Órgão dos EUA defende censura à pesquisa de gripe aviária

Conselho de biossegurança norte-americano justifica porque impediu publicação de pesquisa sobre nova variedade do H5N1

iG São Paulo |

Reuters
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Uma forma de gripe aviária potencialmente mortal é um das mais graves ameaças à raça humana e justifica um pedido inédito de censura da publicação da pesquisa científica que a gerou, afirmou um alto funcionário do governo americano nesta terça-feira (31).

O Conselho Nacional Científico para Biossegurança dos Estados Unidos (na sigla em inglês NSABB) iniciou um debate furioso na comunidade científica em dezembro, quando pediu às revistas científícas Nature e Science que não publicassem dois estudos sobre novas cepas do vírus H5N1 que podem ser mais contagiosos para humanos. “O potencial deste patógeno, em teoria, é mais perigoso do que qualquer outra coisa que eu possa imaginar,” afirmou Paul Keim, chefe do NSABB, à Reuters por email.

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Keim explicou sua decisão pessoal em apoiar a censura ao estudo em um artigo no periódico mBio, da Sociedade Americana de Microbiologia. O grupo também publicou artigos explicando sua posição tanto na Science quanto na Nature.

De acordo com o grupo, havia o receio que as cepas mutantes do H5N1 criadas por pesquisadores do Centro Médico Erasmus, na Holanda, e na Universidade de Wisconsin-Madison, poderia sair do laboratório ou usadas como armas biológicas.

A decisão foi inédita para o NSABB, e atraiu críticas dos cientistas que afirmaram que censurar a informação poderia atrasar a pesquisa de novos tratamentos e prejudicar esforços de rastrear o vírus.

Os pesquisadores responsáveis pelo estudo concordaram em uma moratória de 60 dias para permitir que agências governamentais e de saúde pública possam debater como lidar com essa informação. Um debate sobre o tema já está agendado para meados de fevereiro na Organização Mundial de Saúde em Genebra.

Keim, que chefia o departamento de microbiologia na Universidade do Norte do Arizona, disse que o órgão considerou a informação de que a gripe aviária mata metade dos infectados, uma taxa muito superior que a epidemia de Gripe Espanhola, que matou 40 milhões de pessoas entre 1918 e 1919.

Fazer um vírus tão mortal ser mais transmitido mais facilmente é algo para ser levado a sério, afirmou o cientista em seu texto no mBio. “Uma pandemia causada por esse vírus pode ter conseqüências tão devastadoras que ela tem que ser evitada a todo custo”.
Faca de dois gumes
O NSABB foi criado após uma série de ataques de anthrax nos Estados Unidos em 2001. Ele aconselha o governo sobre pesquisas que podem ter usos ambíguos, tanto em saúde pública quanto em ameaças bioterroristas.

Os Intitutos Nacionais de Ciência dos EUA, que funcionaram parte da pesquisa de gripe aviária, concordaram com a avaliação do órgão e recomendaram aos periódicos que não publicassem trechos importantes do trabalho.

Nos artigos de hoje em ambos periódicos, o grupo do NSABB disse que o pedido levou em consideração os possíveis benefícios da publicação do estudo, bem como os danos que ele poderia causar. “Nossa maior preocupação era que a publicação desses experimentos em detalhes poderia fornecer informações a pessoas ou organizações que poderiam ajudá-los a desenvolver vírus mutantes para propósitos nocivos. Como cientistas e cidadãos, nosssa responsabilidade principal é evitar danos à sociedade,” afirmaram em seu texto.

O estudo embargado mostrava o H5N1 mutante era extremamente transmissível em cobaias de laboratório. Vincent Racaniello, da Universidade de Columbia, publicou uma réplica à NSABB no mesmo mBio, afirmando que não é certo que as novas cepas do H5N1 fossem letais ou transmissíveis a humanos. Além disso, em seu texto ele ressalta que um precedente perigoso pode ser aberto, porque a comunidade científica não tem como validar um estudo publicado apenas parcialmente. Keim afirmou concordar que os riscos de transmissão em humanos não estavam claros, mas achou que os riscos de uma pandemia global não compensariam os benefícios.

(Com informações da Reuters)

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