Governo ajuda China a ganhar a dianteira em energia limpa

Províncias pobres chinesas viram centro e produção de painéis solares e turbinas eólicas

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Balanço em Changsha, na China, tem ventilador movido a energia solar
Até muito recentemente, a província de Hunan era conhecida principalmente por sua comida picante, cidades poluídas e suinocultores pobres. Mao nasceu em uma vila nos arredores de Changsha, a capital desta província na China central.

Agora, Changsha e duas cidades vizinhas estão se tornando um centro de produção de energia limpa. Elas estão fabricando painéis solares para os mercados americano e europeu, desenvolvendo novos equipamentos para a fabricação destes painéis e buscando espaço para fabricar turbinas que geram eletricidade a partir do vento. Em contrapartida, as empresas de energia limpa nos Estados Unidos e na Europa estão em dificuldades. Algumas começaram a cortar empregos e optaram por mudar suas operações para a China através de parceiros locais.

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Painéis solares e turbinas de vento estão espalhados pelas ruas de Wuhan, na China.
O setor de energia limpa, em expansão na China, agora com mais de um milhão de empregos, está rapidamente perto de dominar a produção de tecnologias essenciais para conter o aquecimento global e outras formas de poluição do ar. Essas tecnologias são necessárias para garantir energia suficiente para a população mundial, que deve chegar a 9.000 milhões de pessoas até o meio do século, enquanto as reservas de petróleo e carvão diminuem.

Mas muito do sucesso da energia limpa na China se encontra em políticas públicas agressivas que ajudam essa indústria de exportação de forma crucial e que não foram adotadas pela maioria dos outros governos. Estas medidas arriscam quebrar regras internacionais com as quais a China e quase todos os outros países concordam, de acordo com alguns especialistas em comércio entrevistados pelo The New York Times.

Uma visita a uma das mais recentes histórias de sucesso de Changsha oferece um exemplo sobre os métodos do governo. A Hunan Sunzone Optoelectronics, uma empresa de 2 anos de idade, faz painéis solares e vende quase 95% deles para a Europa. Agora está abrindo escritórios de vendas em Nova York, Chicago e Los Angeles, em preparação para um impulso maior que será dado no mercado americano em fevereiro.

Para ajudar a Sunzone, o governo municipal transferiu para a empresa 22 acres de terra próximos ao importante centro urbano, a um preço de custo. Isso reduziu os custos da empresa e aumentou o seu valor e apelo para os investidores.

Enquanto isso, um banco estatal está se preparando para dar à sociedade uma baixa taxa de juros e o governo provincial quer ajudar o negócio através do reembolso à empresa da maioria dos juros, para ajudar a Sunzone a duplicar a sua capacidade de produção.

Terrenos subsidiados e empréstimos para exportadores como a Sunzone são a regra e não a exceção para as empresas de energia limpa em Changsha e em toda a China, segundo executivos chineses .

Mas este tipo de ajuda viola as normas da Organização Mundial do Comércio, que proíbem praticamente todos os subsídios aos exportadores, e poderia ser contestada com êxito em tribunais da agência em Genebra, segundo Charlene Barshefsky, que foi representante comercial dos Estados Unidos durante a administração Clinton e negociou os termos da entrada da China na organização em 2001.

Se o país que oferece subsídios não removê-los, outros países podem retaliar, impondo tarifas altas sobre as importações provenientes daquele país. Mas as empresas multinacionais e associações comerciais do setor de energia limpa, como em muitas outras indústrias, tem sido cautelosas em mover casos comerciais, temendo a reputação dos chineses de retaliar contra joint ventures no país o que possivelmente negaria acesso ao mercado para qualquer empresa que tome partido contra a China.

As regras da OMC permitem que os países subsidiam bens e serviços em seus mercados domésticos, desde que os subsídios não afetem suas importações. Mas as regras proíbem subsídios à exportação, para impedir que os governos tentem ajudar suas empresas a ganhar espaço nos mercados mundiais.

Outros países também tentam ajudar as indústrias de energia limpa, mas não na medida em que China o faz – e não, pelo menos até agora, a ponto de entrarem em conflito com as regras da OMC.

Não há dúvida de que as táticas agressivas da China estão tornando as energia limpa mais acessíveis. Os preços dos painéis solares caíram quase pela metade nos últimos dois anos, e os preços das turbinas eólicas diminuíram um quarto – em parte por causa da crise financeira global, mas principalmente por causa da rápida expansão da China nestes setores. Grandes turbinas eólicas chinesas são vendidas agora por cerca de US$685.000 por megawatt de capacidade, enquanto as turbinas eólicas ocidentais custam US$850.000 o megawatt.

A questão é saber se a China está construindo essa indústria de maneira injusta para os concorrentes no exterior e que torna outros países excessivamente dependentes de uma indústria chinesa cuja abordagem do negócio pode não ser economicamente nem politicamente sustentável.

Uma vez que a indústria chinesa de energia limpa confia em negócios de terrenos baratos e empréstimos apoiados pelo Estado, o setor pode estar vulnerável se houver uma bolha imobiliária na China, ou se os empréstimos dos bancos criarem problemas financeiros do tipo que têm atormentado os mercados financeiros ocidentais nos últimos anos.

Outros países também podem se tornar menos entusiasmados com a energia renovável subsidiada se isso significa mais importação de mercadorias da China, ao invés de criar empregos em casa.

A rápida ascensão das indústrias de energia solar e eólica na China revela como o governo local ajuda muitas indústrias exportadoras, bem como os desafios para o ocidente agora que o país emergiu como a segunda maior economia do mundo, ultrapassando o Japão e, gradualmente, ganhando dos Estados Unidos.

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