Relatório apresentado no Fórum Mundial da Água afirma que nenhuma região se livra da pressão sobre os recursos hídricos

Criança bebe água no Marrocos. Cerca de 800 milhões de pessoas no mundo ainda não tem acesso à água potável
AFP
Criança bebe água no Marrocos. Cerca de 800 milhões de pessoas no mundo ainda não tem acesso à água potável
O quarto relatório da Organização das Nações Unidas sobre o desenvolvimento dos recursos hídricos no mundo, que foi apresentado nesta segunda-feira (12) com a abertura em Marselha do Fórum Mundial da Água, constitui o documento mais exaustivo até o momento sobre o estado global deste recurso.

O texto, que recopila o trabalho de 28 membros e parceiros do organismo ONU-Água e é trienal, parte das pressões que serão exercidas pela mudança climática, pelo crescimento demográfico estimado em entre 2 e 3 bilhões de pessoas nos próximos 40 anos e o consequente aumento da demanda alimentícia e energética.

Adaptar-se aos efeitos de um aumento de dois graus na temperatura global, segundo estimativas do Banco Mundial em 2010, poderia custar entre US$ 70 e 100 bilhões, dos quais entre US$ 13,7 e 19,2 mil seriam destinados principalmente para a provisão de água e gestão de inundações.

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A necessidade de responder a um aumento de 60% da demanda energética nas próximas três décadas e investir em energia limpa para reduzir os efeitos da mudança climática fazem da energia hidráulica e dos biocombustíveis fatores essenciais nos planos de desenvolvimento.

A Agência Internacional de Energia (AIE), de acordo com os números recolhidos no estudo, calcula que pelo menos 5% do transporte mundial será alimentado por biocombustíveis em 2030 e que sua produção poderia consumir entre 20 e 100% da quantidade total de água utilizada no mundo pela agricultura.

Levando em conta que um litro de etanol produzido a partir de cana-de-açúcar precisa de 18,4 litros de água e 1,52 metros quadrados de terra, a quantidade de água necessária a essas plantações poderia ser "particularmente devastadora" em regiões como a África Ocidental, onde é escassa.

A agricultura capta atualmente 70% da água doce do planeta e para 2050 é previsto um aumento necessário de mais 70% da produção agrícola e 19% de seu consumo mundial de água, porcentagem que poderia ser maior dependendo de progressos tecnológicos e decisões políticas adequadas.

Os outros setores econômicos continuarão disputando o acesso aos recursos hídricos, e a partir das conclusões apresentadas nesta segunda-feira, se o atual modo de consumo não mudar, a necessidade de água destinada à produção energética crescerá 11,2% até 2050.

Dentro dessa mesma perspectiva temporal, o aumento da população em terras inundáveis, a mudança climática, o desmatamento e a alta do nível do mar ameaçam aumentar o número de pessoas expostas a inundações a 2 bilhões.

O custo econômico dessa situação é considerável: a ONU calculou em 2011 que 90% dos desastres naturais estão ligados à água e que o custo total das pelo menos 373 catástrofes naturais registradas em 2010 chegou a US$ 110 bilhões.

O relatório afirma que nenhuma região se livra da pressão sobre os recursos hídricos: 120 milhões de europeus não têm acesso à água potável. No sul da Europa, certas partes da Europa central e do leste europeu os cursos de água podem chegar a perder até 80% de seu volume no verão.

Na África, onde a taxa média anual de aumento da população ronda 2,6%, 1,4 pontos a mais que a média mundial, a demanda implícita de água acelera a degradação de seus recursos hídricos.

Uma parcela de 66% do continente africano é árido ou semi-árido e mais de 300 milhões dos 800 que habitam a África Subsaariana vivem em um entorno pobre em água, equivalente a menos de mil metros cúbicos por habitante por ano.

A Ásia e o Pacífico, por outro lado, abrigam 60% da população mundial mas não possuem mais que 36% dos recursos hídricos. Em 2008, segundo o texto, cerca de 480 milhões de pessoas não tinham acesso a uma fonte de água de qualidade e 1,9 bilhões não possuíam infraestrutura sanitária correta.

Na América Latina e no Caribe o crescimento demográfico e a alta da atividade industrial duplicaram a taxa de extração de água no século XX. Além disso, dados de 2010 mostram que o degelo das geleiras afeta a provisão de água de cerca de 30 milhões de pessoas.

Entre os árabes e a Ásia Ocidental pelo menos 12 países são atingidos por uma penúria completa de água, equivalente a menos de 500 metros cúbicos por pessoa por ano. Os conflitos cíclicos também pressionam as fontes e os serviços de água das regiões de amparada dos exilados.

O texto fornece além disso outros dados em nível global, como que 80% das águas residuais não são recolhidas nem tratadas e vão direto a outras massas de água ou se infiltram no subsolo, que é fonte de problemas de saúde para a população e de uma deterioração do meio ambiente.

Apesar dos poucos dados sobre as camadas freáticas, consideradas reservas naturais de água, a estimativa é de que sejam fundamentais para a subsistência e a segurança alimentar de entre 1,2 e 1,5 bilhões de famílias rurais nas regiões mais pobres da África e da Ásia.

Apesar das dificuldades de dispor de previsões concretas, o estudo encoraja principalmente a prevenção: a OMS estima que os benefícios econômicos globais apresentados com a redução pela metade do número de pessoas sem acesso sustentável a água potável e instalações sanitárias supera em oito vezes o custo dos investimentos.

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