam apenas ter uma ligação com o Estado a ser listado. O programa Apollo se qualificava, e a Comissão de Recursos Históricos aprovou a lista em janeiro de 2010. O Novo México fez o mesmo três meses mais tarde.

A NASA também se interessou. Robert Kelso, gerente de serviços lunares comerciais do Centro Espacial Johnson da NASA, em Houston, disse que conversou com altos funcionários da agência: "Nós dissemos que se eles estavam falando sério a respeito de ir até a lua, tínhamos que reunir alguns dos nossos melhores e mais brilhantes funcionários e começar a examinar isso".

A NASA realizou um workshop um ano atrás sobre a questão da preservação. Kelso, então, liderou uma equipe que catalogou o que foi deixado na Lua após as seis aterrissagens da Apollo. Ela também recomendou como equilibrar a preservação histórica com o desejo provável no futuro de investigar o tempo de duração dos materiais.

As recomendações, emitidas no outono americano, conferem uma maior proteção a itens da primeira missão à lua, Apollo 11, e da última, Apollo 17. No caso da Apollo 11, as recomendações solicitam que qualquer visitante, robótico ou humano, permaneça a pelo menos 75 metros da sonda.

"Nesse caso, isso protegeria cada pegada de Neil e Buzz e toda a estrutura da nave" disse Kelso.

No caso da Apollo 17, a bolha de proteção é ainda maior _ 225 metros _ porque um buggy lunar permitiu aos dois últimos homens na lua, Eugene A. Cernan e Harrison H. Schmitt, cobrirem um terreno ainda maior.

"Nós não protegemos todas as pegadas e rastros de astromóvel", disse Kelso, "mas protegemos vários deles".

A recomendação para outros locais de aterrissagem é que os visitantes podem se aproximar, mas não podem tocar em nada.

A equipe de Kelso também sugeriu diretrizes para as trajetórias de nave espaciais no espaço aéreo, para limitar a possibilidade de um escapamento de foguete explodir em torno da poeira lunar e danificar as pegadas.

Kelso disse que as recomendações da NASA, assim como as listas feitas pela Califórnia e Novo México, não têm força legal.

"Esperamos que, seja uma equipe internacional ou uma equipe comercial, ela honre e reconheça o valor desses locais de pouso, assim como essas recomendações", disse ele.

Isso pode ser suficiente.

"É uma mudança radical para a NASA sair com recomendações", disse O'Leary. "Eu acho que a orientação que fornecemos certamente fortalece as sanções morais contra a obliteração de parte do registro arqueológico".

A equipe do Lunar X Prize que declarou que iria à Base da Tranquilidade , comandada por uma empresa chamada Astrobotic Technology, agora diz que vai ficar longe dos locais de pouso da Apollo 11 e 17.

Donaldson gostaria de adicionar a Base da Tranquilidade à lista de patrimônios da humanidade das Nações Unidas. Mas primeiro ele terá conseguir que as regras sejam alteradas. Atualmente, as nações podem adicionar apenas os locais que estão "em seu território."

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