Miguel Nicolelis quer espalhar ciência pelo Brasil

Em entrevista ao iG, cientista explica porque escrever sobre o cérebro e avisa que só volta ao País para tocar projetos sociais

Natasha Madov, enviada a Paraty |

Flavio Moraes/Fotoarena
Miguel Nicolelis, durante a Flip, em Paraty: Brasil pode perder a próxima grande revolução científica
Ele poderia estar enfurnado no laboratório, em meio a macacos, computadores e robôs, atrás da descoberta que poderia valer um inédito Nobel a um cientista brasileiro. Mas o paulistano Miguel Nicolelis acredita no poder transformador da ciência na sociedade.

O neurocientista, que pesquisa as interações entre cérebro e máquinas na Duke University, nos Estados Unidos, viaja o País para divulgar seu livro “Muito Além do Nosso Eu” (Companhia das Letras, R$39,50). Em 552 páginas, ele explica ao público leigo os avanços da neurociência, em especial seu campo de estudo, conhecido como interface cérebro-máquina. Ao mesmo tempo, trabalha com instituições de pesquisa do mundo todo em um ambicioso projeto de uma veste robótica que traria o movimento a tetraplégicos. Fanático por futebol, e Palmeirense roxo, o pesquisador planeja dar o primeiro passo (no caso, chute) de seu projeto no jogo inaugural da Copa do Mundo do Brasil, em 2014.

Nicolelis quer ainda que a ciência brasileira de ponta saia do eixo Rio-São Paulo. Além do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, (que conta com uma “filial” em Macaíba, no mesmo estado), ele fundou escolas de ciência para alunos da rede pública do País. São três escolas, em Natal, Macaíba e Serrinha, na Bahia.

Nicolelis recebeu o iG em Paraty, durante a Flip, quando conversou sobre seus projetos, ciência brasileira, política e, como fã de futebol, aproveitou para alfinetar a seleção brasileira. Leia abaixo:

iG: O que motivou o senhor a escrever o livro?
Miguel Nicolelis: Várias coisas. A primeira foi divulgar essa fronteira de pesquisa do cérebro que está chegando à prática clínica, e começando a se expandir para a vida real das pessoas. Achei que era o momento ideal para contar essa história, do que aconteceu na neurociência nos últimos 200 anos. As pessoas não estão habituadas a ler algo sobre o cérebro, apesar dele ser a coisa mais íntima da nossa vida. Elas acham que isso é algo muito distante, muito difícil, e eu tentei traduzir para uma linguagem que qualquer pessoa pudesse entender.

iG: O senhor mistura um pouco com a história da sua vida, da sua pesquisa.
Miguel Nicolelis : Por duas razões: primeiro, é importante humanizar o cientista, mostrar que ele é um ser humano comum. E a outra, a teoria que eu descrevo no livro sugere que não existe nenhuma objetividade em nada do que nós fazemos. Tudo é dependente da história de vida de cada um. Então, para entender a minha teoria, as pessoas precisam conhecer quem eu sou.

iG: O senhor tem alguma vontade de virar um escritor-cientista, como Oliver Sacks e Richard Dawkins?
Miguel Nicolelis: Eu quero ser cientista, primeiro. A maioria desse pessoal não faz ciência. Eu quero continuar fazendo ciência, mas gosto de escrever. Acho que dá para conciliar as duas coisas e fazer as duas coisas num nível profissional. Mas não quero só escrever. Acho que nunca vou deixar de fazer ciência.

iG: Como foi a recepção do livro no Brasil e nos Estados Unidos?
Miguel Nicolelis: Aqui no Brasil está sendo espetacular, estou muito satisfeito, vejo muitos jovens lendo. Esse tour que eu fiz pelo Brasil foi muito legal. Encontrei um monte de gente, dei palestras públicas em ambientes que não são naturalmente associados à ciência e vi a resposta das pessoas. Mesmo nos Estados Unidos está sendo muito boa, para um primeiro livro com um tópico tão complexo como é a interface cérebro-máquina.

