Leopardos-das-neves: reino ameaçado

Especialistas contam com tecnologia para compreender a rara espécie de felino, com a ajuda de GPS e câmeras sensíveis a movimentos

National Geographic |

The New York Times
Leopardo-das-neves: felino com características próprias
Thomas McCarthy, diretor do programa dos leopardos-das-neves do grupo de conservação Panthera, passou quase duas décadas atravessando o absurdamente acidentado planalto himalaio para estudar um felino magnífico, densamente peludo e malhado que pode ser a aparição mais rara do mundo.

“Estou aqui no país do leopardo-das-neves durante metade de todos os anos”, disse McCarthy em uma obstinada conexão telefônica do Tadjiquistão, “e posso facilmente contar em uma mão as vezes que consegui ver um leopardo-das-neves”.

George Schaller, renomado biólogo e ambientalista e vice-presidente da Panthera, possui uma vasta experiência e reputação e é normalmente assertivo. “Coloquei coleiras de rádio em um par de leopardos-das-neves na Mongólia”, disse ele. "`O rádio me diz onde estão, vou para lá, olho e olho. Não vejo nada, a menos que o leopardo-das-neves resolva se mexer’'.

“Se um leopardo-das-neves repousa silenciosamente e não quer ser visto”, disse Schaller, “você não o verá”.

Para estudar leopardos-das-neves, disse McCarthy, “é preciso ser muito dedicado ou parcialmente louco, ou ambos”.

Veja a galeria: Zoológico suíço apresenta raros trigêmeos de leopardo-das-neves

Apesar de todas as dificuldades, os loucos dedicados seguiram em frente e agora muito de sua pesquisa está esclarecendo questões sobre os felinos raros, misteriosos, alpinistas de gelo supremos e propriamente apelidados de 'fantasma das montanhas’.

Usando armadilhas de câmeras sensíveis ao movimento engenhosamente montadas, cientistas acumularam um rico conjunto de imagens de leopardos-das-neves, permitindo que estimassem números de população, identificasse indivíduos e acompanhassem migrações.

Também conseguiram ter uma visão da rotina diária do felino, que parece envolver frequentes ações de marcação de território: esfregadas de rosto, borrifadas e cavagens de pequenos buracos no chão.

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Leopardo-das-neves visto no corredor Wakhan, no Afeganistão: adaptação para o frio
Admitidamente, o método de armadilha pode enriquecer as evidências de marcação de território dos animais: “Nossos guardas sabem que se câmeras forem alocadas em uma área que conduz um leopardo-das-neves para uma pedra, o instinto do animal o fará borrifar nela e ele será encontrado”, disse Peter Zahler, diretor representante para os programas da Ásia da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem do Zoológico do Bronx.

Cientistas na sociedade de conservação publicaram na edição atual do The International Journal of Environmental Studies os resultados o que eles disseram que foi o primeiro registro fotográfico de leopardos-das-neves no Afeganistão.

Baseado em fotografias tiradas em 16 lugares pelo vasto e árido corredor Wakhan, do nordeste do Afeganistão, Anthony Simms e seus colegas sugeriram que a região, descrita por eles como “uma das paisagens montanhosas mais remotas e isoladas no mundo e um lugar de uma imensa beleza” poderia ser um impressionante santuário de leopardos-das-neves. “Ficamos surpresos com o número de detecções de leopardos-das-neves identificadas em nossa pesquisa”, disse Simms em uma entrevista. “É um sinal promissor de que podemos ter população mais saudável que a esperada aqui”.

Surpresas
Trabalhando no sul da Mongólia, pesquisadores da Panthera equiparam 14 leopardos-das-neves com sofisticadas coleiras GPS que transmitem a leituras de localização e movimentos para os computadores dos cientistas, várias vezes ao dia. “Os dados que estamos conseguindo são simplesmente incríveis”, disse McCarthy. “Os felinos estão usando imensas extensões de residência”, dez ou 20 vezes maiores que as estimativas anteriores. Histórias mais íntimas dos felinos também surgiram.

As coleiras diziam aos cientistas quando um leopardo-das-neves fêmea passava vários dias namorando um macho. Quase certamente, cerca de 14 semanas depois, a coleira da fêmea avisou que ela entrara em uma caverna propícia para ser um recanto para dar à luz.

