Micróbios ajudam na degradação do petróleo no Golfo

Eles se alimentam do óleo vazado e ajudam a natureza na limpeza do mar

National Geographic |

Dirigindo rumo a cidade de Port Sulpur, no sul de Louisiana, o pescador de 68 anos David Ojeda podia sentir o forte cheiro de petróleo. Ventos turbulentos que vinham do Golfo do México sopravam o odor.

"Todos estão preocupados. Ninguém sabe o que vai acontecer", diz o Ojeda no porto de Port Sulpur, que estava lotado de pescadores ociosos por conta do vazamento.


Por mais desagradável que isso possa ser para aqueles que estão em terra, o cheiro pode ser um sinal da mãe natureza fazendo o seu próprio trabalho sujo. É o odor pungente da evaporação do óleo que está na superfície do mar, que vai para a atmosfera e depois é quebrado pela luz solar.

AP
O petróleo é rico em energia, o que atrai bastante os micróbios em busca de alimento
A equipe responsável, liderada pela contra-almirante da Guarda Costeira dos Estados Unidos Mary Landry, atacou a mancha com um arsenal de dispersantes químicos, barreiras de proteção e cúpulas de contenção no fundo do mar, entre outras técnicas.

Ao mesmo tempo, o meio ambiente tem feito a sua parte na limpeza do oceano, que, segundo especialistas, não deve ser ignorada.

"Assim com a contra-almirante Landry discute sua caixa de ferramentas, a natureza tem sua própria caixa de ferramentas para responder aos derrames de petróleo, quee se trate de evaporação, quebra fotoquímica ou diluição", diz o químico marinho do WHOI (Woods Hole Oceanographic Institution), em Massachusetts, Christopher Reddy. "Coletivamente eles podem ser bastante eficazes.

No entanto, especialistas advertem que as contribuições da natureza para o esforço de recuperação pode ser dificultado a longo prazo por abusos ambientais.

"A capacidade de superação da natureza é uma questão fundamental", diz a bióloga marinha da National Geographic Sylvia Earle.

A Guarda Costeira dos EUA, obviamente, tem alguma capacidade de recuperar desastres ecológicos, "ou então não teria sobrado nada no Golfo depois de muitas agressões, como derramamentos, sobrepesca e fluxo de toxinas" devido a atividade humana em países dessa região, explica a bióloga.

"Enquanto você tem um sistema razoavelmente saudável, algum tipo de recuperação pode ocorrer. O triste é que grande parte do Golfo já está severamente degradada e resiliência não é o que costumava ser. Vamos esperar que nós possamos sair com outras pressões para permitir que a recuperação ocorra".

Derramamento de óleo do Golfo é 'manteiga' para micróbios
A evaporação, em particular, é "nossa amiga nesse momento", explica Reddy, uma vez que os benefícios são imediatos e importantes.

Isso porque as moléculas de óleo leve - o primeiro a alcançar a boca do poço - também são as mais prejudiciais para os animais, afirma Reddy.

Muitas dessas moléculas são substâncias voláteis conhecidas como hidrocarbonetos aromáticos, e se eles não evaporarem, se dissolvem na água e contaminam a vida marinha.

O óleo mais pesado que continua na água é quebrado em gotas, dispersado naturalmente com a ação dos ventos e das ondas, permitindo que legiões de micróbios avancem para uma festa.

Rico em energia, o óleo é praticamente uma manteiga a estes organismos, afirma Reddy. "Qualquer bactéria que se preze vai querer comê-lo".

Mas os micróbios mastigadores de petróleo são exigentes: eles vão primeiro nas moléculas de óleo mais simples, pois elas são mais fáceis de roer do que as complexas, moléculas irregulares.

Em outras palavras, afirma Reddy, as bactérias começam com as "as grandes recheadas de camarão, costelas de primeira e sushi fresco, para depois irem para os compostos menos apetitosos, o que arrasta a degradação do óleo por semanas ou meses.

Óleo na cesta de pães
Ainda assim, há um lado bom quando se trata da ação microbiana no Golfo, disse o diretor de conservação do Ocean Conservancy Stan Senner.

A região de clima quente e ensolarado significa que mais micróbios podem ficar por mais tempo, em comparação com o frio e as condições de escuro no Alasca, onde ocorreu o acidente do Exxon Valdez em 1989.

Mas esses tipos de micróbios só trabalham quando eles podem respirar, afirma Senner. Uma vez que o petróleo se torna pobre de oxigênio, "a ação microbiana pode ser muito lenta ou inexistente".

Quando o petróleo fica aprisionado no subsolo, pode permanecer por décadas, de acordo com Gregory Stone, diretor da Universidade do Estado da Louisiana.

Por exemplo, no Mississippi, onde aconteceram pequenos derrames de petróleo no passado, os pesquisadores descobriram óleo a cerca de 6 metros de profundidade, disse Stone.

Se o óleo penetrar nos pântanos não há nada que a natureza ou o ser humano possa fazer para detê-lo, de acordo com especialistas, isso pode apresentar um pesadelo tóxico para pequenos animais que vivem nos sedimentos e para as criaturas maiores que se alimentam deles.

"Eu não tenho espaço para mais nenhuma"
Se o óleo chegar aos pântanos do Golfo seria como perder um berçário inteiro de bebês em um grande hospital, disse o ex-pescador Barton Longman.

Cerca de 40% dos frutos do mar dos Estados Unidos começam sua jornada nesses pântanos nutritivos, disse Longman.

Depois de resistir a um incêndio e a três grandes perfurações em quase meio século aqui, Longman disse que vai deixar o lugar se o derramamento de petróleo do Golfo se provar catastrófico. "Eu estou cheio...Eu não tenho espaço para mais nada".

Mas shrimper Ojeda, que tem dois barcos no porto, tem planos para ficar enquanto houver o camarão para ser encontrado.

"Eu amo camarão", disse ele, apontando para suas veias. "Está no meu sangue", acrescentou.

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