Estudos indicam danos e recuperações no Golfo do México

Ecossistema não ficou passivo diante do ataque embora dezenas de quilômetros de pântano ainda permanecem negros de óleo

The New York Times |

Após a  Deepwater Horizon ter começado a lançar petróleo bruto cor de ferrugem no Golfo do México, os cientistas trabalharam freneticamente para descobrir que tipo de dano ambiental realmente veio do maior derramamento de óleo da história dos Estados Unidos.

O que aparece em estudos até o momento não é uma nova contagem dos danos, mas uma nova janela para as complexidades do golfo e para as vulnerabilidades e capacidades de sistemas biológicos diante de insultos ambientais.

Não existem dúvidas de que a água, a vida selvagem e as terras úmidas do golfo foram prejudicadas quando, a partir de 20 de abril do ano passado, cerca de 4,9 milhões de barris de óleo e quase 7 milhões de litros de agentes dispersantes atingiram as águas da Louisiana. Porém, o ecossistema não ficou passivo diante do ataque. O golfo, que presencia uma infiltração natural de milhões de galões de óleo por ano, teve a capacidade nata de digerir uma parte do petróleo bruto e do gás metano misturado a ele.




Quase tão rapidamente quanto o poço foi tapado, a parte mais profunda se tornou mais limpa. Por outro lado, dezenas de quilômetros de pântano ainda permanecem negros de óleo, equipes do governo ainda removem bolas de piche que aparecem incessantemente nas praias, e resquícios dos dispersantes ainda são encontrados boiando nas correntes.

Biólogos estão monitorando sem descanso enquanto golfinhos aparecem na costa de forma inexplicável, tentando chegar a uma contagem realista de pássaros e mamíferos mortos durante o derramamento e trabalhando para compreender o que acontece quando o leito do golfo é coberto pelo resto de bactérias que se alimentam de petróleo.

“É bem difícil obter uma compreensão de todo o cenário, e não é por falta de tentativa”, disse Christopher Reddy, cientista sênior do Instituto Oceanográfico Woods Hole que estuda as consequências de longo prazo de derramamentos de petróleo. “Centenas de cientistas estão trabalhando dia e noite, tentando obter uma peça desse grande quebra-cabeça, mas é uma região inteira, é complicado”.

Como o ecossistema regional tem respondido, suas forças e fraquezas, será algo que manterá os cientistas ocupados analisando dados por vários anos e os ajudará a entender os efeitos dos desastres ambientais.

Um exército com uma missão
Após um derramamento de petróleo, o governo é responsável por carregar todos os danos ecológicos em algo chamado Avaliação de Danos de Recursos Naturais.

O documento, que requer um batalhão de pesquisadores, argumenta que as empresas responsáveis pelo derramamento devem pagar para recuperar o ecossistema até seu estado antes do desastre. As empresas contratam suas próprias equipes de assessores, que podem pintar um cenário bem diferente.

Os dois lados chegam a um acordo, ou vão ao tribunal.

No final de janeiro, o governo afirmou que seus cientistas tinham tirado 35 mil fotografias, caminhado quase 6,5 mil quilômetros de litoral e coletaram mais de 40 mil amostras de água, sedimentos e tecidos.

Os cientistas também estão testando como estimar o que eles não podem contar de forma precisa, como a morte de animais. Um grupo de avaliadores está espalhando carcaças de animais longe costa e medindo quantas afundam e quantas chegam à praia. Esses números serão usados para calcular o número de pássaros que podem ter morrido, além dos que foram encontrados e contabilizados.

Apesar de todo esse esforço, levará algum tempo até que as consequências comecem a se manifestar. Somente três anos após o derramamento da Exxon Valdez no Alasca, por exemplo, é que a pesca do arenque começou a entrar em colapso.

Durante o desastre da Deepwater Horizon, enquanto a mancha de petróleo se espalhava, o Serviço Federal de Peixes e Vida Selvagem deslocou cerca de 28 mil ovos de ninhos de tartarugas em praias do Alabama que estavam sob risco para a costa da Flórida. Embora 51 por cento dos ovos tenham chocado - condizente com os índices de sobrevivência normais -, levará mais duas décadas até que os filhotes que sobreviveram voltem para a Flórida como adultos para botar ovos. Apenas então saberemos o exato sucesso do esforço de resgate.

Muitos dos resultados obtidos até o momento, por parte do governo ou da indústria privada, ainda não se tornaram públicos, pois eles estão esperando uma análise rigorosa antes de sua divulgação. Além disso, em alguns casos, os cientistas devem manter suas descobertas em sigilo devido a ações judiciais em andamento.

“Temos a responsabilidade legal de garantir que nós possamos sair desse processo com uma indenização adequada para os danos”, disse Bob Haddad, chefe da divisão de avaliação e restauração da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que está liderando a coordenação da avaliação de danos. “Não quero tropeçar em questões como inadmissibilidade de evidência”.

