O retorno da terapia gênica

Uma das promessas ainda não realizadas da medicina volta com força total

Alessandro Greco, especial para o iG |

A terapia gênica, uma das grandes promessas da medicina moderna que ainda não se realizou, está cada vez mais sendo testada em todo o mundo. Nos Estados Unidos há atualmente 354 estudos sendo realizados na área.

A terapia gênica nada mais é do que trocar um gene defeituoso por um que funcione. Falando assim parece simples – é apenas uma troca –, mas não é. Levar o gene até um local específico dentro do organismo sem que ele se desvie da rota e saber a qual será a reação do mesmo à visita de um corpo estranho são tarefas bastante complexas.

As universidades e institutos de pesquisa, companhias farmacêuticas e capitalistas de risco estão apostando novamente na área após as pesquisas terem sido praticamente paralisadas no final da década de 1990 devido à morte do jovem americano Jesse Gelsinger, que fazia um dos primeiros testes com terapia gênica. Tratamentos para outras doenças, de origem genética ou não, também estão em testes, alguns com investimentos na casa dos milhões de dólares. Leia mais abaixo:

Vida e morte de Jesse
Entenda como funciona a terapia gênica
A retomada dos testes

Especial: 10 anos do Genoma Humano

Reprodução
Jesse Gelsinger: morte durante teste clínico congelou novas iniciativas por vários anos
Vida e morte de Jesse
Em 1999, o jovem americano Jesse Gelsinger era um dos voluntários de um experimento que tentava, por meio de manipulação genética, encontrar a cura para uma doença chamada deficiência da ornitina transcarbamilase (OTC). Seus portadores não são capazes de eliminar amônia do sangue, uma substância produzida durante a digestão da proteína dos alimentos e que, em níveis muito altos, pode provocar vômitos, problemas respiratórios e até delírios.

Por causa disso, o jovem americano sempre teve de seguir uma dieta rigorosíssima que bania todo e qualquer tipo de alimento protéico -- vulgo, nada de carnes, ovo, leite, iogurtes, queijos, etc. Ele decidiu participar de um estudo experimental Fase I da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que tentava conter o excesso de amônia com uma injeção do gene OTC, produtor de uma enzima capaz de processar a amônia.

Poucos dias apos receber a injeção com o gene, Jesse morreu. Os pesquisadores acreditam que o organismo dele teve uma reação exagerada ao adenovírus (que normalmente provocaria um resfriado) usado nos testes.

Entenda como funciona a terapia gênica

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Ilustração mostra vetor de terapia gênica no sistema circulatório
A técnica é sempre a mesma: uma molécula, chamada de vetor, é utilizada para levar o gene terapêutico que na pessoa não funciona direito até as células-alvo.

Para fazer este transporte o organismo não deve detectar o vetor. Caso contrário, ele pode considerar o vetor um inimigo e simplesmente destruí-lo. Atualmente os vírus são os vetores mais utilizados nesse tipo de terapia pois seu mecanismo de ação é bem conhecido pelos cientistas – o vírus encapsula seus genes e os leva para dentro das células humanas, provocando doenças como o resfriado.

Na terapia gênica, os cientistas manipulam os vírus e substituem os genes nocivos à saúde pelos genes terapêuticos. Assim, os vírus passam a ser incapazes de provocar uma doença e servem apenas como transportadores.

Em teoria é razoavelmente simples, mas essa manipulação tem se mostrado bastante delicada e o uso de vírus como meio de transporte tem sido constantemente aperfeiçoado para evitar reações indesejáveis.

Atualmente os cientistas sabem, por exemplo, que a estrutura exterior do vírus contém proteínas que podem levar a reações inflamatórias em determinados organismos. Sabem também que o tamanho de um vírus pode não ser suficiente para transportar todos os genes que se quer aplicar na terapia.

Por fim, depois do fracasso de experiências passadas, já conhecem quais vírus que não servem como vetores, porque ficam muito frágeis ao serem atenuados e podem morrer no meio do caminho, sem levar o gene terapêutico ao seu destino final. Apesar da complexidade, avanços nas pesquisas nos últimos anos permitiram que recentemente testes em humanos voltassem a ser realizados.

AP
David Vetter, o "garoto da bolha", em 1976: novas terapias podem curar doenças genéticas
A retomada dos testes
No final de junho, um estudo de terapia gênica para crianças com Imunodeficiência Severa Combinada (conhecida como doença do menino da bolha) começou a aceitar pacientes. O trabalho é o primeiro de seu tipo a ser autorizado nos últimos cinco anos pelo FDA, desde que dois pacientes em outros testes clínicos em Paris e Londres desenvolveram leucemia.

Em março, por exemplo, a empresa Genetix captou US$ 35 milhões em financiamentos após um estudo na França mostrar que uma das terapias gênicas da empresa bloqueou a progressão da Adrenoleucodistrofia (ALD) em duas crianças – a ALD é a doença genética mostrada no filme “Óleo de Lorenzo”, que mostra a história verdadeira de um casal em busca de uma cura para o filho portador da doença.

Pouco antes, em fevereiro, a Tacere Therapeutics anunciou que a Pfizer exerceu a opção que tinha desde 2008 para desenvolver um novo tratamento para Hepatite C baseado em uma terapia gênica desenvolvida pela empresa. E, em janeiro, a Novartis anunciou que irá colaborar com a empresa GenVec no desenvolvimento de um estudo para tratar perda auditiva.

Mais recentemente, no final de maio, a Genzyme começou um teste clinico fase I recentemente para tentar realizar via terapia gênica o tratamento de um tipo de degeneração macular com uma droga chamada Lucentis (que já é usada, mas atualmente é preciso injetá-la diretamente no olho uma vez ao mês). Duas outras empresas, Acucela e Optherion, também buscam tratamentos para a doença usando terapia gênica.

A eficácia da terapia gênica ainda tem de ser comprovada, mas a volta dos testes mostra que o grau de confiança na área aumentou bastante. Se a promessa irá se realizar agora somente o resultado desses testes poderá mostrar.

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