Na guerra dos sexos do reino animal, vale tudo

As táticas dos animais para conseguir sexo (ou fugir dele) são dignas dos melhores estrategistas militares

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

Para aqueles dias que só se pensa em deitar e dormir, vale qualquer pretexto. Mas no reino animal, a clássica dor de cabeça dá a vez para estratagemas muito mais ardilosos. Um exemplo é a artimanha das fêmeas do molusco da espécie Litorina saxatilis . Quando cansam do assédio masculino, elas param de produzir o muco que normalmente atrai os machos. Confusos, eles passam até uma hora, o dobro do tempo normal, a procurá-las (e muitas vezes até seguindo outros machos), e assim as fêmeas ganham um  descanso. Mas os pequenos moluscos não estão sozinhos. Muitas espécies diferentes usam dos mais variados subterfúgios para negar (ou conseguir) sexo. Veja mais na galeria .

A tática dos Litorina foi descoberta pela equipe de Ecologia Marinha da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, e publicada esta semana no periódico PLoS Biology. A razão para a relutância está na proporção entre machos e fêmeas: a cada temporada de acasalamento, entre 10 e 20 machos buscam uma fêmea para copular.

Science/AAAS
Nem vêm que não tem: as fêmeas da espécie Litorina saxatilis deixam de liberar o muco atrativo quando fazem greve de sexo
"É benéfico para o macho acasalar o mais rápido possível, pois esta é a única maneira que eles têm para influenciar o número de filhos. Mas acasalar é, muitas vezes, custoso para as fêmeas,” disse Kerstin Johannesson, que coordenou a pesquisa, em comunicado da universidade.

Os pesquisadores usaram câmeras para acompanhar as intrigas sexuais dos moluscos. E haja paciência: cada cópula da espécie dura entre 10 e 30 minutos. As fêmeas literalmente carregam os machos que inserem seu pênis nelas fazendo movimentos circulares – não é à toa que cansam. Depois, ficam vulneráveis a predadores, enquanto cuidam sozinhas da prole. “Ao não excretar o muco, as fêmeas copulam com menos frequência, já que os machos perdem mais tempo à sua procura", disse Johannesson.

Mascarar o gênero para obter a cópula é uma artimanha comum no reino animal, mas casos de machos se fingindo de fêmeas para chegar perto do objeto amado costumam ser a regra. Uma exceção é a libélula do gênero Zygoptera , cujas fêmeas alteram sua cor para ficar mais parecidas com os machos e assim evitar paqueras indesejados.

G uerra do amor
Situações em que animais de gêneros diferentes têm conflitos de interesse reprodutivo são conhecidas na biologia como “conflitos sexuais”. Machos da espécie de mosca Drosophila montana , por exemplo, têm o hábito de copular por mais tempo que as fêmeas gostariam, para evitar que elas sejam inseminadas pelos seus concorrentes. A fêmea, por sua vez, lutar contra o macho, tentando se desalojar dele. Já os moluscos marinhos Sepia apama usam táticas mais sutis: para vencer machos concorrentes maiores, se fazem parecidos com as fêmeas. Assim, conseguem se aproximar tranquilamente delas sem ter que competir com machos mais fortes. É o vale-tudo do amor.

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