Uma plataforma de petróleo no meio da floresta amazônica

Com 25 anos, a província petrolífera de Urucu mostra que é possível aliar extração de petróleo a preservação ambiental

Natasha Madov, enviada a Manaus* |

“Não tenho nenhuma dificuldade de explicar para a alta direção da Petrobras se tiver que fechar um poço produtor [de petróleo]. Mas eu não tenho como explicar um acidente ambiental aqui.” A frase de José Roberto Rodrigues, gerente de operações da Base de Operações Geólogo Pedro de Moura, seria natural em qualquer circunstância, mas ela ganha um significado especial quando se sabe a localização de seu trabalho: não se trata de nenhuma plataforma em alto mar, e sim na província de Urucu, no meio da floresta amazônica, na bacia do Rio Solimões, a 650 km de Manaus.

Este mês, a Petrobras faz 25 anos de atividades do campo que iniciou a extração de petróleo e gás natural em escala comercial na Região Norte. Atualmente, ele produz diariamente 11 milhões de metros cúbicos de gás e 54 mil barris de óleo e condensado, numa área de 350 km 2 . O transporte dessa produção acontece através de dutos que ligam o complexo ao terminal do Solimões, onde o material é embarcado para refinarias em Manaus.



Mas é na prática ambiental que Urucu se destaca. Segundo Rodrigues, que trabalha na base desde praticamente o início de suas operações, a chegada dos técnicos na Amazônia mostrou era necessário entender onde estavam e como minimizar o impacto de suas atividades no local.

Para isso, eles se consultaram com um grupo de especialistas de várias instituições ligadas à pesquisa e preservação ambiental na Amazônia, como Museu Nacional, Fundação Oswaldo Cruz, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e ONGs e universidades do estado.

Por conta dessas recomendações, por exemplo, não há estradas ligando Urucu a nenhuma cidade. Todo o transporte de pessoas e carga é feito por avião, helicóptero ou rio, para evitar a criação de núcleos urbanos – a região é monitorada para evitar assentamentos.

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A área a ser desmatada é estudada para ser recomposta após seu uso, com milhares de mudas de plantas nativas cultivadas no viveiro e no orquidário do complexo, com cerca de 140 espécies de plantas, no total. Já foram reflorestados cerca de 250 hectares.

Foi montada uma rede de parcerias com universidades da região Norte e agências de fomento, e há descoberta de duas novas espécies de pesrcevejos, duas aves e um peixe na bacia do rio Urucu. Mais de 150 possíveis novas espécies estão sendo estudadas e sendo catalogadas.

O lixo orgânico é tratado dentro da própria unidade e o reciclado vai para Manaus. O esgoto doméstico passa por uma estação de tratamento e a água proveniente dos poços, 60 vezes mais salgada que a do mar e portanto não pode ser jogada no rio, é reutilizada no processo de extração. A base é auto-suficiente em energia: uma pequena usina termelétrica usa o gás natural dali mesmo para gerar eletricidade para toda a operação.

Luiz Antônio de Oliveira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Amazônica e coordenador da rede CT Petro, projeto científico de conservação na Amazônia, afirma que o principal problema a ser controlado em Urucu é o desmatamento. Vale lembrar que a região tem quase 70 poços de petróleo comercializados. " Aqui o solo entra facilmente em erosão. A chuva é forte e a estrutura do solo é fraca, ele é facilmente lavado", disse. Oliveira, no entanto, afirma que dos cerca de 1.200 hectares desmatados em Urucu, falta recuperar apenas 100 hectares com projetos de reflorestamento. " O desmatamento em Urucu representa apenas 0,004% do desmatamento da Amazônia", disse.

Oliveira estuda microorganismos na região que podem contribuir para recuperar a área desmatada ou até quebrar petróleo oriundo de possíveis vazamentos. "Aqui é diferente do pré-sal, que ainda não tem tecnologia. Você vê o que aconteceu no Golfo do México. Aqui um vazamento seria controlado mais facilmente. Na floresta existem comunidades de microorganismos que quebram o petróleo", disse. Para Oliveira, é importante ressaltar que qualquer impacto ambiental que ocorresse em Urucu seria muito evidenciado por ser justamente na Amazônia.

Visitas das onças

Entre os animais típicos da região, estão macacos, araras, preguiças, antas e onças. “Nós somos os invasores aqui, e sabemos disso,” diz Rodrigues. O gerente conta que por causa dos grandes felinos, não é permitido caminhar pela base sozinho durante o dia, e à noite, isso é terminantemente proibido. A velocidade máxima pelas estradas é de 50 km/h para evitar atropelamentos de animais.

A ordem é evitar locais onde sabidamente eles estejam, nem que isso altere planos já traçados, como a construção de um depósito de material previsto para o local onde havia uma toca de onça. “Mandei mudar de lugar”, conta Rodrigues.

E como se cria uma consciência ambiental num lugar de tanta pressão por resultados quanto um campo de petróleo? Segundo Rodrigues, foi algo que surgiu com o início dos trabalhos e a convivência dos técnicos com a natureza. “Quando a gente chegou aqui, o que sabíamos fazer era prospectar petróleo. Mas vimos que também tinhamos que entender do meio ambiente”.

*A jornalista viajou a convite da Petrobras

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