“Eu não deixaria minha mãe entrar naquela jaula”, afirma especialista

O iG consultou biólogos e veterinários para saber se as alegações de domesticação de tigres e leões na Argentina são verdadeiras

Natasha Madov, iG São Paulo |

Será possível domesticar predadores como tigres e leões, conhecidos por sua ferocidade, a ponto de ser perfeitamente seguro entrar em suas jaulas para tocá-los e tirar fotografias, como se fossem cães ou gatos? Para responder a essa pergunta, o iG mostrou a diversos especialistas os vídeos e fotos feitos no Zoo Lujan, bem como materiais institucionais disponíveis na Internet, e eles afirmaram em unanimidade: algum treinamento é possível, mas o risco de ferimentos e morte existe e não é desprezível.

Entenda o caso:
Zoo na Argentina causa polêmica ao permitir a entrada em jaulas de grandes felinos
Um dia em Lujan
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De acordo com biólogos e veterinários especializados em animais selvagens, a domesticação é um processo longo, que leva várias gerações e seleção genética de animais (como o que foi feito cães e gatos ao longo de milhares de anos). O que acontece em Lujan são treinamentos e condicionamentos comportamentais. Os animais, por mais dóceis e bem tratados que pareçam, continuam selvagens e não perdem seus instintos. "Não quer dizer que você conseguiu romper com uma história evolutiva da espécie", explicou ao iG o veterinário Gelson Genaro, especialista em comportamento de felinos. E o mesmo vale para elefantes e ursos.

Veja as imagens:


No entanto, ao observar um vídeo em que Jorge Semino explica sua técnica, todos afirmaram que ela fazia sentido. Quando acostumados desde a infância com seres humanos, os animais tendem a entendê-los como iguais, e não os atacam. Além disso, algumas técnicas, como recompensá-los por bom comportamento (o que parece ser ser o que os tratadores em Lujan fazem quando dão leite aos felinos) e tratar animais adultos como se ainda fossem filhotes, realmente os fazem ficar mais tranquilos e tolerar melhor o contato com pessoas.

"Todo animal em cativeiro tem algum tipo de treinamento", diz Mara Cristina Marques de Azevedo, bióloga do Departamento Técnico de Mamíferos do Zoológico de São Paulo. Mas o costume é treiná-los para facilitar ao trabalho dos tratadores e veterinários -- e ainda assim, evita-se treiná-los para terem comportamentos que eles não teriam naturalmente. Além disso, filhotes sempre ficam com a mãe, a não ser em casos especiais, quando ela não tem leite ou rejeita a cria, como foi o caso do urso polar Knut , na Alemanha. Mas nesses casos, é importante que o animal volte a conviver com seus iguais assim que possível. "Para ele entender que não é humano. Até porque ele pode não querer machucar, mas também não entende a força que tem", explica Mara. Um tigre siberiano, cuja patada tem a força de três toneladas, pode derrubar um búfalo de 500 quilos com um tapa.

"Sempre existe o risco do animal ter uma reação imprevísivel", alerta Mara. Um caso clássico foi o de Roy Horn, da dupla alemã Siegfried & Roy, cuja longa carreira de espetáculos de mágica em Las Vegas acabou em outubro de 2003 quando Manticore, um tigre branco de Bengala de seis anos e meio criado por Horn desde filhotinho, o atacou durante um show, mordendo-o no pescoço e o arrastando para fora do palco. Horn ficou parcialmente paralisado. Um inquérito acabou sem conclusões definitivas sobre o que teria motivado o ataque -- entre veterinários especializados em animais selvagens, circula a versão de que Manticore estaria sofrendo com as dores de um dente quebrado. "Felinos ainda dão sinais prévios de que algo está errado, mas um urso, por exemplo, não demonstra nada. E elefantes têm ótima memória -- podem lembrar de maus tratos anos depois que eles aconteceram e reagir de acordo", diz Mara.

"Eu entraria na jaula, porque conheço os animais e sei como eles se comportam, mas não deixaria minha mãe entrar", afirma Genaro.


Veja o vídeo:


Caso não consiga ver o vídeo, clique para assistir na TV iG: Zoo na Argentina causa polêmica ao deixar visitantes entrarem na jaula dos leões


Mas Lujan não é o único na América do Sul a oferecer experiências radicais com grandes felinos. Na reserva de Ambue Ari, na Bolívia, voluntários passeiam pela floresta com onças pintadas na coleira, em troca de uma taxa de manutenção do santuário. Ali, os visitantes assinam um termo de responsabilidade afirmando que estão cientes dos riscos que correm. Em Lujan, apesar de relatos na internet que o mesmo acontecia, nada foi pedido das repórteres do iG além do valor do ingresso.

Tamanha segurança dos donos do zoo pode vir de outros motivos. É possível que aconteça uma seleção dos animais mais dóceis do grupo para ficar em exposição ou ainda que eles estejam sendo sedados, de acordo com o veterinário venezuelano Rafael Hoogesteijn, representante no Brasil da ONG internacional Panthera, que trabalha na conservação de grandes felinos. "A atitude que vi [no vídeo do iG ] não é normal entre grandes felinos," disse, referindo-se ao momento em que uma visitante acaricia um leão profundamente adormecido. Hoogesteijn acredita que não precisaria ser algo tão forte quanto um tranquilizante, bastaria um leve antidepressivo para deixá-los dependentes.

Os especialistas concordam que a aproximação pode sensibilizar o público para os riscos que eles correm na natureza. Tigres siberianos, por exemplo, estão seriamente ameaçados de extinção . "A gente precisa dessa exposição dos animais em prol da educação", diz o veterinário Roberto Fecchio, especializado em animais silvestres. Porém, segundo Fecchio, os mesmos benefícios poderiam ser alcançados com girafas, alguns tipos de primatas ou araras: espécies que, ao contrário de um leão ou um urso, são incapazes de matar um ser humano com um simples safanão.

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