Tubarão: predador em perigo

Em entrevista, bióloga Rachel Graham afirma que precisa superar preconceitos para tornar pesca de tubarões ilegal

The New York Times |

Julie Larsen Maher via The New York Time
Rachel Graham é utiliza a ciência como base para a preservação das espécies de arraias e tubarões
Entre os biólogos conservacionistas, Rachel Graham às vezes é chamada de Jane Goodall aquática: ela desenvolveu novas informações sobre a vida de seus sujeitos de pesquisa e, como a famosa primatologista, utilizou a ciência com sucesso para angariar apoiadores para sua preservação.

Mas os sujeitos de Graham não têm o mesmo charme quase humano dos chimpanzés de Goodall. Como diretora do Programa de Tubarões e Arraias do Golfo do México e do Caribe, pertencente à Sociedade de Conservação da Vida Selvagem, Graham precisa superar medos e preconceitos profundos em seus esforços para tornar ilegal a pesca de diversas espécies de tubarão, incluindo o tubarão-baleia, uma criatura brincalhona e amigável, que migra para o caribe ocidental todos os anos na primavera. Essa espécie de tubarão agora é protegida na costa do Belize e do México e, em maio, Graham recebeu o Gold Award de 2011 e cerca de 100.000 dólares do Fundo Whitley para a Natureza, da Inglaterra, por seu trabalho em favor da espécie.

Nós conversamos em Belize e, depois, pelo telefone. A seguir, uma versão condensada e editada das duas conversas.

P.: Você é cidadã de Belize. Você cresceu aqui?
Não, eu passei boa parte da minha infância na Tunísia, aquela pequeno barril de pólvora que provocou tantas mudanças no mundo durante a última primavera. Eu adoro ser de lá. Minha mãe é inglesa e meu pai, americano. Eles vagavam pelo mundo e se conheceram quando eram professores em Serra Leoa. Nós éramos uma família migratória.

Não importa onde vivêssemos, eu sempre trazia animais para casa _ lagartos, cobras, escorpiões. Talvez porque eu fosse uma molequinha de olhos azuis em lugares onde ninguém mais era assim, eu me identificava com espécies de animais marginalizados. Minha mãe conta a história de uma vez em que cheguei em casa reclamando depois da escola: "É tão chato aqui. Ninguém quer conversar sobre piranhas e tubarões!".

P.: O que lhe atrai nos tubarões?
Eles são belos e graciosos. E são migratórios, assim como era a minha família. Do ponto de vista ecológico, eles têm um papel importante, pois mantêm suas presas sob controle.

A outra coisa é que, uma vez que você os conheça, você vai notar que eles são muito inteligentes. Eles não sobreviveram por quase 400 milhões de anos sem que a evolução os tenha tornado incrivelmente inteligentes. Uma das espécies que eu estudo _ o tubarão-baleia _ tem os navegadores mais brilhantes. Eles viajam milhares de quilômetros sem uma bússola e chegam ao mesmo ponto determinado em Belize todos os anos, exatamente quando os peixes dos arrecifes estão na desova e há um maravilhoso bufê à sua disposição.

P.: Faça-nos um resumo do estado dos tubarões no mundo.
R.: Cerca de 17 por cento das 1.200 espécies de tubarões e arraias estão ameaçadas de extinção. Para as espécies que nadam em mar aberto, os números são ainda mais terríveis. A União Internacional para a Conservação da Natureza afirma que um terço delas está ameaçado. A maior parte do seu declínio parece ser devido à pesca excessiva para a sopa de barbatana de tubarão _ um alimento apreciado em muitas partes da Ásia. Eu vejo em primeira mão o que essas estatísticas significam, sempre que vou mergulhar. Há vinte anos, se você fosse a uma barreira de corais por aqui, teria uma boa chance de ver vários dos tubarões gigantes _ um tubarão-martelo ou um galha-preta. Hoje, se você tiver sorte, talvez veja um tubarão ou uma arraia.

P.: Foi difícil conseguir a proibição da pesca do tubarão-baleia aqui em Belize?
R.: Na verdade, foi moleza. As pessoas adoram os tubarões-baleia. Eles são enormes e bonitos, e têm incríveis manchas na pele. Os tubarões-baleia são muito amigáveis e se alimentam por filtragem, portanto, eles não têm aqueles dentões aterrorizantes. No geral, é muito mais difícil proteger outras espécies de tubarões e arraias, porque eles são parte importante da pesca.

