O verdadeiro amor de Allan R. Sandage eram as estrelas

Astrônomo, falecido em novembro, era conhecido nos Estados Unidos como o ¿Senhor Universo¿

The New York Times |

Quando conheci pela primeira vez o respeitado cosmologista Allan R. Sandage, que morreu no último dia 13 de novembro aos 84 anos, ele se recusou a falar comigo.

No final da década de 1970, eu era editor júnior da revista “Sky & Telescope”. Um astrônomo tinha acabado de realizar algumas incríveis medições de quasares que se encaixavam com um recente trabalho de Sandage, sobre o qual eu havia lido no jornal, indicando que o universo em expansão iria eventualmente se fechar sobre si mesmo e ruir numa grande trituração. Se fosse verdade, isso também seria uma grande notícia, então liguei para ele.

Sandage atendeu o telefone – um acontecimento por si só digno de nota –, e disse que não havia nada sobre o que falar. Os repórteres do jornal haviam mais uma vez estragado tudo e interpretado suas observações erroneamente. Na verdade ele estava na outra linha com o "New York Times", exigindo uma correção.

“Então, como pode ver”, disse ele alegremente, “você não tem uma história”.

E assim eu fui colocado de lado, me sentindo realmente bastante júnior.

Na época em que não conversamos, Sandage tinha pouco mais de 50 anos, muito mais jovem do que sou hoje, mas ele já havia sido o Sr. Universo, o homem a quem os jornais ligavam pela última palavra sobre o estado do cosmos, por quase três décadas.

Ele havia herdado aquele papel com 27 anos de Edwin Hubble, o primeiro astrônomo a mostrar que aqueles borrões no céu eram galáxias além da nossa, e prosseguiu para mostrar que todas elas estavam voando para longe de nós.

Na época, nossa concepção do universo era quase tão jovem quanto Sandage, que nasceu em 1926, três anos antes de Hubble descobrir a expansão cósmica. Ao longo de sua vida, Sandage viu as discussões sobre as teorias do Big Bang e do Estado Estacionário darem lugar à energia escura e à matéria escura; os astrônomos foram de usar macacões de voo eletricamente aquecidos a passar noites no telescópio para baixar imagens do Telescópio Espacial Hubble.

Antigamente, as mulheres não podiam trabalhar no Monte Wilson, onde as galáxias foram descobertas; hoje uma mulher, Wendy L. Freedman, é diretora do Observatório Carnegie, como passou a ser chamado o Observatório do Monte Wilson em Pasadena, na Califórnia. Antigamente, havia apenas um cosmologista no mundo todo: Sandage. Na época em que ele faleceu já havia milhares, a maioria seguindo o programa e as técnicas que ele havia definido, nas décadas de 50 e 60, para encontrar os poucos números sagrados que soletrariam tamanho, idade e destino do universo.

Mensurar o universo teve um preço para Sandage. O cosmos tremia a cada vez que ele obtinha mais dados sobre as galáxias distantes e era entrevistado. Assim, ele parou de conceder entrevistas depois de errar algumas vezes, algo que acontece com qualquer cientista.

Seu isolamento cresceu quando ele se envolveu numa controvérsia aparentemente interminável e amarga hoje conhecida como as guerras de Hubble, a respeito da constante de Hubble – um número que informava o tamanho e a idade do universo. Dependendo de com quem você conversava, o universo tinha 10 bilhões ou 20 bilhões de anos, sem espaço para acordos – algo no mínimo estranho, já que as próprias estrelas tinham entre 12 e 15 bilhões de anos.

Uma década após nossa primeira não-conversa, acabei conseguindo fazer Sandage falar comigo. Durante anos de almoços e jantares, arranquei dele sua história de vida. Foram as entrevistas mais difíceis e gratificantes que já fiz. Sandage reclamava constantemente que não sabia por que estava falando comigo – nada de bom poderia sair disso –, mas ele continuava falando.

O que saiu disso foi um livro que ele jurou que nunca leria. Temi que ele voltaria a não conversar comigo, mas mesmo assim ele continuou falando; nenhuma viagem a Los Angeles estava completa sem um longo almoço com o Tio Allan. Se considerasse que a ocasião justificasse isso, ele podia fazer charme, provocar, xingar como um marinheiro, descompor seus rivais ou discutir filosofia e teologia como um pastor. Em seus dias ruins, Sandage algumas vezes negava que jamais havia sido um cosmologista. Sua verdadeira paixão eram as estrelas.

“A cosmologia é um tedioso fardo de orgulho”, disse ele certa vez, acrescentando que ele tinha sido arrastado para isso pelo dever.

Mas ele nunca perdeu seu entusiasmo pelas maravilhas do céu, e podia ficar tonto de alegria com alguma pérola de conhecimento estelar. Eu amava aquele cara porque ele havia visto tudo; para mim, ele era o Rei Lear do cosmos.

Seu escritório no Observatório Carnegie era um santuário à época de Hubble, quando os dados não chegavam em arquivos de computador, mas em placas fotográficas que os astrônomos examinavam com lentes de aumento, como joalheiros analisando gemas. Seu leitor de placas estava pendurado com uma réstia de alho, suas prateleiras e armários estavam cheios de fotos de galáxias marcadas com caneta. Ao redor, em envelopes amarelados, estavam placas fotográficas tiradas meio século antes pelos gigantes pioneiros da cosmologia. Algumas vezes parecia que aqueles caras – e eram mesmo todos homens – estavam na sala conosco.

Sandage uma vez passou uma noite me explicando uma recente compilação de dados – alguns da época daquelas antigas placas – sobre galáxias próximas. No fim, enquanto mapeávamos tudo, o cabelo se eriçou em minha nuca: bem ali, emergindo em meio a um mar de pontos, estava a expansão do universo – a verdadeira charada cósmica.

Para um jornalista, é perigoso envolver-se demais com qualquer lado de uma discussão genuinamente cientifica; na verdade, eu gostava de todo mundo nos dois lados da guerra de Hubble, incluindo John Huchra, um professor de Harvard que se tornou um dos opositores de Sandage na década de 1970, e que faleceu em outubro deste ano.

À medida que a lacuna entre as estimativas de tamanho do universo se estreitavam nos últimos anos, de um constrangedor fator de 2% a um de aproximadamente 15% – o bastante para acomodar as idades das estrelas –, eu esperava, assim como muitos astrônomos, que Sandage simplesmente declarasse vitória e prosseguisse adiante com sua ilustre carreira.

Isso não era para acontecer. As guerras de Hubble já acabaram.

O universo e a cosmologia podem fazer um pouco mais de sentido agora, pelo menos numericamente, mas nós ainda não sabemos de onde viemos e para onde as galáxias estão indo. Tentar descobrir isso não será tão divertido sem o tio Allan.

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