Mesmo muito nova para a escola, criança está pronta para ironia

Estudo constatou que crianças conseguem compreender, e até mesmo usar, o discurso irônico, mesmo sem saber descrever o que fizeram

The New York Times |

NQuando a mãe de um menino de 12 anos lhe pergunta “Quantas vezes tenho que dizer para você parar com isso?”, ele vai saber que sua resposta, se é que alguma é necessária, provavelmente não deve incluir um número.

Mas essa percepção requer uma sofisticada compreensão da linguagem irônica, desenvolvida bem depois da fluência na fala. Em que idade as crianças começam a sentir o significado de uma pergunta como essa, e em que grau elas conseguem responder apropriadamente a outros tipos de ironia?

Em pesquisas de laboratório sobre o assunto, as crianças não demonstram quase nenhuma compreensão do discurso irônico antes dos seis anos, e muito pouco até os 10 ou 11 anos. Quando questionadas, crianças mais novas geralmente interpretam perguntas retóricas como literais, o exagero deliberado como um engano e o sarcasmo como mentira.

Porém, houve poucas pesquisas sobre isso fora do laboratório. Assim, um grupo de pesquisadores canadenses resolveu gravar pais e filhos em casa, usando quatro tipos de linguagem irônica: sarcasmo, hipérbole, ironia e perguntas retóricas. Eles descobriram que crianças muito novas conseguem compreender, e até mesmo usar, o discurso irônico, mesmo sem saber descrever o que fizeram.

“Você realmente vê que elas respondem apropriadamente a essa linguagem numa conversação”, disse Holly E. Recchia, principal autora do relatório. “Isso não é o mesmo que dizer que elas podem explicar esse entendimento de maneira explícita”.

O estudo, publicado em “The British Journal of Developmental Psychology”, incluiu 39 famílias, cada uma com dois pais e duas crianças, cujas idades variavam entre 4 e 6 anos. As famílias foram recrutadas usando avisos de nascimentos de um jornal de Ontário, e representavam determinado grupo étnico, bem como idade e escolaridade dos pais.

Os cientistas transcreveram mais de 350 horas de fala e associaram todas as expressões não-literais a uma das quatro categorias, sempre identificando quem falava. Todas as crianças mais velhas fizeram ao menos uma declaração irônica, assim como 38 mães, 26 pais e 37 dos irmãos mais novos – um total de 1.661 comentários não-literais.

Embora o motivo seja incerto, em comparação com pais e crianças, as mães usaram a linguagem irônica mais vezes em interações negativas do que em positivas, e perguntas retóricas com frequência maior do que qualquer outro formato.

“Pode ser que as mães assumam papéis de professoras ou gerentes”, afirmou Recchia. “Se as mães são mais envolvidas no gerenciamento de conflitos, isso poderia significar que perguntas retóricas são mais eficazes do que o sarcasmo”.

Com todas as crianças, a hipérbole e as perguntas retóricas foram mais comuns. Quando elas estavam envolvidas num conflito, as perguntas retóricas e a ironia eram mais usadas, enquanto interações positivas geralmente envolviam o sarcasmo e a hipérbole. Diferente de seus irmãos mais novos, os mais velhos usavam o sarcasmo (“Muito obrigado, agora você destruiu minha coleção”) mais vezes que a ironia (“Eu estou apenas um pouquinho bravo com você agora”).

“Isso é parte de uma imagem maior”, disse Janet Wilde Astington, professora de psicologia da Universidade de Toronto com muitas publicações sobre o discurso infantil, mas que não participou deste estudo. “Acho que isso é importante na medida em que elas conseguem demonstrar entendimento por mais jovens que fossem, e acho que elas provam que isso entra em contraste com as expectativas de trabalhos experimentais”.

Comparadas a seus pais, as crianças eram muito mais inclinadas a usar a hipérbole, geralmente para enfatizar graves injustiças praticadas contra elas por seus irmãos ou pais: “Você nunca me dá uma mesada, mesmo quando me comporto bem”. As crianças mais velhas usaram mais a ironia do que seus irmãos mais novos, e embora os mais novos tenham mostrado menor probabilidade de entender o significado e a função dos comentários, as diferenças não foram grandes.

Recchia, que é professora-assistente de educação na Universidade Concordia, em Montreal, disse que mesmo as crianças tendo uma compreensão limitada da ironia, ela ainda poderia ser útil.

“Os pais tendem a ver a linguagem irônica de forma negativa, mas nem sempre ela é negativa ou maldosa”, explicou ela. “Algumas vezes ela é divertida. Eventualmente, pode ser que o humor e a ironia ajudem a neutralizar situações que de outra forma gerariam conflitos. E isso pode ser uma ferramenta bastante eficiente”.

Tradução: Pedro Kuyumjian

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