Mais acusações de corrupção japonesa em reunião sobre baleias

Japão paga propina a países africanos e do Pacífico para votar a favor de seus interesses na Comissão Baleeira Internacional

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Ministro japonês Yasue Funayama passa por manifestante na entrada da reunião anual da CBI em Agadir, no Marrocos
Acusações que o Japão usa ajuda humanitária e favores pessoais para comprar votos têm circulado quietamente durante anos na Comissão Baleeira Internacional (CBI), entidade internacional que supervisiona a conservação das baleias, tradicionalmente objeto de caça dos japoneses.

Agora, as acusações estão às claras na reunião anual da instituição, depois que um jornal londrino filmou secretamente oficiais de seis países pobres enquanto negociavam por propinas. O jornal Sunday Times gravou os representantes conversando com repórteres que se diziam enviados de um bilionário suíço, com a missão de comprar votos contra a caça de baleias na reunião que acontece essa semana no Marrocos.

Os oficiais indicaram que qualquer oferta do suíço fictício teria que ser superior ao que o Japão já lhes dá. O enviado da Tanzânia, por exemplo, afirmou ter aceitado viagens ao Japão, onde “massagens” gratuitas lhe foram oferecidas – às quais ele teria se recusado.

Para os inimigos do Japão, esse fato é prova inegável da influência japonesa na comissão de 88 nações, que na reunião mais importante em décadas está considerando uma proposta de suspensão de dez anos na proibição de caça comercial de baleias.

“A compra de votos é o pequeno segredo sujo do Japão na CBI,” disse o ambientalista Patrick Ramage, que freqüenta as reuniões há 15 anos. Ele a classificou como “uma tomada lenta e hostil de um fórum internacional”. E enquanto países mais poderosos tentam usar de sua influência, o “esforço japonês é sem paralelo,” afirmou.

O Japão nega qualquer delito, e os representantes japoneses afirmam que a alegação de compra de votos tem o objetivo de desvalorizar a posição do país na CBI. “Faz parte da nossa política apoiar países em desenvolvimento, “ afirmou Hideki Moronuki, do ministério de Agricultura, Floresta e Pesca. “Você acha que esse tipo de apoio financeiro ao desenvolvimento é algum tipo de propina? Eu acho que não.”

O país insiste que sua caça tem a finalidade de pesquisa científica, para entender melhor a biologia e organização social das baleias. Mas a maior parte dos animais caçados acaba em mesas de jantar e não em bancadas de laboratórios, e os japoneses dizem que a caça é uma questão de orgulho nacional.

O Sunday Times também afirmou que o chefe da conferência em Marrocos, Anthony Liverpool, teve sua conta de hotel paga com um cartão de crédito pertencente a uma empresa japonesa de Houston, Texas. Liverpool é um diplomata de Antígua e Barbuda e seu embaixador no Japão. Quando questionado pelo jornal sobre ter aceitado o dinheiro japonês, Liverpool teria dito: “Sim, mas não há nada de estranho nisso.”

A CBI foi criada após a II Guerra Mundial para conservar e manejar a população mundial de baleias. Dezenas de milhares de animais foram caçados todos os anos até que a BCI adotou a proibição, e agora cerca de 1500 animais são mortos todos os anos pelo Japão, Noruega e Islândia.

O tráfico de influência vem de décadas atrás. Birgit Sloth, uma antiga enviada do governo da Dinamarca, lembra-se de ver o negociador chefe de uma nação caribenha pagar com um cheque em iens japoneses as taxas da associação em uma reunião da CBI na Inglaterra, no início dos anos 80. “Naquela época ninguém prestava muita atenção. Hoje, tudo é muito mais camulado,” afirmou.

Leslie Busby, na época junto à ONG italiana Third Millenium Foundation, compilou um relatório de 95 páginas em 2007 sobre a “operação de consolidação de votos” japonesa. Ela afirmou que 28 países tinham sido recrutados para a CBI por conta do auxílio japonês – incluindo países sem saída para o mar como Mali – dando à agência regulatória uma proporção de meio a meio entre nações a favor e contra a caça de baleias.

Segundo Busby, os países que recebem verba japonesa sempre votam de acordo com seus interesses. “Isso torna a discussão sem sentido. Não vale a pena debater a questões nas reuniões porque as posições já estão determinadas,” ela disse em uma entrevista.

Toma lá, dá cá
Alguns dos apoiadores dos países baleeiros têm tradições na caça e pesca. Mas o Japão também tem o apoio regular de países que nunca tiveram interesse na pesca de baleias, como as nações africanas. “O Japão está ajudando bastante a África Ocidental. Em troca, ele pede a esses países que votem a seu favor nas reuniões da CBI,” diz Mamadou Diallo, um ex-pesquisador do governo senegalês que hoje trabalha para o WWF. “É um ‘toma lá, dá cá’. Sim, pode-se dizer que é propina, porque os países africanos não seriam normalmente a favor de caça de baleias.”

Para países pobres, um voto na CBI pode não ser um preço tão grande a pagar. Tiare Turang Holm, enviada do Palau, no Pacifico Sul, diz que a caça é um tema periférico para seu país. Então, o voto acaba sendo mais “um apoio a nossos amigos, nossos parceiros de desenvolvimento.”

E o Japão não é o único a fazer pressão. “Mas é o mais descarado, e exige votos em troca de seu apoio financeiro,” diz Sue Miller Taei, de Samoa. “Eu já vi o Japão intimidar diretamente países do Pacífico Sul,” disse lembrando de uma ocasião em que um delegado japonês levou enviados do Pacífico relutantes para votar numa reunião da CBI. “Por muito tempo aqueles diplomatas não conseguiam me encarar nos olhos.”

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