O futuro ambiental do vazamento da BP

Mais de cem dias após o início do derramamento de petróleo, cientistas avaliam o futuro do ecossistema do Golfo do México

Alessandro Greco, especial para o iG |

O pior vazamento de petróleo da história dos Estados Unidos já completou mais de 100 dias, com a situação finalmente controlada pela BP, pelo menos nas aparências. O óleo já não vaza mais desde 15 de julho e em mais alguns dias deve terminar a perfuração do poço auxiliar que irá desviar o fluxo de petróleo e encerrar o derrame em definitivo.

O mar do Golfo do México não será o mesmo após os mais de 350 a 700 milhões litros de petróleo que se misturaram às suas águas. As conseqüências ambientais do desastre ainda não são mensuráveis, embora os esforços para sua avaliação já começaram. Monitoramento de vida selvagem, avaliação do impacto de acidentes parecidos no passado e novas medidas de segurança vão todas fazer parte deste futuro pós-Deepwater Ocean.

Leia:
Baleias e pássaros: os efeitos no ar e no mar
Lições do passado
Veja na galeria as vítimas do vazamento
Mudanças na exploração
Especial: Vazamento do Golfo do México completa três meses sem respostas
Infográfico: Veja a evolução da mancha de óleo no Golfo do México
Leia a cobertura completa do iG

Baleias e pássaros: os efeitos no ar e no mar
A Universidade de Cornell e o National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) nos EUA estão colaborando em um projeto para descobrir os efeitos potenciais sobre as baleias da nuvem de óleo que se formou abaixo da superfície do mar no Golfo do México. Eles irão colocar no fundo do mar 22 gravadores submarinos que irão captar durante três meses os sons das baleias. Após esse período as unidades receberão um sinal para emergir com os dados que serão então analisados.

Os gravadores serão distribuídos por uma região que vai do Texas à Florida. O objetivo do trabalho é captar os sons do ecossistema e compará-los com de áreas aparentemente não afetadas onde serão colocados alguns dos sensores. A escolha da baleias é por elas “refletirem a saúde do ambiente em que vivem” segundo Christopher Clark, chefe do Programa de Pesquisa em Bioacústica de Cornell.
Um projeto semelhante, só pelo ar, está sendo feito pelo mesmo laboratório: o monitoramento de aves que passam pela região. O objetivo é saber se há alguma conseqüência, por exemplo, em sua reprodução. Os pesquisadores contam neste trabalho com a ajuda de voluntários que podem observar características de ninhos de pássaros e cadastrar as informações no site NestWatch.

A ideia é que os colaboradores visitem os ninhos duas vezes por semana durante alguns minutos e tomem dados como número de ovos, de filhotes e quantos deles deixam o ninho ao longo das semanas. “Muitos dos pássaros que fazem ninhos nos quintais de toda a América do Norte, como tordos-sargentos [também conhecidos como pássaros-pretos-de-asa-vermelha] e andorinhas, passam parte do ano no Golfo do México onde podem ter sido afetados pelo vazamento”, explica Laura Burkholder que também trabalha no laboratório.

O racional por trás de buscar monitorar o maior numero de ninhos possível agora é ver como está a saúde deles antes dos pássaros encontrarem o vazamento. Com o passar dos anos será então possível verificar os possíveis efeitos de longo prazo sobre eles.

Relembre na galeria os efeitos do vazamento sobre os animais do Golfo:




Lições do passado
O caso histórico mais semelhante ao do vazamento da BP ocorreu em 1979-1980 no vazamento do poço Ixtoc, da empresa Pemex, que durou 10 meses e derramou cerca de 350 milhões de litros de óleo no Golfo do México. O derramamento não foi em água tão profundas, mas a partir dele pode-se deduzir alguns efeitos de curto, médio e longo prazo do vazamento.

No curto prazo, segundo disse ao iG o diretor associado do Instituto de Pesquisa Harte para Estudos do Golfo do México Wes Tunnell, o vazamento do Ixtoc criou um caos ambiental. “Ele impactou as praias do sul da Texas reduzindo a população animal em 80% na zona de formação de ondas e 50% na zona de arrebentação”, conta.

Mas no médio, como afirma Tunnell, os efeitos podem não ser tão devastadores à primeira vista como se imagina. “Após dois anos e meio, três anos, a praia estava biologicamente recuperada. Algo semelhante ocorreu com a pesca de camarão em Campeche [cidade mexicana] no sul do Golfo. Dois anos após o vazamento da Ixtoc, a pesca voltou a ser o que era um ano antes dele”, relembra Tunnell.

Mas o diabo mora nos detalhes. O que parece estar absolutamente normal muda de figura quando se examina locais específicos mais de perto, como explica Tunnell. “Há pouca evidência hoje do derramamento do Ixtoc, mas há alguns locais que ainda possuem pequenos resíduos, como a lagoa de coral em Veracruz [cidade do México], o mangue e praias de pedra ao sul de Campeche”.
O motivo da boa recuperação do Golfo do México mesmo em um desastre tão grande como o do Ixtoc está ligado à uma característica da região, a existência de bactérias que literalmente comem petróleo. Obviamente elas não estão ali por acaso. Ele fazem parte de um ecossistema que tem pequenos vazamentos naturais de óleo devido a fissuras no fundo do mar . Ou seja: é provável que o Golfo se recupere novamente. “O Golfo é um grande e resiliente corpo d’água”, afirma Tunnell.

O que não sabemos é quanto tempo irá demorar para isso acontecer e quais serão as conseqüências de um vazamento em águas tão profundas, com a profundidade de 1500 metros. “Os impactos e efeitos do vazamento da BP serão semelhantes aos que vimos no caso do Ixtoc. Os pântanos do Delta do Mississipi serão os mais impactados e que demorarão mais a se recuperar. Agora, o impacto dessas nuvens de petróleo no fundo do mar e desses dispersantes é difícil de dizer; eles nunca foram vistos ou estudados antes”, diz Tunnell.

Mudanças na exploração
O que já é possível ter certeza é que a exploração de petróleo no mar nunca mais será a mesma do ponto de vista ambiental. “O acidente do Golfo é um marco no mercado do petróleo no que se refere a política ambiental”, afirmou ao iG Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE).

Atualmente a exploração no mar é responsável por apenas 20% do petróleo produzido, mas o ritmo de produção dentro d’água cresce a taxas maiores do que a produção em terra. “Antes do acidente a maior parte dos especialistas achavam que explorar petróleo no mar tinha baixo risco ambiental. Com o aumento da produção no mar e com a exploração sendo feita cada vez mais em maiores profundidades e mais distantes da costa, há necessidade de uma legislação mais rígida para que se evitem acidentes iguais ou maiores do que ocorreu no Golfo”, complementa.

Ou seja: o custo vai subir e não será apenas por questões ambientais. O custo global de perfuração também vai para o alto. “Os seguros serão maiores, as licenças ambientais exigiram normas de segurança maiores, as novas tecnologias serão mais caras e as políticas fiscais poderão gravar mais a exploração de petróleo no mar, com objetivo de se criar fundos que seriam utilizados no caso de acidente”, afirma Pires.

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