Perto do fim, um motivo para celebrar os ônibus espaciais

Economia da cidade de Titusville, na Flórida, sentirá o impacto do fim do programa de naves espaciais, que se encerra neste ano

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Brinquedos inspirados em ônibus espaciais, à venda na cidade de Titusville
Como já aconteceu muitas vezes, em algum momento na tarde desta sexta-feira (29), o trecho da Rota 1 em frente ao restaurante de Chris Galorneau vai se transformar em um estacionamento.

Os motoristas sairão de seus carros, os clientes do Village Inn, onde Galorneau é gerente geral, deixarão os seus quartos, e os funcionários das empresas localizadas ao longo da Rota 1, que serve
como rua principal nesta cidade de 45.000 habitantes, deixarão seus escritórios.

Pouco antes da 16h (17h, horário de Brasília), todos os olhos se voltarão para o Centro Espacial Kennedy, 12 quilômetros a leste, do outro lado da Lagoa do Rio Indian.Lá, da plataforma de lançamento 39A, se o tempo permitir, o Endeavour será lançado ao céu, deixando para trás um pedestal de chamas e carregando seis astronautas em uma missão de duas semanas na Estação Espacial Internacional (ISS).

"O restaurante fica vazio", disse, na quarta-feira, uma das garçonetes do Galorneau. "Todo mundo vai para a beira do lago. E então, depois do lançamento, 10 minutos mais tarde, nós temos um restaurante lotado e uma lista de espera de horas".

O breve e maravilhoso espetáculo que é um lançamento de um ônibus espacial aconteceu outras 133 vezes, e Galorneau viu grande parte deles (exceto pela vez em que ficou preso dentro do restaurante fazendo massa para panquecas - "Não existe uma casa de panquecas sem massa de panquecas", disse ele - e só sentiu o prédio tremer). Este lançamento deve ser um dos maiores, com cerca de 750 mil pessoas ocupando as estradas em Titusville, Cabo Canaveral e outras cidades da região.

Parte do interesse na missão do Endeavour é o drama que envolve o seu comandante, o capitão Mark E. Kelly, cuja esposa, a deputada Gabrielle Giffords do Arizona, foi gravemente ferida em um tiroteio, em janeiro. A outra parte é, sem dúvida, por causa de uma aguardada visita do presidente Barack Obama, que deve assistir ao lançamento com Giffords.

Mas a atração principal é o fato de que, após este lançamento e o lançamento do Atlantis dentro de dois meses, não haverá mais viagens de ônibus espaciais. Depois de três décadas, o programa chegou ao fim da linha.

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Turistas buscam a cidade para assistir aos lançamentos espaciais
"Você não vai ver outro - acabou", disse Scarborough Truman, um advogado que foi prefeito Titusville na década de 1980 e serviu como comissário do condado de Brevard durante 20 anos, até 2008.

Scarborough e outros disseram que nos últimos três ou quatro lançamentos, as multidões foram ficando cada vez maiores à medida que o programa se aproxima do fim. Autoridades preveem que talvez um milhão, ou mais, de pessoas estarão presentes para o lançamento do Atlantis, uma multidão que iria rivalizar com aquela formada nos dias de glória do programa espacial, quando o gigantesco foguete Saturn V impulsionou os astronautas da Apollo 11 para a Lua.

No centro espacial, o fim do programa é aparente nas mudanças físicas que ocorrem. Na plataforma de lançamento 39B, uma irmã gêmea da plataforma onde o Endeavour se encontra, na quarta-feira os trabalhadores desmantelavam, pouco a pouco, as gigantescas estruturas de aço que abrigaram muitos ônibus espaciais antes da decolagem - incluindo o Challenger, que decolou em 1986 para nunca mais voltar.

Há vários quilômetros de distância, em uma enorme baia de manutenção, onde os trabalhadores normalmente estariam fazendo a manutenção do ônibus espacial Discovery para prepará-lo para sua próxima missão, eles removiam algumas de suas peças internas, para que a nave possa ser entregue, no próximo ano, ao Instituto Smithsonian.

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Mas em Titusville, e outras cidades nos arredores do centro espacial, as alterações estão sendo medidas em termos de seres humanos, não de equipamento. Embora o programa espacial nunca tenha realmente atingido o seu objetivo nobre de tornar os voos espaciais algo comum, ele criou uma rotina para milhares de trabalhadores do setor aeroespacial aqui.

Alguns deles - a maioria funcionários de empreiteiras, não da Nasa - já recebeu aviso de demissão. E muitas outras dispensas e demissões voluntárias devem acontecer neste verão. Ao todo, cerca de 8.000
trabalhadores estão sendo desligados.

 "Essa tem sido a nossa vida desde sempre", disse o reverendo Tom Porter, pastor da Igreja do Templo Batista, que disse que alguns membros demitidos de sua congregação já haviam partido em busca de
novos empregos em outros lugares.

Titusville e outras comunidades viram isso acontecer aos poucos - os debates sobre o fim do programa do ônibus espacial começaram sete anos atrás. E veteranos já viram isso acontecer antes, especialmente quando o programa lunar Apollo foi encerrado, em 1973. "No início dos anos 70, eu costumava vir aqui de Saint Petersburg, e era uma cidade fantasma", disse Porter.

Aliás, foi o programa dos ônibus espaciais que trouxe a região de volta à vida, após a calmaria pós-Apollo. E embora a Nasa planeje, um dia, substituir os ônibus espaciais por foguetes tripulados comerciais que usariam o centro espacial, ninguém sabe em quanto tempo isso vai acontecer.

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O ônibus espacial Endeavour aguarda seu lançamento final

Autoridades locais afirmam que a região é muito mais diversa economicamente agora, e que o efeito da indústria espacial, para melhor ou pior, não é tão grande como costumava ser. Com muitos de seus negócios fechados - o Shopping Miracle City, que fica poucos quarteirões abaixo do restaurante Galorneau, é uma sombra do que costumava ser, com apenas algumas lojas abertas - Titusville não é muito diferente de outras cidades da Flórida, que se desenvolveram muito rápido nos anos de crescimento econômico, apenas para sofrer com a crise econômica.

Além da diversidade econômica, disse Scarborough,

há outra coisa que está diferente desta vez: a vida está mais complicada. O programa Apollo empregou muitos jovens engenheiros que rapidamente conseguiram se reeguer quando o programa foi encerrado. Atualmente, os engenheiros e outros trabalhadores são mais velhos e muitos de seus cônjuges também trabalham. Partir para um novo emprego pode não ser tão fácil - pode, até mesmo, não ser desejado.

"Largar tudo e recomeçar pode não fazer sentido quando faltam apenas 10 ou 15 anos para sua aposentadoria", disse Scarborough. "Isso não é o que aconteceu depois do programa Apollo".

Porter disse que, esta semana, sua congregação orou para que Obama, que continua a empurrar o programa de voos espaciais tripulados para empresas privadas e para longe da Nasa, "veja o lançamento e se comova tanto que mude de ideia e mantenha o programa".

Mas ele acredita mesmo que isso possa acontecer? "Não", disse ele. "Humanamente falando, de jeito nenhum".

Porter disse que alguns trabalhadores, sabendo da chegada das demissões, tomaram medidas para estarem prontos. Mas outros não.

"A Bíblia diz para considerarmos as formigas", disse ele. "As formigas - você sabe, elas trabalham, poupam e se preparam. Sim, isso aconteceria em um mundo perfeito".

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