Óleo e água se misturam, sim
Mesmo assim, alguns trabalhos científicos independentes têm sido realizados no golfo e vêm produzindo boas notícias. Como o derramamento ocorreu a uma pressão bastante alta uma milha abaixo da superfície do oceano, uma parte do óleo foi reduzida a pequenas gotículas que permaneceram suspensas a milhares de pés de profundidade.

Terry C. Hazen, líder do departamento de ecologia do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, tomou 170 amostras ao redor da Deepwater Horizon entre 27 de julho e 26 de agosto do ano passado, apenas semanas depois da fonte ter sido tapada.

Hazen buscava monitorar o destino do óleo que estava sob a água à medida que ele se espalhava, mas descobriu que ele desapareceu. “Conseguimos detectar até duas partes por bilhão”, ele disse, “mas não havia nada lá”. Seu trabalho foi financiado por uma verba que seu laboratório ganhou da BP, dona do poço de petróleo, muito antes do derramamento, e não foi de forma alguma analisado ou influenciado pela empresa, segundo ele.

Os resultados mostraram que o óleo não apenas tinha se diluído com a água, mas também foi consumido por bactérias naturalmente presentes. Os pesquisadores antes temiam que essas bactérias pudessem não existir a milhares de pés de profundidade, ou que o processo de digestão pudesse ser particularmente lento devido às temperaturas mais frias nessa profundidade.

No entanto, o grupo de Hazen encontrou bactérias especializadas no consumo de óleo em temperaturas baixas.

Outro subproduto do derramamento foram aproximadamente 200 mil toneladas métricas de gás metano. Em junho de 2010 havia 100 mil vezes mais gás metano dissolvido no golfo do que o normal. Os cientistas temiam que ele pudesse continuar dissolvido na coluna de água, esgotando os níveis de oxigênio por vários anos.

No entanto, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, e do Texas A&M coletaram amostras de água de 207 locais próximos ao derramamento e descobriram que as proporções de metano estavam de volta aos níveis normais.

John Kessler, oceanógrafo da Texas A&M, disse: “Parecia que o metano estaria presente no golfo nos próximos anos. Em vez disso, os índices de respiração do metano aumentaram para níveis mais altos do que jamais foi registrado”.

Em outras palavras, as bactérias consumiram. Porém, outros cientistas não estão convencidos. Samantha B. Joye, professor de ciência marinha da Universidade da Georgia, disse que sua equipe encontrou níveis elevados de metano na época exata em que a equipe de Kessler não encontrou.

Além disso, numa recente reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência, Joye afirmou que a digestão do petróleo e do metano não foi inteiramente benigna. Sua equipe coletou amostras de sedimentos numa área de aproximadamente 35 milhas quadradas em vários momentos diferentes, mais recentemente em dezembro, e descobriu o leito do golfo coberto por um lençol de bactérias mortas, grande parte delas oleosa e grudenta. Em cada um dos locais onde ela coletou amostras, invertebrados que habitam as profundezas do mar – vermes, estrelas do mar e até corais – estavam mortos.

“São espécies essenciais para o ecossistema”, ela disse, “e não sabemos o que ocorrerá sem elas”.

Suas descobertas foram comprovadas em parte por Charles Fisher, biólogo da Pennsylvania State University, que documentou corais mortos a sete milhas da fonte, provavelmente mortos por plumas com óleo no mar profundo, disse Fisher. “Esses corais vivem por centenas, talvez centenas de milhares de anos”, afirmou. “As chances de algo que não tenha sido o derramamento ter matado os corais são muito pequenas”.

Dispersantes em diáspora
O destino de cerca de 1,84 milhões de galões de dispersantes lançados no golfo para que o petróleo se quebre em pedaços menores e, assim, se decomponha mais rapidamente é menos certo do que aconteceu com o petróleo e o metano. Cerca de 770 mil galões foram aplicados na própria nascente.

Os agentes dispersantes possuem elementos tóxicos. Na época os críticos consideraram a medida como um enorme experimento não regulamentado.

A Agência de Proteção Ambiental realizou abrangentes testes com o dispersante de uso mais comum, o Corexit 9500, misturado ao petróleo da Louisiana e igualmente tóxico para a vida marinha a oito outros dispersantes alternativos e ao próprio petróleo. A administradora da agência, Lisa P.

Jackson, afirmou que não foi só apenas a toxicidade dos dispersantes que foi avaliada, mas também sua eficácia. “Os químicos ajudaram a quebrar o petróleo”, disse Jackson em recente entrevista. “Foi a decisão certa usá-los”.

Mas isso não significa que os dispersantes foram inócuos. Elizabeth Kujawinski, cientista associada de química da Woods Hole, pôde rastrear os dispersantes usando testes altamente sensíveis. Kujawinski descobriu que, embora eles tenham se diluído, “não são inteiramente biodegradáveis ou decompostos”.