Ruídos eletrônicos também levantaram dúvidas acerca do leopardo-das-neves, considerado um eremita antissocial. “Vimos dois machos sentados juntos comendo o mesmo jantar”, disse McCarthy. “Foi um verdadeiro choque para nós”. Além de relações de acasalamento e maternidade, disse ele, “leopardos-das-neves deveriam ser solitários”.

Mesmo com a ampla variedade de novas descobertas, cientistas ainda têm apenas uma vaga ideia de quantos leopardos-das-neves existem por aí, ou como estão sobrevivendo em um mundo cada vez mais humanizado e com falta de tolerância com outros mamíferos de grande porte que se recusam a ser domados.

Números são meros palpites
Esparsamente distribuídos pelas altas montanhas de uma dezena de cidades no sul e no centro da Ásia, leopardos-das-neves são considerados uma espécie ameaçada. Pesquisadores estimam que a população caiu pelo menos 20 por cento nos últimos 16 anos e agora está entre 4.500 e 7.500 exemplares livres mas, Schaller disse, “esses números são meros palpites”.

Leopardos-das-neves sempre foram raros, possuindo uma vantagem modesta sobre carnívoros aparentados, como tigres e leões, ao ocupar habitats difíceis nas copas das árvores, em solos aráveis e ao alcance de humanos.

Apesar do nome, são mais próximos dos tigres
Para os americanos, leopardos-das-neves talvez sejam os membros mais queridos do grupo de felinos grandes, grupo exclusivo que inclui tigres, leões, jaguares e leopardos. Leopardos-das-neves preservam a majestade e a elegância fluente e predatória de outros grandes felinos, incorporando aspectos da beleza do panda, um resultado eventual da adaptação ao frio.

Eles têm patas grandes e peludas para ajudá-los a se mover fácil e silenciosamente na neve, e uma cauda excepcionalmente comprida e larga que serve como agente de equilíbrio para saltar e como apoio em torno do rosto durante o sono. Apesar do nome, eles não são leopardos ou, de acordo com uma recente análise genética, parentes particularmente próximos dos leopardos.

De acordo com o que foi publicado no ano passado por William Murphy e Brian Davis da Texas A&M University, no jornal Molecular Phylogenetics & Evolution, a espécie mais próxima do leopardo-das-neves é o tigre. Porém esse parentesco acaba na balança. Segundo Patrick Thomas, curador de mamíferos no Zoológico do Bronx, enquanto um tigre macho adulto pode pesar 250 kg, um leopardo-das-neves macho raramente excede a casa de 45 a 55 kg – pouco mais que um cachorro de estimação grande.

Leopardos-das-neves não rugem ou ronronam, e suas vocalizações soam impressionantemente similares ao uivo do gato siamês. Como regra, leopardos-das-neves têm temperamento calmo e moderado. Ao contrário de muitos felinos de grande porte, disse Schaller, “não sei de nenhum caso de um leopardo-das-neves atacando ou matando pessoas”.

O mesmo, infelizmente não pode ser dito da pecuária humana. Acredita-se que uma das maiores ameaças ao leopardo-das-neves seja o crescente número de criadores de ovelhas e cabras que compartilham o território dos felinos, apenas ganhando a vida, que podem reagir a um felino caçador atirando nele ou espancando-o até a morte.

Utilizando leituras de DNA nas fezes do leopardo-das-neves para reconstruir o cardápio local do felino, pesquisadores observaram uma alta inconstância na incidência de caças de gado. Entre a população Wakhan no Afeganistão, leopardos-das-neves se mantêm firmemente em uma dieta de cabras-dos-alpes, carneiro Marco Polo e outras presas naturais.

Na Mongólia, pelo contrário, cerca de 22 por cento do consumo de leopardos-das-neves residentes consiste de ovelhas e cabras domésticas.

Conservacionistas estão trabalhando fortemente para confrontar o problema – ajudando camponeses a construir currais resistentes a predadores, organizando programas de seguros para compensar criadores por suas perdas ou buscar novas fontes de renda, atraindo turistas aventureiros em seu caminho.

Os turistas podem nunca ver um leopardo-das-neves, mais pelo menos seus dólares ajudarão a assegurar que os felinos estavam lá, observando-os silenciosamente.

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