Miguel Nicolelis: "o Brasil precisa criar uma ciência tropical"

Neurocientista diz que é preciso um investimento de 4% do PIB nacional por décadas para Brasil ser competitivo na área científica

Bruno Folli, iG São Paulo

Manoel Marques/Revista Brasileiros
Miguel Nicolelis: um candidato brasileiro ao Nobel
Os tratamentos personalizados são modismos norte-americanos, a indústria farmacêutica precisa rever suas estratégias de mercado e o Brasil deve criar uma "ciência tropical".

O neurocientista Miguel Nicolelis surpreende ao falar sobre algumas questões fundamentais da saúde e da ciência.

Considerado um dos principais pesquisadores do mundo, o paulistano residente nos Estados Unidos tem em seu currículo façanhas incríveis. Ele já fez um primata mover um braço robótico apenas com a “força do pensamento” e, em outro experimento, fez um macaco que estava nos Estados Unidos mover um robô em Kyoto, no Japão.

Esses foram os primeiros passos para desenvolver uma interface eficiente entre cérebro e máquina. O objetivo disso, entre outras coisas, é devolver os movimentos a pacientes paralisados. Além disso, o neurocientista desenvolve pesquisas contra diversas doenças neurológicas, como as doenças de Parkinson e Alzheimer.

Nos Estados Unidos, Nicolelis chefia um dos mais avançados laboratórios de neurociência do mundo, na Universidade de Duke, Carolina do Norte. E no Brasil, dirige o Instituto Internacional de Neurociência de Natal, no Rio Grande do Norte. Neste ano, o cientista conquistou dois prêmios dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) para financiar suas pesquisas. Foi uma façanha inédita para um cientista brasileiro, que lhe rendeu US$ 6,5 milhões . Em visita a São Paulo, onde participou do 21º Congresso Brasileiro de Medicina Física e Reabilitação, Nicolelis conversou com o iG . Veja os principais trechos da entrevista.

iG: O tratamento personalizado tem sido cada vez mais citado por médicos de diversas áreas. No combate ao câncer, por exemplo, os medicamentos estão ficando bem específicos. Esse vai ser o futuro da medicina?
Miguel Nicolelis: Isso é moda nos Estados Unidos e médicos de outros países a estão seguindo. Mas o júri ainda não voltou com o veredicto. É preciso fazer mais estudos para comprovar esta moda. Não existem provas de que o futuro da medicina vai ser assim, embora algumas áreas realmente precisem ter tratamentos mais personalizados. Fato é que 90% dos problemas médicos são resolvidos com investimentos em saúde pública. É importante saber disso. É preciso dar tratamento pré-natal adequado, fazer acompanhamento pediátrico na infância e ter políticas de saúde para prevenção das doenças mais frequentes na população.

iG: Nem com futuras conquistas a partir da medicina baseada na genética os tratamentos personalizados poderiam ganhar mais espaço?
Miguel Nicolelis: A tão falada revolução genômica, já prometida há dez anos, não aconteceu. Dizia-se que a cura de tudo seria obtida a partir do sequenciamento do genoma humano. Estou esperando até hoje. A verdade é que ninguém sabe como isso funciona ao certo e não tivemos nenhuma aplicação prática ainda. Mas existem picaretas nesta área que prometem inúmeras coisas que não existem, geram falsas expectativas e ganham muito dinheiro com isso. Precisamos investir em ciência, pesquisa e saúde para desenvolver um espírito crítico nacional e poder identificar qual pesquisa é realmente importante.

iG: O tempo de aprovação de medicamentos pelo FDA (órgão que controla o setor nos Estados Unidos) diminuiu bastante nos últimos 10 anos. Muitos médicos acham que os testes duram pouco tempo antes do remédio chegar às prateleiras. O senhor vê problemas nisso?
Miguel Nicolelis: Acho que o problema da indústria farmacêutica é querer crescer 8% ao ano. Isso é insustentável. Não há como descobrir, estudar, testar e aprovar novas moléculas tão rapidamente. Eles precisam de planos de negócios mais realistas.

iG: Assim como o Projeto Genoma Humano, há dez anos, as células-tronco hoje são uma aposta da medicina. Como saber qual pesquisa e qual pesquisador é confiável?
Miguel Nicolelis: Todo mundo acha que as células-tronco vão ser a solução para todas as doenças, do dia para a noite. Mas não é assim. O que já existe é muita promessa para poucas comprovações. Voluntários são induzidos a experimentos sem haver nenhuma certeza de que aquilo realmente vai funcionar. É preciso ter cuidado. Não sou contrário ao pesquisador que sonha. É importante sonhar. Mas não se deve ignorar o que realmente está acontecendo, o que já pode ser comprovado. Temos estudos interessantes com neurociência aqui mesmo no Brasil. O Stevens (Rehen, diretor de pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro) tem um trabalho bem interessante com neurociência.

iG: O que poderia melhorar na área de pesquisas no País? O grande problema ainda é a falta de investimentos?
Miguel Nicolelis: Financiamento é sempre importante, mas a grande questão agora está ligada à operacionalização do processo. Hoje, conseguir um financiamento de pesquisa é como pedir para construir uma hidroelétrica. É muita burocracia! Não se consegue contratar gente. A grande vantagem dos Estados Unidos são os financiamentos para o setor privado, que permitem a contratação de técnicos com mais rapidez e agilidade.

iG: Na prática, como poderíamos mudar este cenário? Qual seria o primeiro passo?
Miguel Nicolelis: É preciso um investimento de 4% do PIB nacional por algumas décadas para entrarmos no time dos intermediários no ranking mundial da ciência. E esse investimento precisa ser dividido igualmente, sendo 2% para o setor público e 2% para o privado. Precisamos soltar as amarras da burocracia para dar um salto explosivo nesta área. Por isso, acredito que o próximo ministro da ciência e tecnologia deva ser um gestor, em vez de um cientista. Alguém que tenha competência política para desamarrar o processo.

iG: O senhor anunciou recentemente que apóia a candidatura de Dilma Rousseff. Por que tomou esta decisão?
Miguel Nicolelis: Porque estamos vivendo o melhor momento da ciência no País. A reputação do Brasil nunca esteve tão alta no mundo. Tivemos a criação dos institutos nacionais (de ciência e tecnologia, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq), incentivo à pesquisa e acredito que isso precisa continuar, ser ampliado e mais promovido. Como cientista brasileiro, acho importante me manifestar pelo que acredito ser uma questão de soberania nacional. Precisamos investir e desenvolver uma ciência tropical nacional. Nosso futuro não deve ser como o passado recente.

iG: Como seria esta ciência tropical?
Miguel Nicolelis: Ela deve ser baseada em nossas riquezas humanas e naturais. Podemos promover fontes de energia renováveis, produtos fitoterápicos e medicamentos próprios. A ciência precisa estar direcionada às questões fundamentais da sociedade e temos condições de fazer isso. Mas ainda precisamos investir muito no mapeamento das riquezas nacionais para identificar o que pode ser feito nas áreas de medicamentos, fontes de alimentos e de energia renovável. Ainda não temos isso.

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