Expedição científica internacional chega ao Rio de Janeiro

Navio espanhol pretende circunavegar o planeta para avaliar os efeitos das mudanças climáticas nos oceanos

Manuela Andreoni, do Rio de Janeiro, especial para o iG |



“Tierra, tierra”, grita uma bióloga espanhola ao pisar em solo carioca, no Píer Mauá, nesta manhã de quinta-feira (13) depois de quase um mês em alto mar. Ela é um dos 94 exploradores que, em uma volta ao mundo, pretendem desvendar mistérios do aquecimento global. A ousada missão, que inclui três brasileiros, começou em Cádiz na Espanha, de onde saiu o navio Hespérides no dia 15 de dezembro de 2010, e pretende percorrer em sete meses de viagem 42 mil milhas náuticas, ou 77.784 quilômetros.

A expedição é uma homenagem ao navegador espanhol Alejandro Malaspina que, no século 18, fez a primeira circunavegação científica da história, com o objetivo de estudar e cartografar todos os vice-reinos espanhóis. Com um custo que beira os 17 milhões de euros, financiados pelo Ministério de Ciência e Inovação espanhol, a Malaspina 2010, sua versão do século XXI, é igualmente ambiciosa. Os pesquisadores a bordo do navio da Marinha Espanhola visam estudar os desconhecidos ecossistemas dos oceanos profundos e descobrir as conseqüências das mudanças climáticas nos oceanos.

“Os oceanos absorvem 43% do carbono produzido pelo homem. Há evidências de que essa capacidade de absorção de dióxido de carbono esteja acabando”, alerta o idealizador da expedição, o pesquisador português Carlos Duarte, membro do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), na Espanha, onde é radicado. O navio é o primeiro equipado com equipamentos que podem detectar se o carbono coletado em uma amostra tem origem natural ou artificial. Ou seja: pode medir a influência das atividades do homem nas mudanças do oceano.

Três pesquisadores brasileiros fazem parte do projeto
De acordo com as investigações feitas pelos diversos cientistas envolvidos, as transformações na composição química da atmosfera e dos oceanos podem gerar um desequilíbrio nos mares.
“Se você muda a química da água e da atmosfera, pode alterar ou intensificar a liberação dos gases, inclusive dos do aquecimento global”, explica Humberto Marotta, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) que embarca na expedição Malaspina na próxima segunda-feira (17) e vai até a próxima parada do Hespérides, em Cabo Verde, África do Sul, daqui a um mês. "Estou animadíssimo", confessa.

Ele entra no lugar de Luana Pinho, doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que embarcou em Cádiz. A bióloga trabalhou na medição de emissão de gases nos oceanos, cargo que será ocupado agora por Marotta, e sai do Hespérides com a certeza de que fez parte de um projeto único.

“Aqui, podemos participar de diversos grupos de pesquisa, com pesquisadores de várias nacionalidades e especialidades. É uma experiência muito rica. A gente vai conversando e tendo novas idéias. É muito produtivo”, conta Luana.

Os dois brasileiros fazem parte da equipe do professor Alex Enrich Prast, também da UFRJ, e de Carlos Duarte. Foi por meio dessa parceria que o Brasil conseguiu um espaço entre as cerca de 30 nações que fazem parte desta grande aventura. “Nosso objetivo era fazer uma circunavegação e os pesquisadores foram escolhidos por meio de nosso contatos”, conta Duarte.

Por seu alto custo, a pesquisa oceanográfica não é muito freqüente no Brasil. Nenhum dos três biólogos que hoje fazem parte da Malaspina havia embarcado em um navio oceanográfico antes. Prast diz que está ansioso para ver os resultados das coletas de dados no Atlântico Sul, pois, de acordo com ele, elas são raras já que o oceano é mais próximo a países que geralmente não têm recursos para pesquisa e desenvolvimento, como é o caso das nações da África e da América do Sul. “Ao final de toda a circunavegação, vamos poder fazer modelos de emissão de gases mais específicos para a costa brasileira”, completa Marotta, que irá fazer exatamente este trajeto no Hespérides.

Navio custa R$ 70 mil por dia
Por ter muitas ambições, a expedição Malaspina 2010 também custa bastante. Entre embarques e desembarques, serão cerca de 400 pesquisadores a freqüentar o navio oceanográfico. Depois do Rio de Janeiro e da Cidade do Cabo, o Hespérides segue para Perth e Sidney, na Austrália, além de Auckland, na Nova Zelândia. Logo mais, atravessa o Pacífico para chegar ao Havaí e, de lá, cruzar o Canal do Panamá, fazendo escala em Cartagena de Las Índias, na Colômbia, para enfim aportar na Espanha, em 14 de julho de 2011, completando os sete meses de viagem em oito etapas.

Em cada uma dessas paradas, o navio precisa de combustível, diversos equipamentos de laboratório e outros. De acordo com Duarte, o navio custa R$ 70 mil por dia para funcionar. Somente a conexão à internet, que possibilita que os dados coletados sejam transmitidos à Universidade de Cádiz, onde são analisados e armazenados, toma R$ 130 mil do orçamento. Haja velocidade para os cerca de 300 computadores que o navio abriga entre laptops pessoais e máquinas dos diversos laboratórios.

Um dos equipamentos mais importantes do barco são 24 rosetas. Elas são como garrafas que servem para coletar material no oceano profundo. Podem chegar a até quatro mil metros de profundidade – o ponto mais baixo do fundo dos mares é 11 mil metros, nas Filipinas. A um desses recipientes foi atrelada uma rede que permite que se capte também plânctons em grandes profundidades – invenção que foi patenteada pelo projeto.

Os pesquisadores da Malaspina coletarão amostrar de ar, água e plâncton em 350 pontos do trajeto e pretendem reunir 70 mil amostras em diferentes locais e profundidades. Esse material será reunido em um banco de dados que ficará aberta para consulta a toda a comunidade científica. “Os grandes saltos de evolução são produto da colaboração. A competição atinge muito pouco”, defende Carlos Duarte, que espera coletar o equivalente a cinco terabytes de informação. Apenas na primeira etapa, até o Rio de Janeiro, foram recolhidos quase um terabyte. (um terabyte equivale a 1024 gigabytes).

Duarte pretende guardar parte dessas amostras em diversos locais e mantê-las intocadas por 30 anos para que, na próxima geração e com novas tecnologias, possa haver outras descobertas com os resultados desta expedição. Afinal, mesmo com sondas em Marte, destaca Duarte, ainda se conhece muito pouco dos oceanos do planeta. Para se ter uma idéia, são 250 as espécies de organismos marinhos conhecidos. No entanto, acredita-se que isso seja apenas de 5% a 10% do que existe até as profundezas. Navegar é preciso.

Visitação aberta no sábado
O Hespérides estará aberto neste sábado (15), das 8h30 às 17h, no Píer Mauá. Nesta sexta (14), também haverá um circuito de palestras sobre a expedição no Instituto Cervantes, em Botafogo (21-3554-5910). Para conhecer o navio de 84 metros de comprimento, basta enviar um email para malaspinario@gmail.com pedindo para participar da visita.

Para quem não puder ir a nenhum dos dois eventos, o site do projeto contém todas as informações, além de fotos, vídeos e até uma visita virtual.

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