Morte de álamos preocupa EUA

Embora declínio da população de árvores tenha se estabilizado, álamos ainda continuam morrendo

The New York Times |

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Mudança na floresta: declínio dos álamos foi desencadeado por onda de seca e calor no início da década
Os álamos alpinos, com sua delicada e vibrante folhagem e o brilho ameno que lançam sobre as Montanhas Rochosas nesta época do ano, possuem um atrativo emocional que não é compartilhado por suas primas sempre-verdes, espinhosas e impassíveis.

Assim, amantes das árvores e cientistas sentiram o impacto quando os álamos alpinos começaram a morrer por volta de 2004 – murchando numa ampla faixa do sudoeste do Colorado até as montanhas de Utah, Arizona, Novo México e Wyoming.

“Existe definitivamente algo de poderoso nessas árvores”, disse James Worrall, um patologista florestal do Serviço Florestal dos EUA, contemplando o brilhante amarelo dos álamos saudáveis nas montanhas daqui, a aproximadamente quatro horas a sudeste de Denver.

“Em parte, acho eu, isso é uma impressão emocional”, disse. “E em parte uma impressão bastante real, de que esse álamo é muito importante em nossas florestas – hidrológica e biologicamente, para a vida selvagem, de todas as maneiras que você imaginar”.

A boa notícia é que o fenômeno conhecido como declínio súbito dos álamos, ou SAD (da sigla em inglês), parece ter se estabilizado, segundo Worrall e outros pesquisadores. Árvores individuais ainda estão morrendo, já que o processo pode levar anos para se manifestar, mas muitos grupos de árvores estão mantendo seu terreno contra novas investidas.

Uma repentina onda de seca e calor no início da década desencadeou o declínio, segundo um artigo de Worrall publicado neste ano na revista “Forest Ecology and Management”. As estações mais úmidas e frias desde então – mais do gosto dos álamos alpinos – interromperam a disseminação do SAD. Outras evidências apontam o clima como a causa. Embora o álamo seja a espécie de árvores mais amplamente distribuída na América do Norte, a derrocada atingiu principalmente o sudoeste, onde a seca que começou em 2002 foi mais rigorosa. Locais menos elevados foram mais afetados do que os mais altos, que geralmente são mais frios e úmidos.

“A seca foi realmente um enorme estressor para as árvores, e isso as tornou mais suscetíveis a outros problemas – saber que era isso que estava acontecendo trouxe um grande alívio para os cientistas”, afirmou Dan Binkley, professor de ecologia florestal da Universidade Estadual do Colorado, que não participou do artigo de Worrall.

A nova pesquisa também traz algumas más notícias. Ficou claro o profundo grau de vulnerabilidade dos álamos alpinos a eventos ambientais fora de seu nicho. Condizente com sua imagem delicada, eles não gostam de mudanças bruscas no clima.

A seca de 2002 foi mais do que isso. O inverno foi seco, com a neve em cerca de metade da média em grande parte das terras de álamos aqui no Colorado. Em seguida, um calor precoce derreteu o pouco que havia de neve, e junho chegou com temperaturas aproximadamente seis graus acima da média – o que fritou as árvores já enfraquecidas.

Projeções climáticas de longo prazo, segundo Worrall e outros cientistas, indicam mais curvas pela frente – flutuações mais amplas e rigorosas entre quente, seco, úmido e frio.

Gerald Rehfeldt e outros da Estação de Pesquisa das Montanhas Rochosas, em Moscow, no Idaho, usando três modelos climáticos e projeções por dióxido de carbono, concluíram que o clima estável dos álamos poderia se perder em ao menos dois terços do habitat das árvores, apenas no Colorado e no Wyoming, até 2060.

“São os extremos de variação que atingem os álamos – e não a média”, afirmou Worrall.

Obviamente, o álamo não é a única árvore afetada por alterações no tempo e no clima – mas espécies diferentes reagem de diferentes maneiras. Milhões de pinheiros da espécie Pinus contorta também morreram no oeste nos últimos anos, atacados por besouros que são predadores naturais e agentes de controle para as árvores. Mas os besouros saíram do controle, segundo muitos ecólogos, pois os invernos gelados que mantinham suas populações na média não vinham ocorrendo da forma como deveriam. Em outras palavras, esses pinheiros sempre foram mortos por besouros; os padrões climáticos apenas deixaram o relacionamento fora de sintonia.

Por outro lado, uma devastação de álamos com a magnitude e o ritmo vistos nos últimos anos nunca havia sido registrada, disseram Worrall e outros. As árvores enfraquecidas se tornaram vulneráveis a um fungo e um besouro que, no passado, se alimentavam somente de álamos mortos ou moribundos – e não representavam uma ameaça real.

Como os álamos possuem uma vida relativamente curta pelos padrões das árvores – 100 anos é bastante, 300 é o carvalho-matusalém –, é difícil conduzir estudos de anéis dos troncos, que poderiam mostrar como as espécies se saíram em algumas das secas mais devastadoras dos últimos mil anos.
Porém, a constante preocupação do oeste com a água torna a pesquisa sobre essa questão – a reação dos álamos à seca – mais crucial do que nunca.

O Colorado tem mais álamos do que qualquer outro estado no oeste dos EUA, e é também a fonte de grandes sistemas fluviais que abastecem milhões de pessoas, incluindo o Rio Grande, o rio Colorado e o rio Arkansas. A água gerada nas altas montanhas do Colorado atravessam 17 estados e o México.

As populações de álamos, agindo como esponjas ou reservatórios subterrâneos, mantêm muitas dessas nascentes no lugar, crescendo onde o clima é mais úmido e frio, e acrescentando muito à capacidade de armazenamento de água das montanhas.

Os álamos são também centros de biodiversidade numa floresta. Muitos insetos e plantas evoluíram em conjunto com as árvores, que fornecem abrigo a alces e outros animais durante o clima mais severo do inverno.

No entanto, há esperança para a espécie – e talvez um indicador de que ela já lidou com contratempos e se recuperou – nas peculiares propriedades e na força de seu sistema reprodutor.

O álamo alpino, diferente das árvores sempre-verdes, geralmente não cresce de sementes, mas pela reprodução vegetal, emergindo pedaços de uma árvore-mãe (as sementes de álamo – pequenas e pobres em nutrientes – só podem se estabelecer sob condições incomuns). Para uma árvore que depende unicamente da reprodução por sementes, a recuperação de um evento como o SAD seria uma estrada muito mais lenta.

Talvez na curva mais estranha de todas, os álamos estão, em alguns locais, colonizando áreas das Rochosas onde eles não existiam nos últimos anos – preenchendo espaços, com seu eficiente sistema de reprodução, onde antes só cresciam os pinheiros, mortos por ataques de besouros.

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