Flavio Moraes/Fotoarena
Nicolelis: veste robótica para tetraplégicos poderia ser divulgada durante a Copa do Mundo de 2014
iG: O senhor poderia explicar como está o andamento das suas pesquisas nos Estados Unidos?
Miguel Nicolelis: No livro, eu conto toda a história do nosso centro. Somos quase 50 pesquisadores agora, só na parte de pesquisas básicas. Mas nas nossas duas vertentes principais de aplicações clínicas, de Parkinson e paralisia, estamos no momento de fazer a transição para a prática clínica. Espero que em Parkinson daqui a um ano a gente tenha uma decisão. Nós estamos fazendo os estudos em primatas lá em Natal, os primeiros resultados são muito bons. Mas a gente precisa acabar primeiro, ter certeza que tudo funcionou e aí começar a testar.

iG: O senhor tem falado muito em um projeto novo, chamado de Walk Again. Poderia explicar do que se trata?
Miguel Nicolelis: É um consórcio internacional, um projeto de dez anos, que está tentando construir uma veste robótica de corpo inteiro, para pacientes com graus severos de paralisia. O intuito é restabelecer sua mobilidade através da leitura dos sinais do córtex cerebral. Assim, esse paciente poderia controlar voluntariamente os movimentos da veste. Estamos construindo o primeiro protótipo para teste em primatas até o final do ano. Se esses testes forem bem sucedidos, poderemos migrar para testes em pacientes. Estou propondo ao governo brasileiro fazer uma demonstração desta tecnologia em estágio inicial no jogo de abertura da Copa. Minha ideia é uma criança paraplégica entrar com a Seleção Brasileira andando, controlando a veste e dando o chute inaugural da Copa do Mundo.

iG: Seria bonito.
Miguel Nicolelis: Seria um sonho, porque acho que seria a primeira partida da História do Brasil que ninguém lembraria do jogo. Se bem que com essa seleção, capaz de ninguém querer lembrar mesmo. Se for o nosso querido Mano [Menezes, atual técnico da Seleção] a coisa fica feia.

iG: Quais instituições compõem esse consórcio?
Miguel Nicolelis: Temos, num grupo inicial, Duke University, Instituto de Neurociências de Natal, Universidade Técnica de Munique, Universidade Politécnica Federal de Lausanne, e uma colaboração técnica com a Universidade Técnica de Berlim. Já temos uma série de propostas de outras instituições e, à medida que o projeto for se desenvolvendo, vamos precisar de expertise do mundo inteiro. E tem outra coisa interessante: queremos fazer desse projeto um projeto ligado, através de uma plataforma de crowdsourcing, a todas as escolas públicas do Brasil, para as crianças participarem com desafios científicos, com propostas, de modo que elas se sintam coparticipantes. Quero que esse seja um projeto catalisador do estudo de ciências no Brasil e que as crianças vejam o impacto da ciência na vida cotidiana através da sua participação.

iG: Em 2011 surgiram muitas pesquisas sobre a interface homem-máquina . O senhor considera esses avanços uma competição ao seu trabalho ou uma cooperação?
Miguel Nicolelis: Cientistas geralmente são colaboradores. O mundo da ciência, até pelo menos recentemente, era um mundo muito mais humanístico do que o mundo “aí fora”. Tem certos grupos que tentaram, no passado, pegar essas idéias e rapidamente transformá-las em ideias para fins lucrativos, principalmente nos Estados Unidos. Recentemente o NIH [Instituto Nacional de Saúde, na sigla em inglês, um órgão do governo americano] nos deu dois prêmios em dinheiro para pesquisas nessa área, tanto a pesquisa básica quanto a pesquisa clínica , algo inédito. Com isso, houve um interesse muito grande e muita gente passou a trabalhar nessa área. Mas eu tendo a ver, até prova em contrário, todas essas ações como extremamente benéficas.

iG: O senhor poderia descrever sua visão de futuro com os avanços da interface homem-máquina?
Miguel Nicolelis: O futuro mais próximo vai ser em medicina e reabilitação. Não há dúvida disso. Um sistema que desenvolvemos há 12 anos, de um marcapasso para epilepsia em ratos, está começando a ser usado em dois testes clínicos, um na Califórnia e outro na Brown University. Mas grandes empresas de computação como Apple e Google já estão trabalhando na possibilidade de criar interfaces como essa, não invasivas, para computadores portáteis, telefones. Então você vai controlar ou interagir com o sistema operacional usando só a atividade elétrica do cérebro. Vai ser o fim da tendinite.

