Parente do vírus da hepatite C é encontrado em cães

Descoberta aconteceu enquanto pesquisadores estudavam doenças respiratórias caninas e surpreendeu comunidade científica

The New York Times |

De certa forma, a hepatite C é uma doença célebre. Em âmbito mundial, cerca de 200 milhões de pessoas estão infectadas com o vírus. Algumas delas terão cirrose, câncer de fígado e também vão morrer. Celebridades como Steven Tyler, do Aerosmith e 'American Idol’, já falaram publicamente de suas infecções.

Porém, a doença ainda é cercada por mistérios. Geralmente espalhada por seringas compartilhadas por usuários de drogas, transfusões de sangue e contato sexual, a hepatite C pode afetar o fígado por 20 anos ou mais antes de as vítimas ficarem sabendo que estão doentes. “Em âmbito mundial, está causando uma devastação”, disse Brian Edlin, epidemiologista do SUNY Downstate Medical Center, do Brooklyn.

Suas origens são ainda mais intrigantes. A hepatite é uma doença distinta das formas A e B da enfermidade; pertence a uma família virótica completamente diferente, que inclui doenças como as febres amarela e a do Nilo ocidental. Os cientistas pesquisaram vírus relacionados durante anos em animais para descobrir como ele se transformou numa doença humana.

“Identificar a espécie reservatório da hepatite C – uma das viroses humanas mais comuns e mortais – tem um quê da busca pelo Santo Graal nos estudos de evolução viral”, disse o Dr. Eddie Holmes, virologista da Universidade Estadual da Pensilvânia. Agora, os cientistas acharam uma pista importante, encontrando um parente próximo num hospedeiro inesperado: o cão.

A descoberta, divulgada em 'Proceedings of the National Academy of Sciences’, “representa um grande passo adiante”, assegura Holmes, que não participou da pesquisa.

O achado foi uma surpresa para todos os cientistas envolvidos. Pesquisadores da Pfizer estavam investigando surtos de vírus em cachorros dos Estados Unidos. Eles recolheram material do nariz de cães com doenças respiratórias em busca de vírus. Em alguns casos, eles não puderam isolar um vírus conhecido, então enviaram amostras para o Centro para Infecção e Imunidade da Universidade de Columbia, onde existem pesquisadores especializados em achar novos vírus.

O Centro da Columbia achou que seis dos nove cães de um dos surtos e três entre cinco de outro tinham o mesmo vírus desconhecido. Amostras nasais de 60 cachorros saudáveis não continham nenhum sinal dele.

O Dr. Amit Kapoor, virologista de Columbia, comparou o material genético do novo vírus com outros conhecidos. A análise revelou que ele era estreitamente relacionado ao vírus da hepatite C. “Eu não estava esperando nada como isso”, declarou Kapoor. Como muitos outros pesquisadores, ele pensava que o vírus evoluíra de uma versão encontrada em primatas porque os chimpanzés podem ser infectados experimentalmente com a hepatite C.

Entretanto, à medida que Kapoor e Peter Simmonds, da Universidade de Edimburgo, analisaram mais dados genéticos, a ligação permanecia. Kapoor e seus colegas batizaram o achado de hepacivírus canino.

Os pesquisadores da Columbia colaboraram com especialistas em hepatite C da Universidade Rockefeller, de Nova York, para comparar os dois vírus. O hepacivírus canino infecta as vias aéreas dos cães e está presente em níveis baixos no fígado.

Baseados na similaridade genética dos dois vírus, os cientistas estimam que ambos têm um ancestral comum que viveu entre 500 e mil anos atrás. “É difícil definir”, disse W. Ian Lipkin, diretor do Centro para Infecção e Imunidade e um dos autores do artigo publicado. “Não é algo que aconteceu recentemente, mas também não ocorreu há centenas de milhares de anos”.

Os pesquisadores veem três possibilidades para a origem dos vírus. A menos provável é a de que os cães adquiriram hepatite C de humanos. Outra possibilidade é que os animais e os humanos adquiriram o vírus de um animal desconhecido, num tipo de evolução como a que deu início ao surto de SARS em 2004. A princípio, os cientistas encontraram o vírus na civeta-das-palmeiras, mamífero nativo do Sudeste Asiático que lembra um gato. Mais tarde, porém, a pesquisa revelou que o vírus surgiu em morcegos e depois se espalhou para civetas e humanos.

A terceira possibilidade – apoiada por Kapoor – é a de que o vírus começou em cães e depois se transformou numa doença infecciosa do fígado humano. “As informações que temos favorecem a origem nos cachorros”, disse. Para testar as alternativas, Kapoor e colegas planejam procuram vírus parecidos aos da hepatite C em cães de outros países, raposas e outras espécies de mamíferos carnívoros.

Contudo, antes de o mistério ser revolvido, os pesquisadores esperam ver alguns benefícios da descoberta do hepacivírus canino. Na edição atual da 'Nature’, Edlin argumenta que muito mais trabalho precisa ser feito para combater a epidemia de hepatite C. Além de melhor vigilância, ele vê necessidade de pesquisa de drogas antivirais e vacinas. Atualmente, não existe vacina para hepatite C disponível comercialmente.

Os pesquisadores agora podem ser capazes de estudar o hepacivírus canino para compreender melhor a hepatite C humana. “Sei que isso será útil”, declarou Edlin.

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