Violinos antigos não são melhores que novos, diz estudo

Em teste feito às cegas, músicos não souberam diferenciar qualidade do som de instrumentos

The New York Times |

AP
Estudo afirma que superioridade de violinos antigos é um mito

O que faz com que um violino feito por Stradivari ou Guarneri del Gesu tenha um som especial? Pesquisadores já examinaram os conservantes de madeira, o verniz e até mesmo os efeitos causados pela Pequena Idade do Gelo na densidade de madeira para descobrir qualquer coisa que possa explicar as propriedades quase mágicas desses instrumentos.

Claudia Fritz, perita na acústica dos violinos da Universidade de Paris, chegou a uma explicação diferente para o segredo. Apesar de uma crença generalizada na superioridade dos violinos antigos e dos milhões de dólares que um Stradivarius custa hoje, os violinos feitos pelos antigos mestres na verdade não têm um som melhor do que os instrumentos modernos de alta qualidade, de acordo com avaliações que ela e os colegas têm realizado com especialistas de olhos vendados.

"Eu acho que esse segredo só existe na cabeça das pessoas", disse ela.

Já foram realizados vários experimentos em que o público tentou, geralmente sem sucesso, adivinhar se o violinista que está atrás de uma tela está tocando um instrumento novo ou de um antigo mestre. Contudo, Fritz disse que, até onde sabe, ninguém antes tinha conduzido uma pesquisa bem controlada que fizesse a mesma pergunta aos verdadeiros especialistas: os violinistas.

Firmando uma parceria com o fabricante de violinos Joseph Curtin, entre outros, ela abordou violinistas que estavam assistindo uma competição internacional em Indianápolis e fez com que eles comparassem três violinos modernos de alta qualidade com um Guarneri e dois Stradivari.

As pessoas convidadas a avaliar um vinho tendem a acreditar que ele é mais agradável quando se diz a elas que a bebida tem um preço elevado. Para evitar tal efeito, os violinistas tiveram que usar óculos de proteção, a fim de impedir que identificassem os violinos. Em um dos testes, eles foram autorizados a tocar todos os seis violinos e convidados a responder qual dos instrumentos eles mais gostariam de levar para casa. Em um outro, pediu-se que eles comparassem um par de violinos, sem que soubessem que um deles era um clássico e o outro, um instrumento novo.

Apesar de a maioria dos violinistas acreditar que a sonoridade dos violinos Stradivarius e Guarneri é superior, os participantes do teste de Fritz não conseguiram distinguir de forma confiável tais instrumentos dos violinos modernos. Apenas oito dos 21 indivíduos escolheram um violino antigo como o que gostariam de levar para casa. Na comparação entre antigos e novos, um Stradivarius ficou em último lugar e um violino novo foi o preferido.

"Esses resultados representam um desafio impressionante à sabedoria convencional", relataram Fritz e seus colegas na última segunda-feira, no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences, publicado na Internet.

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As conclusões de Fritz, naturalmente, são música para os ouvidos dos fabricantes de violinos modernos, que têm menos apelo junto aos violinistas.

O estudo é "bastante digno de confiança", disse Sam Zygmuntowicz, um luthier que já fabricou instrumentos para Isaac Stern, Yo-Yo Ma e Emerson String Quartet. Ele "derruba alguns mitos antigos e com certeza deve ser uma boa notícia para os músicos jovens que anseiam por violinos pelos quais nunca conseguirão pagar".

"Não existe uma essência divina" nos violinos antigos; "existe apenas um objeto físico que funciona melhor ou pior dentro de uma variedade de circunstâncias", disse Zygmuntowicz, que já trabalhou com o físico George Bissinger em uma documentação científica de violinos antigos.

Será que isso significa que os luthiers de Cremona não têm nenhum segredo? "Não temos como saber", disse Zygmuntowicz. Cada instrumento é especial, mas é difícil identificar o que os diferencia como classe. "Eu acho que os violinos novos conseguem capturar a maior parte, se não tudo, do que torna os violinos antigos excelentes, e mesmo que eles não consigam, não devemos parar de tentar", disse ele.

O violinista Earl Carlyss, membro de longa data do Quarteto de Cordas Juilliard, tem uma opinião menos respeitosa de estudo de Fritz. "Essa é uma maneira totalmente inadequada de descobrir a qualidade desses instrumentos", disse ele. As audições, observou ele, ocorreram em um quarto de hotel, mas os violinistas sempre precisam avaliar como um instrumento se projeta em uma sala de concertos. O teste, para ele, foi como uma tentativa de comparar um Ford a um Ferrari no estacionamento de um Walmart.

"Os instrumentos modernos são muito fáceis de tocar e soam bem aos ouvidos, mas o que tornava os instrumentos antigos tão bons era a força que alcançavam em um sala de concertos", disse ele.

Carlyss enfatizou a relação muito íntima que os violinistas têm com seus instrumentos _ algo que pode ser difícil de reproduzir nas condições do teste. Uma opinião semelhante foi expressa por Mark Ptashne, biólogo e violinista que toca o Plowden, de Guarneri del Gesu_ os antigos violinos italianos todos têm nomes individuais _ e também já teve um Stradivarius.

"Mesmo os músicos mais experientes que não conviveram com um violino excelente não percebem o que estão ouvindo ou fazendo quando tocam pela primeira vez um instrumento excelente", disse ele. "Segundo, os Stradivarius e del Gesus variam tremendamente em termos de características de som e qualidade, o que faz com que seja difícil chegar a generalizações a partir de alguns casos, de todo modo."

Fritz reconheceu que o seu estudo usou poucos violinos. Mas é muito difícil, observou ela, fazer com que os proprietários emprestem seus instrumentos de milhões de dólares para serem tocados por desconhecidos de olhos vendados.

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