As normas e práticas da ciência no País ainda são do século 19. Isso precisa mudar rápido, porque é um parto de ostra fazer ciência de alto nível no Brasil", diz Nicolelis

iG: E como está o trabalho da Comissão do Futuro do Ministério da Ciência e Tecnologia, que o senhor chefia?
Miguel Nicolelis:
Tivemos a primeira reunião em Brasília, em 5 de maio, criamos todos os subgrupos, e agora estamos começando a trabalhar na primeira fase, que é uma avaliação dos gargalos da ciência brasileira e dos grandes problemas que afligem a produção científica no Brasil. Mas tivemos que esperar toda a legislação ser aprovada. Esse é o grande drama aqui, tudo demora.

iG: O senhor se formou pela USP, mas boa parte da sua carreira foi nos Estados Unidos. Como o senhor avalia a evolução da produção científica nacional?
Miguel Nicolelis: Quantitativamente ela aumentou muito. Tanto que hoje nós publicamos mais papers do que a Suíça, mas a qualidade dessas publicações ainda está sendo avaliada. O índice de citação brasileiro ainda é insignificante comparado a outros países. O investimento em ciência aumentou muito, nossa infra-estrutura também, mas ainda temos deficiências tremendas nas normas e procedimentos que regem a prática da ciência no Brasil, que são do século 19. Isso é complicado para o cientista brasileiro operar, ele não é competitivo. Isso precisa mudar rápido, porque é realmente um parto de ostra fazer ciência de alto nível no Brasil.

iG: Em qual área o Brasil está mais avançado?
Miguel Nicolelis: Todas as que eu omitir o pessoal vai querer me matar... Mas eu gosto de dizer que o Brasil tem uma vertente tropical forte: pesquisa agropecuária, hídrica, energias alternativas. O número de pesquisadores de biomédica não é desprezível. Tem coisa muito boa sendo feita. Mas o Brasil tem um déficit de pesquisa em engenharia e tecnologia pura muito grande. Já perdemos várias revoluções, como a dos microprocessadores, e estamos a ponto de perder o bonde de outras revoluções, como a da nanotecnologia. A própria área em que trabalhamos, a neurotecnologia, está explodindo no mundo. A nossa esperança é que o Brasil não perca esse bonde também.

iG: O senhor pretende voltar a fazer ciência no Brasil?
Miguel Nicolelis: Eu já faço, em Natal. Não estou fazendo em tempo integral porque eu também tenho que ter um emprego, né? Aqui eu trabalho de graça. Mas sem dúvida, eu quero um dia voltar para cá. O meu grande sonho de vida nesse momento é voltar para cá, quando terminar certas coisas que comecei nos Estados Unidos. Mas quero atuar de outra maneira. Esse projeto de espalhar escolas de ciência e laboratórios de pesquisa pelo Brasil inteiro é o que eu quero fazer quando voltar.

iG: O senhor volta e meia no Twitter reclama um pouco das condições de infraestrutura da escola de Natal. O que está acontecendo?
Miguel Nicolelis: Não é da escola, eu reclamo do estado, da prefeitura de Natal, que é uma catástrofe. Os políticos do Rio Grande do Norte estão ainda na Idade Média. É difícil convencê-los que o século 21 está aqui. E quando você fala isso, os setores que apoiam esses políticos caem matando. É um jogo bem baixo.

iG:Mas isso influencia a escola?
Miguel Nicolelis: Nada. Não influencia nada. Porque eu já não conto com nada. Quando você parte do princípio que nada vai ser feito, é fácil suportar o drama de quando nada é feito.

iG: Como o senhor mede os resultados desse projeto?
Miguel Nicolelis: Essas crianças estão saindo do quase semi-analfabetismo aos 10, 12 anos, para hoje ler um livro, se expressar, entender conceitos básicos de ciência. O conceito ético, humanístico que elas adquiriram ali, elas não tinham de forma alguma e não iam ter na escola que frequentavam.

iG: O senhor planeja espalhar essas escolas pelo Brasil?
Miguel Nicolelis: Além das três que já temos, existe o projeto Escolas Sem Fronteira, 12 escolas em cidades das fronteiras do Brasil com a América do Sul. Ele está aparentemente aprovado pelo governo e nós temos na Bahia ainda a possibilidade de abrir mais duas escolas.

iG: E o instituto de neurociência, como está?
Miguel Nicolelis: Instalamos a base de pesquisa, que é a coisa mais difícil. Trouxemos cientistas, estamos recrutando mais, e fazendo o que todo centro de ciência faz, que é tentar produzir e publicar seus resultados e aumentar a massa crítica. Temos várias linhas de pesquisa e inclusive estamos abrindo agora a área de neuroeducação. A ideia é criar um diálogo entre neurocientistas e pedagogos, para otimizar as formas de transmissão de conhecimento para as crianças, baseado no conhecimento que a neurociência está adquirindo. 

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