Uma flor pode mudar uma vida, diz ambientalista

Em palestra em São Paulo,Thomas Lovejoy faz um balanço da conservação de espécies e diz que o Brasil pode ser líder na área

Natasha Madov, iG São Paulo |

Mais de 400 pessoas se reuniram neste sábado (22) de manhã no Palácio dos Bandeirantes para comemorar o Dia Mundial da Biodiversidade com um dos maiores especialistas mundiais do tema: o biólogo Thomas Lovejoy, presidente do Heinz Center for Science, Economics and Environment, dos EUA e consultor do Banco Mundial. Foi ele, em 1980, quem cunhou pela primeira vez o termo biodiversidade.

Durante duas horas, Lovejoy apresentou, a convite da Fapesp, a terceira edição do relatório Global Diversity Outlook (em português, Perspectiva da Biodiversidade Global), no qual avaliou as tendências globais para a conservação de espécies e as preparações para a Convenção de Biodiversidade que acontecerá em outubro em Nagoya, no Japão.

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Thomas Lovejoy em palestra em Washington: criação de painel para biodiversidade é uma das poucas boas novas
Lovejoy conversou com o iG após a apresentação. Leia abaixo:

iG: Qual sua avaliação do atual estado dos ecossistemas do mundo, no Dia Mundial da Biodiversidade?
Thomas Lovejoy: Temos boas notícias e más notícias. A má é que nenhuma nação cumpriu suas metas de redução da perda de biodiversidade, e quase todos os indicadores apontam para uma tendência negativa nesse sentido. Muitos deles são pontos de virada, ou seja, o limite de onde podemos ir sem causa mudanças irreversíveis ao meio ambiente. E as metas de aquecimento global propostas em Copenhague estão além do que os ecossistemas podem agüentar. Dois graus de aumento na temperatura é demais, ponto.

Bem, chega de más notícias. A boa é que tivemos alguns bons indicadores, como o aumento nas áreas de proteção ambiental, no qual o Brasil teve destaque, e a assistência internacional a questões de biodiversidade. Mas a grande boa notícia é o estudo que estamos fazendo mostrando o potencial econômico da conservação das espécies e a possível criação de um painel intergovernamental para biodiversidade aos moldes do que foi feito com aquecimento global e o IPCC.

iG: Porque os especialistas se concentram em algumas poucas espécies como bandeiras para falar da importância da biodiversidade?
Thomas Lovejoy: É como se contássemos uma história, faz o problema ficar mais tangível. Nós somos construídos para responder a animais e plantas específicos e os que são os mais bonitos ou maiores causam mais impressões. Mas até mesmo uma florzinha pode mudar a vida de alguém, eu mesmo já testemunhei isso.

iG: Qual o papel do Brasil neste cenário?
Thomas Lovejoy: Eu vejo potencial no Brasil como líder nesta área. A oferta do país de oferecer seu know-how científico para melhorar a capacitação nesta área, e a possibilidade até de hospedar o painel no estilo do IPCC que mencionei antes, são exemplos da liderança que ele pode ter.

iG: O senhor defende a taxação de biocombustíveis. Porquê?
Thomas Lovejoy: Se taxarmos apenas os combustíveis fósseis, vai haver um movimento grande de conversão de paisagens naturais em lavouras específicas para biocombustíveis, como cana de açúcar e milho. E em termos das emissões globais de carbono, isso é um problema, porque a destruição de ecossistemas também eleva os níveis de carbono. Um imposto em cima desta conversão de terra ajudaria a evitar o aumento de emissões.

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