Zoo argentino causa polêmica ao permitir entrada em jaulas de tigres e leões

O Zoológico de Lujan diz domesticar grandes felinos, ursos pardos e elefantes, mas é acusado de dopar os animais

Gabriela Borges e Kelly Cristina Spinelli, especial para o iG |




“Deus criou o gato para que a humanidade tenha o prazer de acariciar um tigre.” A frase, atribuída ao veterinário francês Fernand Mery, resume bem a atração e o medo que grandes felinos como onças, leões e tigres exercem no imaginário humano. Mas na Argentina não é preciso se contentar com persas, siameses ou um vira-lata. No Zoo Lujan, que fica a 70 quilômetros de Buenos Aires, visitantes podem entrar em suas jaulas para fazer carinho, dar leite e tirar fotografias, como se nada mais fossem que grandes gatos domésticos. Também é possível alimentar e interagir com elefantes e ursos.

O zoo é um sucesso. Quem não gostaria de pegar um leão bebê no colo, tocar e dar leite a um tigre adulto ou ver bem de perto um urso pardo sem correr riscos? Em sites de vídeos como o Youtube para ver uma porção de visitantes animados – muitos deles brasileiros - em aparente pacífica convivência com diferentes animais silvestres. Em fotos de 2009 publicadas em alguns veículos da imprensa mundial, uma mulher aparece sentada no lombo de um leão.

O controvertido Zoo Lujan existe desde 1994. A coleção inicial tinha um macaco, dois burros, dois pôneis, algumas lhamas e cervos, um casal de leões e alguns pavões, que faziam parte da coleção pessoal do dono, Jorge Alberto Semino. Com o tempo, Semino foi agregando novos exemplares, muitos vindos de doações, permutas e compras de criadores de animais, em especial aves, como melros e papagaios. Hoje, em um terreno de 15 hectares, estão abrigadas jaulas e setores arborizados, onde os visitantes podem, inclusive, passar o dia e fazer churrasco, além de interagir com os animais.

O grupo de leões africanos é o mais importantes entre os felinos do zoo, com mais de 80 animais. Há também 20 tigres de Bengala e 12 onças. Há cerca de 50 macacos de diferentes espécies da América do Sul, bem como um casal de elefantes, Sharima e Arly, que chegaram a Lujan em 1999, comprados de criadores da Sumatra. Já o casal de ursos pardos Leonel e Florencia foram comprados do Zoológico de Batan, na cidade argentina de Mar del Plata, em 2008, ainda filhotes.

Em seu site, o Zoo de Lujan diz que a compra de animais, o que eles preferem chamar de resgate, acontecem para salvar os animais das condições lamentáveis em que muitas vezes eles vivem, principalmente em circos.

Apesar do discurso consciente, Lujan é um lugar polêmico. Sua política de permitir o contato dos visitantes com os animais faz qualquer um mais atento franzir a testa e se perguntar se é possível – para não dizer desejável – domesticar espécies predadoras como leões, tigres e ursos sem sedativos, e colocá-los em contato direto com o público de forma a que nem eles nem os visitantes corram riscos.

Leia:
Domesticados ou sedados?
“Eu não deixaria minha mãe entrar naquela jaula”, afirma especialista
Brecha na lei
Veja o vídeo
Um grande negócio
Leia o relato de uma visita ao Zoo Lujan


Domesticados ou sedados?
“Eu só tenho uma palavra para descrever o zoológico de Lujan: vergonha”, disse ao iG Carlos Fernandes Balboa, responsável pela parte de educação ambiental da Fundação Vida Silvestre, de Buenos Aires. Para Balboa, os animais representam um risco para os visitantes e cuidadores inexperientes. “Um tigre em ‘dia ruim’, como pode ter qualquer um, pode mudar a sorte dos visitantes”, diz. “Mas esse ‘dia ruim’ está minimizado pela evidente e surpreendente situação de todos os animais ferozes, que estão drogados, dopados ou com algum nível baixo de droga que os transforme em evidentes bichinhos de pelúcia.” Veja o que dizem especialistas em comportamento animal.

A direção do zoológico nega veemente o uso de remédios. Em uma carta respondendo a acusações sobre sedar os animais que foi postada na internet, o dono Jorge Semino diz que o zoo está aberto a quem queira comprovar seus métodos e que, em 18 anos de funcionamento, não se registrou nenhum acidente em Lujan.

