Pesquisa identifica 819 espécies de peixes raros no Brasil

Autor do estudo alerta para a necessidade de conservar ecossistemas de água doce no país

Thiago André, especial para o iG |

A partir do delineamento de 540 pequenas áreas de mananciais em diferentes regiões do Brasil, pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da ONG Conservação Internacional concluíram o mais completo mapeamento de peixes raros de água doce do país. O estudo, publicado na revista PLoS ONE, identificou 819 espécies de peixes de distribuição restrita e classificados como “ameaçadas”.

“Uma das maiores contribuições do estudo é chamar a atenção para o fato de, além de aves, mamíferos, anfíbios, plantas e outros organismos terrestres, existe uma enorme riqueza de animais aquáticos, principalmente peixes, que também necessitam de proteção”, disse Naércio Menezes, pesquisador do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e um dos autores do artigo. Segundo ele, por conta da existência de uma enorme e complexa rede de bacias hidrográficas, o Brasil conta com a maior fauna de peixes de água doce do planeta. Veja algumas das espécies na galeria:



As espécies foram identificadas com base em dados taxonômicos e de distribuição geográfica de 2.587 espécies de peixes, presentes na literatura científica, coleções de museus especializados e em outras publicações da área.

Ameaça das hidrelétricas
O trabalho mostra que uma boa parte das espécies identificadas não estão em áreas protegidas e, portanto, estão ameaçadas pelo o desmatamento, poluição ambiental e a construção de hidrelétricas.
Das 540 bacias hidrográficas importantes para a conservação dos ecossistemas aquáticos, 40% estão em estado avançado de degradação devido ao impacto direto das usinas. “Muitos habitats desses peixes estão em locais onde há previsão de construção de barragens. No alto Xingu, por exemplo, algumas espécies descritas antes da construção de barragens já desapareceram porque eram restritas a pequenos riachos”, afirma Menezes.

O estudo aponta ainda que muitas outras espécies identificadas deverão desaparecer nos próximos anos, se não for feita nenhuma iniciativa de conservação. Do número total de bacias, 159 (29%) perderam mais de 70% de sua cobertura vegetal original e apenas 141 (26%) estão em áreas oficialmente protegidas ou terras indígenas.

O Paraná abriga o maior número das bacias críticas: 50. De acordo com o artigo, esses resultados corroboram a hipótese de que a biodiversidade de água doce no país tem sido negligenciada nas principais avaliações de conservação, especialmente quando comparado com vertebrados terrestres como pássaros e mamíferos.

O pesquisador do Museu Nacional da UFRJ e presidente da Sociedade Brasileira de Ictiologia, Paulo Buckup, lembra que os ictiólogos brasileiros (biólogos que estudam os peixes) têm se destacado na comunidade científica internacional. Segundo ele, apesar da enorme diversidade dos peixes brasileiros, “no Brasil os pesquisadores descrevem atualmente mais de uma espécie de peixe por semana.” “Neste contexto, é fundamental dispor de ferramentas que permitam avaliar rapidamente as espécies que necessitam de estudos adicionais para subsidiar as decisões na área de conservação das espécies”, explica.

O levantamento completo das 819 espécies de peixes está disponível em: http://peixesraros.conservation.org.br .

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