Falta ciência na discussão de sustentabilidade, diz acadêmico

Em evento em Manaus, Paulo Moutinho, do Ipam, reclama do abismo entre cientistas e tomadores de decisão

Maria Fernanda Ziegler, enviada a Manaus* |

Paulo Moutinho, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, foi um dos poucos acadêmicos a falar no Fórum Mundial de Sustentabilidade, realizado em Manaus. O evento, que contou com mais de 600 empresários, priorizou palestras de personalidades, como o ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger, o cineasta James Cameron, o empresário Richard Branson e do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton.

Biólogo e com doutorado em ecologia pela Unicamp, Moutinho proferiu um workshop sobre conservação de florestas no evento. Em entrevista ao iG , Moutinho fala da falta de decisões na área de sustentabilidade que sejam embasadas em estudos científicos, embora haja um volume muito grande de informação nesta área.

iG: Falta ciência na discussão de sustentabilidade no Brasil?
Paulo Moutinho: Eu acho que falta uma ligação mais profícua e constante entre a produção dos cientistas brasileiros e as decisões que são feitas no nível de busca de sustentabilidade ou nas decisões governamentais. Mas a gente ainda precisa seguir um caminho bem longo ainda. Existe ainda um abismo enorme entre a academia e os tomadores de decisão e a para a própria sociedade se munir de informações para pressionar os governos numa determinada posição.

iG: Por isso que se vê pouco cientista aqui no evento?
Paulo Moutinho: É verdade, tem pouco cientista. Há uma tendência tanto de cientistas como de empresários de serem cautelosos. Os cientistas são muito cautelosos, e com razão, em não exporem os resultados de suas pesquisas de uma maneira muito contundente porque eles sabem que há uma série de incertezas nessas pesquisas. Às vezes, exageram um pouco neste sentido.

Por outro lado o empresário vê no cientista algo que é intangível, ininteligível. O que vem da academia é algo que é complicado colocar na prática. Mas eu acho que há várias pontes que estão sendo construídas entre estes dois lados. Cada vez mais eu vejo ciência sendo aplicada como ferramenta para um desenvolvimento sustentável. Instituições independentes de pesquisa, como o Ipam e outros, talvez ajudem a fazer esta ponte de uma maneira mais viável e resgatando a academia para este processo de tomada de decisão empresarial.

iG: E é comum que as tomadas de decisão na área de sustentabilidade levem em conta estudos acadêmicos?
Paulo Moutinho: Está se tornando mais comum embora ainda esteja muito longe do que seria o ideal. Como exemplo eu posso citar o que eu fico mais envolvido. Toda a legislação de fogo e queimada foi construída a partir de estudos que foram desenvolvidos por instituições e ONGs da região do Pará e que mais tarde gerou um programa do governo para isto.

O outro grande exemplo é o REDD (redução de emissões por desmatamento e degradação) que está no âmbito da Onu, mas que surgiu de iniciativas de instituições da sociedade que acabaram cunhando na época um conceito chamado Redução Compensada do Desmatamento e que hoje virou REDD. Foram feitos vários artigos científicos na época (2003) que acabaram servindo como linha de tratar este problema de desmatamento e conservação florestal em larga escala.

iG: Você acha que a falta de embasamento científico nas discussões sobre sustentabilidade aqui no país abre espaço para palpites de pessoas de outras áreas , como o diretor James Cameron?
Paulo Moutinho: Palpite vai ter sempre. Eu não acho que nós não precisamos de opiniões externas. Qualquer cidadão do mundo tem o direito, por ser um cidadão do mundo, de dar palpite. Você pode até julgar que seja ruim ou fora de hora. Apesar dos inúmeros palpites que vamos continuar tendo, é preciso uma mudança de procedimento dos governos e dos tomadores de decisão em incorporar a demanda de informações de qualidade.

A crise que a gente vive hoje no mundo e na Amazônia não é uma crise de falta de dinheiro e talvez nem uma crise de falta de informação. É uma crise de falta de oportunidade para que estas informações sejam colocadas no momento certo e de forma adequada para gerar o tal do desenvolvimento sustentável e a distribuição de renda.

Eu critico a ideia de que para se tomar decisão é preciso gastar mais tempo buscando informação. Esta é uma busca eterna, estaremos sempre buscando informação. Eu vejo que na Amazônia a gente tem um volume enorme de informação suficiente para tomar boas decisões. É melhor tomar decisões com as informações que temos do que à revelia de interesses políticos ou econômicos. Nós precisamos usar urgentemente o acumulo destas informações para decisões qualificadas.

iG: Na apresentação do Arnold Schwarzenegger falou-se muito em como conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental. Na sua opinião, como se concilia isto?
Paulo Moutinho: A gente não tem que conciliar nada. A mudança do paradigma é entender que para crescer economicamente tem que se desenvolver economicamente através da preservação ambiental e não tentar conciliar. Conciliação lembra aquela coisa de casal que brigou muito e agora vai quer dar um jeito de brigar menos. E eu acho que o Brasil e o mundo não precisam deste tipo de abordagem. É preciso entender que o investimento hoje em preservação ambiental não é um custo, mas um investimento em longo prazo para que se possa obter vantagens comparativas, mesmo econômicas no futuro. É quase como investir na bolsa. Você tem oscilações parece um custo muito alto mas ao longo prazo dá resultado.

iG: Como fazer para que a floresta em pé valha mais que a floresta desmatada?
Paulo Moutinho: Primeiro é preciso reconhecer que uma nova economia está surgindo no mundo: a economia dos serviços ambientais prestados pela floresta. A vantagem é que ao invés de exportar produtos como grãos, carnes e manufaturados, nós vamos exportar benefícios oriundos da manutenção da floresta.

Se hoje nós derrubarmos a floresta Amazônica mais do que já derrubamos, nós deveremos agravar a mudança do clima numa proporção que trará prejuízos enormes para economias do mundo todo, sejam economias emergentes ou já consolidadas.

A decisão do governo e da sociedade brasileira em manter esta floresta lá e não transformar em campos de soja ou coisas que o mundo hoje remunera é uma decisão crucial para o país que precisa ser reconhecida mundialmente como um ato econômico.

O país e a sociedade precisam inclusive lutar para que a Organização Mundial do comércio interprete isso como algo importante nas transações comerciais no mundo. Mas esta é a tendência futura. A pessoa precisa se sentir valorizada economicamente para fazer uma opção pela floresta, infelizmente esta é a lógica. Ninguém derruba floresta porque é estúpido, mas porque não tem outra alternativa.

*A repórter viajou a convite da organização do evento.

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