Contudo, essa lei foi muito importante para a preservação dos tubarões como um todo. É legal poder dizer: "Ok, vocês fizeram isso. Agora vamos fazer a mesma coisa pelas outras espécies de tubarão".

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P.: O que você diria a um viajante que vai para a China e lhe oferecem sopa de barbatana de tubarão?
R.: Eu diria: "Pense muito bem antes de fazer isso. Por que você comeria uma espécie que está ameaçada de extinção e que faz muito mal para a sua saúde?". O nível de mercúrio nas barbatanas e nos tubarões é muito, muito alto.

Veja bem, isso já aconteceu comigo! Quando eu estava em Taiwan, em 2005, para a primeira conferência mundial de ecoturismo dos tubarões-baleia, me ofereceram uma sopa de tubarão-martelo. Nós fomos a um restaurante e aquelas pessoas adoráveis colocaram uma tigela na minha frente. Eu me servi apenas dos outros pratos e não comentei nada.

P.: O que você sente quando vê manchetes falando sobre ataques de tubarão a banhistas?
R.: É claro que isso me perturba. Esse tipo de cobertura é exagerada, e coloca em risco diversas espécies de tubarões e arraias. Por mais que você se sinta mal pelas vítimas desses ataques, as pessoas têm que entender que quando estão na natureza, elas correm o risco de se tornarem parte da cadeia alimentar. Essa é a realidade. O fato é que o número de incidentes desse tipo é baixo. O Arquivo Internacional de Ataques de Tubarão registrou seis mortes acidentais no ano passado.

P.: Então "Tubarão" é o filme de que você menos gosta?
R.: Na verdade, não é o filme de que menos gosto. Ele tem tantas falas legais que nós pesquisadores de tubarões utilizamos o tempo todo. Como "Vamos precisar de um barco maior!". Nós adoramos essa fala!

P.: Você passa muito tempo embaixo d'água marcando os tubarões com sensores de rádio. Você alguma vez tem medo de ser atacada?
R.: Eu estou sempre atenta ao humor dos tubarões. Se eles se movem de certas maneiras, eu vou embora. Se eles começam a me cercar, eu dou no pé! Mas eu tenho que dizer que, esse tipo de precaução não é exclusiva para os tubarões. Eu já saí da água quando vi golfinhos _ sim, os doces e adoráveis golfinhos _ se comportando de formas que achei preocupantes.

Em todo caso, as ameaças mais sérias com as quais me deparei vieram de pessoas. Existe uma obscura indústria da pesca do tubarão por aqui, comandada por equipes de nossos vizinhos da Guatemala, que trabalham a partir de ilhas isoladas. Os animais são mortos à noite e carregados para os navios e, em seguida, enviados para locais em terra firme na Guatemala, de onde sua carne e suas barbatanas são exportadas, provavelmente para o mercado asiático.

Em 2007, fiz um relatório para o governo do Belize. Eu fiz uma estimativa de quantos tubarões estavam sendo mortos e levados para fora do país. Logo em seguida, alguns pescadores da Guatemala com os quais trabalhava me alertaram que "provavelmente, esse não é um bom momento para você ir à Guatemala". Eu simplesmente não vou mais para lá. Eu sou mãe solteira e preciso levar esse tipo de coisa a sério.

P.: Conhecendo esses animais tão intimamente como você os conhece, você está sem esperança em relação ao que está acontecendo com eles?
R.: Na verdade, estou otimista. Ainda existem tubarões e, portanto, ainda há tempo para reverter o que fizemos para muitas das espécies. Lembre-se de quando as tartarugas eram vistas como caixas de joias e ingredientes para sopas. Hoje, se há qualquer menção sobre o abate de tartarugas, isso se torna uma grande notícia. Portanto, eu acho que temos uma grande chance de mudar o que as pessoas sentem a respeito dos tubarões e das arraias. Conforme as pessoas aprendem mais sobre esses animais, eles veem que seu abate é insustentável e moralmente incorreto.

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