No roteiro pelo zoológico, uma guia diz também que animais sedados costumam ser mais perigosos que os outros, porque se sentem tontos e acuados. Em entrevista ao iG , Santiago Semino, coordenador do zoológico, diz que os tratadores estão em contato com os animais desde que eles nascem e sabem ler suas reações e humores. “Isso evita acidentes”, afirma. “E se alguma coisa acontecer, a responsabilidade é nossa, como qualquer outro estabelecimento comercial”.

Em um vídeo institucional, o criador do lugar aparece brincando com leões e cuidando deles dentro de jaulas da sala de uma casa. Diz que os felinos do zoológico são todos nascidos em cativeiro e criados, desde pequenos, de forma a perder seu instinto predador e de competitividade. “Cuidamos deles desde o dia em que nascem, fazemos seus partos e somos parte de sua família desde que são bebês”, explica. Os felinos são criados junto com cães e tratados como tais – a ponto de, segundo o vídeo, serem levados para passear em grandes coleiras por seus tratadores. Dessa forma, se tornariam bichos mansos, quietos e aptos a manter contato com os humanos.

Veja o vídeo:


Caso não consiga ver o vídeo, clique para assistir na TV iG: Zoo na Argentina causa polêmica ao deixar visitantes entrarem na jaula dos leões

Brecha na lei
Mesmo assim, para os ambientalistas argentinos, o zoo de Lujan estaria fechado se não fossem por razões comerciais e políticas. Seria realmente difícil que um zoológico pequeno e afastado conseguisse competir com os maiores da região, como o Zoológico de Buenos Aires e o de Temaiken, a não ser pelo fato de deixar tocar nos bichos. Leia um relato de uma visita ao Zoo Lujan.

Eles acusam o zoo de não cumprir a lei estadual 2308 de 2001, do estado de Buenos Aires, que proíbe o contato de seres humanos com animais selvagens ou perigosos, responsabilizando os estabelecimentos pela segurança dos animais, do público e de seus funcionários. Em outro artigo, o decreto diz que em cada jaula deve haver placas informativas sobre os animais e que os zoológicos devem complementar a atividade educativa.

Mas o Zoo Lujan alega que os seus animais são nascidos em cativeiro, domesticados e mansos, e por isso não podem ser considerados selvagens ou perigosos. “Não somos um zoológico ilegal. O governo faz inspeções regularmente, temos que entregar balanços a cada quatro meses, os controles são bem estritos. Estamos totalmente em acordo com o Ministério do Meio Ambiente. O zoológico está aberto desde 1994 e nunca foi fechado. Seria impossível ser diferente”, explicou Santiago Semino ao iG .

“Um grande negócio”
Mas será que se pode comparar o zoológico de Lujan com os parques de vida selvagem da Austrália e da África, por exemplo, onde se tem contato com bichos que estão soltos em reproduções de seu habitat e não domesticados?

“O zoológico de Lujan cria uma imagem fictícia da natureza dos animais e não tem valor educativo. É apenas um grande negócio que viola os direitos dos animais", diz o Enrique Vidal, presidente da Associação Argentina de Advogados Ambientais. “Eu não sou contra a demonstração de bondade de um animal em cativeiro, já que isso também melhora seu manejo nestas condições. Mas qualquer um entrar numa jaula com um leão? Onde está a imagem de respeito em relação a uma espécie que naturalmente é nossa predadora? Qual a mensagem do passeio?”, pergunta Balboa, da Fundação Vida Silvestre.

A direção do lugar, por outro lado, diz que é muito caro manter um zoológico como esse e que eles não contam com nenhum tipo de investimento extra, e por isso não é possível ainda reproduzir o habitat natural dos animais.

“Não temos que justificar o que fazemos. Nós damos a possibilidade de seres humanos terem uma relação com os animais. Esse tipo de prática é muito nova, começou a ser estudada na década de 1950, e mostra que algumas espécies podem ter seu comportamento modificado. Esses animais são nascidos em cativeiro e não podem voltar para a natureza, já perderam seus instintos. Há duas possibilidades: que eles fiquem dentro das jaulas e os visitantes do lado de fora, ou que as pessoas entrem, façam fotos, vídeos e os conheçam de perto”, diz Santiago Semino.

Serviço:
Zoo Lujan
Aceso Oeste Km58 – Lujan
Buenos Aires / Argentina
Tel.(542323) 435-738
Entrada: $100 pesos para estrangeiros – notas de reais são aceitas.
www.zoolujan.com

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