O que aconteceu com o buraco de ozônio?

A descoberta do buraco de ozônio completa 25 anos com algumas lições para o aquecimento global

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O que seria dos anos 80 sem aqueles cabelões? Por sorte, ninguém precisou descobrir: substituções de químicos em sprays de cabelos e refrigerantes permitiram que produtos em aerossol existissem sem clorofluorocarbonetos (CFCs) que estavam causando um imenso “buraco” na camada de ozônio que protege a Terra.

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Imagem de satélite da Nasa mostra o estado atual da camada de ozônio na Antártida
Hoje, o buraco de ozônio, que foi descoberto há 25 anos, parece que vai ter um final feliz, graças um esforço internacional inédito até então. Um esforço semelhante pode acontecer pelo aquecimento global? E será que o fechamento do buraco de ozônio está piorando a situação?

A camada de ozônio (O 3 ) fica entre 15 e 30 quilômetros acima da superfície terrestre. Esta espécie de cobertor bloqueia a maior parte dos raios ultravioletas de alta freqüência, que podem causar câncer de pele e catarata em seres humanos, e problemas reprodutivos em peixes, crustáceos, rãs e até mesmo no fitoplâncton que é base da cadeia alimentar oceânica.

O ozônio é criado naturalmente quando uma molécula de oxigênio (O 2 ) na atmosfera é quebrada pela luz do sol e se tornam átomos livres de oxigênio. Um deles se liga a outra molécula de oxigênio, e assim se forma o ozônio. No entanto, ele é instável, e pode ser facilmente dissolvido por outras substâncias.

Inventados na década de 1920, os clorofluorcabonetos se mostraram um grande problema para o ozônio, porque eles persistem no ar por vários anos, e acabam subindo ao alto da atmosfera. No ar rarefeito, a luz ultravioleta quebra as ligações moleculares dos CFCs e os átomos de cloro livres destroem as moléculas de ozônio, ao “roubar” seu terceiro átomo de oxigênio.

Uma surpresa chocante
Os cientistas têm falado sobre as substâncias que poderiam acabar com o ozônio desde os anos 70. Mas em maio de 1985, pesquisadores do Serviço Antártico Britânico chocaram o mundo quando anunciaram a descoberta de um buraco imenso na camada de ozônio acima da Antártida. Tecnicamente um estreitamento da camada, o “buraco” se abria a cada primavera desde a década anterior, dizia o relato.

Os dados sugeriam que a culpa era dos CFCs, já que as condições atmosféricas dos escuros e frios invernos antárticos estavam criando verdadeiros estoques de CFCs em cima do Pólo Sul. O sol da primavera fazia o serviço de distribuir o cloro, diminuindo os níveis de ozônio em até 65%.

“Uma lição é que o planeta pode mudar muito rapidamente, e de maneira inesperada,” diz Jonathan Shanklin, um dos cientistas britânicos que descobriu o buraco e coautor de um artigo sobre o aniversário do buraco de ozônio publicado na revista científica Nature. “Ninguém esperava achar algo assim na Ántartida.”

Decisão unânime
A descoberta pertubadora foi o prólogo de um triunfo ambiental: o Protocolo de Montreal de 1987. O pacto que propunha diminuir o uso de CFCs e restaurar a camada de ozônio foi assinado por todos os países das Nações Unidas – o primeiro tratado da organização a conseguir ratificação universal.

A cooperação inédita teve um grande impacto. “Se deixássemos os CFCs aumentarem no nível da década de 70, a diminuição do ozônio teria coberto o planeta inteiro,” diz o físico atmosférico Paul Newman, do Goddard Space Flight Center, da Nasa. “O ozônio global chegou a diminuir um pouco [depois da proibição dos CFCs], mas a boa notícia é que se não tívessemos feito nada, teríamos uma situação muito ruim em mãos.”

Agora, uma recuperação completa parece iminente. Alguns cientistas projetam que, até 2080, a camada de ozônio voltará aos níveis de 1950.

E o aquecimento global?
Em um momento em que cientistas de todo o globo pedem ações urgentes para limitar as emissões de gases estufa, será que a experiência com o buraco de ozônio pode fornecer alguns paralelos úteis? Talvez, dizem os especialistas – mas as situações têm algumas diferenças significativas.

Na época, as pessoas viram claramente os perigos para a saúde da falta de ozônio, o que gerou um apoio público generalizado à proibição dos CFCs. “Havia um lado assustador do buraco de ozônio, ligado a câncer e cataratas, e isso engajou o público,” explicou Shanklin. “O impacto real do que pode acontecer em um mundo mais quente não está tão claro”.

A indústria química também conseguiu criar substitutos baratos para o CFCs, ajudando os governos a resolver o problema sem grandes impactos na economia ou no estilo de vida da população. O aquecimento global, em contraste, virou um assunto polêmico e com alta carga política. E várias soluções para o problema, como energias alternativas e redução de consumo, podem trazer grandes mudanças econômicas e geopolíticas, de um mundo que a substituição dos CFCs não causou, acredita o britânico.

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Paisagem na Antártida: a recuperação do ozônio pode aquecer ainda mais o continente
A camada recuperada está aquecendo a Antártida?
Enquanto isso, a vitória ambiental da recuperação da camada de ozônio pode ter um efeito colateral: aumentar o aquecimento global, pelo menos na Antártida.

O próprio ozônio é um gás estufa – uma camada mais fina não só diminui o calor atmosférico da região, mas ajudava na circulação dos ventos polares, que por sua vez criavam dispersão de partículas de água, formando nuvens que ajudavam a resfriar as temperaturas. “É muito difícil quantificar o impacto numa escala global, mas os indícios sugerem que a recuperação da camada vai ter um efeito local na Antártida, possivelmente aquecendo o centro do continente,” diz Shanklin. “Isso pode mudar drasticamente as previsões de mudanças dos níveis dos mares”.

Ken Carslaw, da Universidade de Leeds, é um dos coautores do estudo que sugere a ligação entre o ozônio e o aquecimento antártico. Ainda assim, ele vê todo o fenômeno de uma maneira positiva: “Não diria que a descoberta de um possível aquecimento antártico sugere que a formação do buraco na camada de ozônio foi algo bom para o planeta”.

Newman, da Nasa, concorda: “As conseqüências de um crescimento dos gases CFC seriam desastrosos para a vida na Terra,” diz. “Em algum momento, as pessoas tinham que agir, e que bom que elas agiram antes que isso se tornasse um problema sério. O buraco nunca chegou a ser uma catástrofe ambiental. É um testemunho da ciência que foi usada para entender o problema do ozônio e a iniciativa dos políticos em agir em cima dela”.

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