Em outras palavras, ela disse, esses elementos ainda continuam no golfo, mas em quantidades que o governo não considera perigosas.

“A toxicidade considera a exposição aguda – grandes concentrações”, ela disse. “Mas no caso da Deepwater Horizon foram concentrações baixas, mas por um longo período de tempo. Não sabemos o quanto isso afeta as criaturas que vivem nas profundezas e que não conseguem se mover, como os corais”.

Morte repentina Durante o derramamento, a contagem diária de pássaros, tartarugas e mamíferos marinhos encontrados vivos ou mortos e cobertos de óleo foi muito triste. Mas isso foi apenas o começo.

Para cada pelicano ou baleia encontrada na costa ou boiando no mar, um número muito maior morreu. Depois do acidente da Exxon Valdez, 30 mil pássaros foram encontrados, mas 250 mil – oito vezes o número encontrado – podem ter sido mortos pelo derramamento. Cada situação é diferente e os cientistas estão tentando reconhecer os chamados multiplicadores de morte para este derramamento.

Observando os índices anuais de recuperação de carcaças para 14 grupos de cetáceos – o grupo de mamíferos que inclui baleias e golfinhos _, um grupo de biólogos da Universidade de British Columbia recentemente afirmou que o multiplicador para aquele grupo deve ser aproximadamente 50. Assim, embora 115 cetáceos tenham sido encontrados ou isolados durante o derramamento e nos meses imediatamente após o desastre, eles podem representar na verdade cerca de 5 mil mortes.

Melanie Driscoll, diretora de conservação de pássaros do golfo da National Audubon Society, afirmou que multiplicadores similares podem precisar ser aplicados a 8 mil pássaros até agora descobertos pelo governo, especialmente numa categoria conhecida como pássaros secretos de pântano. “Eles já se escondem em gramas escuras naturalmente, então certamente passaram despercebidos”, disse Driscoll.

Algumas espécies podem, no entanto, ter se saído melhor do que aparentavam no começo. Jim Franks, professor de pesca da University of Southern Mississippi Gulf Coast, vem monitorando larvas de um tipo de atum. Embora ele afirme que o petróleo afetou, sim, algumas de suas áreas de reprodução, também poupou outras. Frank se recusa a dizer que porcentagem das larvas pode ter morrido, mas certamente não foi uma aniquilação completa, como se temia.

A vida vegetal também sofreu com o derramamento. Pântanos em Bay Jimmy, ao sul de New Orleans, foram fortemente atingidos e continuam cobertos de óleo pesado. Quantidades desconhecidas de poluição estão enterradas nos sedimentos próximos. Monitores federais estão observando essas áreas agora para ver se novas gramas surgem das atingidas pelo petróleo nesta primavera, ou se será necessário queimar uma parte da vegetação antiga e poluída.

Além disso, professores da Mississippi State University e da Jackson State University afiliados ao Instituto do Norte do Golfo combinaram observações de campo e imagens de satélite para estimar os danos a áreas de pântano além daquelas que obviamente estavam cobertas de óleo. Suas descobertas preliminares indicaram que 2010 foi um ano anômalo.

Observando a temporada normal de crescimento da vegetação do pântano de julho a outubro de 2010 e comparando-a com o ano de 2009, de condições similares, exceto pelo derramamento, eles encontraram um aumento significativo na quantidade de vegetação marrom. Foi de 52 ou 78 quilômetros quadrados até 388,5 quilômetros quadrados. A parte do pântano que margeia as águas abertas está sob o risco de morrer e ser consumida pelo mar.

E há também as mortes que ainda estão por vir. Em fevereiro, 59 golfinhos foram encontrados encalhados ou mortos nas praias do norte do golfo; 36 eram filhotes prematuros ou que nasceram mortos. Isso representa um número nove vezes maior que a média encontrada entre 2002 e 2009. Os golfinhos começaram a morrer antes do derramamento de petróleo; 56 foram encontrados encalhados em março de 2010. Mas o aumento nas mortes neonatais de golfinhos é algo novo este ano.

“Sim, as mães desses golfinhos provavelmente estavam em gestação durante o derramamento”, disse Blair Mase, coordenadora de encalhes de mamíferos marinhos da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, “e a exposição ao petróleo em mamíferos pode causar problemas”. No entanto, ela disse que pode haver outras causas. Por exemplo, os golfinhos podem estar combatendo um vírus que apareceu antes do derramamento, mas que está ainda mais perigoso porque a exposição ao petróleo enfraqueceu o sistema imunológico dos animais.

Assim como muitos dos efeitos do derramamento, concluiu Mase, “no momento não podemos afirmar de maneira certa”.

    Leia tudo sobre: vazamentopetróleogolfo do méxicoBP

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG