Em recursos naturais, otimismo vence pessimismo

Embora recursos não sejam infinitos, descoberta de novas bacias de petróleo e gás natural garante tranquilidade aos investidores

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Plataforma de petróleo no Golfo do México
Cinco anos atrás, Matthew R. Simmons e eu apostamos US$ 5 mil. Era uma aposta sobre o futuro do suprimento de energia - um pessimista malthusiano contra um otimista "cornucopiano" -, e finalmente chegou o dia da verdade: 1º de janeiro de 2011.

A aposta surgiu de um artigo de capa na "New York Times Magazine", em agosto de 2005, intitulado "The Breaking Point" ("O limite máximo", em tradução livre). Ele trazia previsões de alta nos preços do petróleo por Simmons, que era membro do Conselho de Relações Exteriores, presidente de um banco de investimentos em Houston especializado na indústria da energia e autor de "Twilight in the Desert: The Coming Saudi Oil Shock and the World Economy" ("Crepúsculo no deserto: O iminente choque do petróleo saudita e a economia mundial", em tradução livre).

Liguei para Simmons para discutir uma aposta. Para lhe dar o crédito - e ao contrário de alguns outros malthusianos -, ele estava ávido por endossar suas previsões com dinheiro. Ele esperava que o preço do petróleo, na ocasião em cerca de US$ 65 o barril, mais que triplicasse nos cinco anos seguintes, mesmo depois do ajuste pela inflação. Ele se ofereceu para apostar US$ 5 mil que o preço médio do petróleo chegaria, ao longo de 2010, a pelo menos US$ 200 o barril em dólares de 2005.

Eu aceitei os termos, não por conhecer bem a produção saudita de petróleo ou os outros argumentos de que a produção global estava numa curva decrescente. Eu estava apenas seguindo uma regra aprendida com um mentor e amigo, o economista Julian L. Simon.

Como líder dos cornucopianos, os otimistas que acreditavam em suprimentos eternos e abundantes de energia e outros recursos, Simon achava que uma aposta era a melhor forma de provar seu argumento. O otimismo, segundo ele descobriu, não chegava às capas de revistas e manchetes de primeira página.

Não importava quantas estatísticas animadoras ele produzisse, não conseguia obter tanta atenção quanto os sombrios malthusianos, como Paul Ehrlich, o ecologista "best-seller". Suas previsões de crises de energia e escassez de recursos pareciam não só mais atuais, mas também mais intuitivamente corretas. Num mundo finito com uma população crescente, não seria lógico esperar que os recursos se tornem mais escassos e caros?

Em vez de discutir, Simon se ofereceu para apostar que o preço de qualquer recurso natural escolhido por um malthusiano não aumentaria no futuro. Ehrlich aceitou e formou um consórcio com dois colegas de Berkeley, John P. Holdren e John Harte, supostos especialistas em recursos naturais. Em 1980, eles escolheram cinco metais e apostaram que os preços subiriam durante os dez anos seguintes.

Em 1990 os preços estavam mais baixos, e os malthusianos pagaram a aposta - embora sem sofrer quaisquer consequências profissionais, aparentemente. Ehrlich e Holdren receberam o "prêmio de genialidade" MacArthur (Simon nunca conseguiu). Holdren passou a comandar a Associação Americana para o Avanço da Ciência, e hoje atua como conselheiro científico do presidente Barack Obama.

Simon, que morreu em 1998, nunca mais conseguiu persuadir Ehrlich, Holdren ou qualquer outro mensageiro do apocalipse a aceitar uma de suas apostas.

Quando encontrei um novo apostador em 2005, a primeira pessoa a quem contei foi a viúva de Simon, Rita Simon, uma professora de assuntos públicos na Universidade Americana. Ela ficou tão feliz ao ver continuidade da tradição de Simon que quis dividir a aposta comigo, e acabamos colocando US$ 2.500 cada um contra os US$ 5 mil de Simmons.

Conforme Simmons previa, os preços do petróleo ultrapassaram bastante os US$ 65. Com a economia global prosperando no verão de 2008, o preço do barril atingiu US$ 145. Especialistas americanos em política externa pediram leis para proteger o acesso a essa fonte cada vez mais escassa; ambientalistas defendiam programas de choque para reduzir a dependência de combustíveis fósseis; empresas gerando energia eólica e outras fontes alternativas se apressaram para expandir a capacidade.

Quando veio a recessão global, no outono de 2008, o preço do barril mergulhou a US$50, mas no final daquele ano Simmons foi citado no jornal "The Baltimore Sun", soando confiante. Quando Jay Hancock, colunista financeiro do "Sun", perguntou se ele estava começando a reconsiderar a aposta, Simmons respondeu: "Deus, não. Nós apostamos sobre o preço médio em 2010. Isso é daqui a uma eternidade".

No ano passado o preço voltou a subir, mas a média para 2010 foi pouco abaixo de US$ 80, correspondendo a cerca de US$ 71 em dólares de 2005 - valor um pouco acima dos US$ 65 no momento da aposta, mas muito abaixo do piso de US$ 200 definido por Simmons.

Que lição tiramos disto? Eu esperava deixar Simmons explicar seu lado, mas infelizmente ele morreu em agosto, aos 67 anos. Os colegas conduzindo seus negócios revisaram os números na semana passada, e declararam que os US$ 5 mil de Simmons deveriam ser entregues a mim e Rita Simon em 1º de janeiro. Mesmo assim, Simmons ainda tinha seus defensores.

Um de seus amigos e colega na teoria do pico do petróleo, Steve Andrews, disse que, embora Simmons houvesse feito "uma aposta exagerada", ele continuava correto na previsão de um petróleo mais caro. "A era do petróleo barato terminou", afirmou Andrews, prevendo problemas à medida que a produção se estabilizar.

É verdade que o preço real do petróleo aumentou levemente em relação a 2005, e sempre é possível esperar novos picos de preços no futuro. Mas a situação geral da energia atualmente se parece muito com uma festa cornucopiana, como relataram recentemente meus colegas Matt Wald e Cliff Krauss. Enormes reservas foram descobertas na costa da África e do Brasil. Os novos projetos de areias de petróleo no Canadá já fornecem mais petróleo aos Estados Unidos do que a Arábia Saudita. A produção nos Estados Unidos aumentou no último ano, e o Departamento de Energia prevê novas expansões nas próximas duas décadas.

A notícia realmente boa é a descoberta de vastas quantidades de gás natural. Hoje esse recurso é vendido por menos da metade do preço de cinco anos atrás. Há tanto gás disponível que o Departamento de Energia está prevendo preços baixos para gás e eletricidade pelos próximos 25 anos. Lobistas de fazendas eólicas estão novamente dizendo a Washington que a indústria da "energia sustentável" não pode se sustentar sem subsídios adicionais.

À medida que o gás substitui os combustíveis fósseis mais sujos, o aumento das emissões de gás estufa será abrandado, segundo o Departamento de Energia. A previsão é que não serão construídas mais usinas a carvão, e que o nível de emissões de dióxido de carbono nos Estados Unidos permanecerá abaixo do nível de 2005 pelos próximos 15 anos  - mesmo sem a imposição de novas restrições.

Talvez algo inesperado mude essas felizes tendências, mas por enquanto digo que o conselho de Julian Simon continua melhor do que nunca. Sempre se pode chegar às manchetes com previsões catastróficas, mas geralmente se ganha dinheiro apostando contra elas.

Por John Tierney


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