Em busca da qualidade de vida para todas as espécies do planeta

Leia a entrevista com Ken Godard, investigador de vida selvagem, que vai participar do TEDx Amazônia em novembro

Alessandro Greco, especial para o iG |

AE/ALEX DE JESUS
O TEDx Amazônia ocorre entre os dias 6 e 7 de novembro
Nos dias 6 e 7 de novembro, às margens do Rio Negro, na Amazônia, mais de 50 pensadores de áreas do conhecimento tão diversas quanto arte, biologia, tecnologia, ciência e negócios, irão fazer palestras sobre o tema “Qualidade de vida para todas as espécies” no primeiro TEDx Amazônia. O TEDx é um evento independente com a chancela do TED original que nasceu em 1984 para espalhar ideias relevantes nas áreas de Tecnologia Entretenimento e Design (TED) e se tornou um acontecimento mundial. Atualmente ele reúne a nata dos pensadores mundiais. As inscrições para assistir o evento estão abertas até o dia 11 de outubro. Os interessados em participar devem acessar o site www.tedxamazonia.com.br e preencher o questionário de seleção, que segue o mesmo formato da comunidade TED Global. O hotel, a alimentação e o transporte fluvial são gratuitos para todos os participantes. O único custo é o de chegar à cidade de Manaus.

O TEDx Amazônia vai intercalar conhecimento com entretenimento. A ideia é seguir uma filosofia sistêmica no qual diversas palestras estarão conectadas entre si e na qual a interação do público com os palestrantes nos intervalos é fundamental para alcançar o objetivo maior do encontro: criar uma comunidade realizadora que espalhe a premissa da “qualidade de vida para todas as espécies”.


Divulgação
O investigador forense de vida selvagem Ken Godard já trabalhou em casos bizarros como o das centenas das morsas sem cabeça que apareceram ao longo da costa do Alasca

O iG conversou com um dos palestrantes do evento, Ken Godard. Ex-xerife, ex-policial forense, diretor do Laboratório Forense do Serviço de Vida Selvagem e Pesca dos EUA, e escritor de ficção, Godard falou de seu trabalho como investigador policial, do trabalho que faz como investigador na área de vida selvagem e sobre seu livro “In Extremis” da série de TV CSI.

iG: O senhor trabalhou muitos anos na polícia. Qual das funções gostou mais?
Ken Godard: A parte mais bacana foi de 1979 a 1986 quando estava levantando dinheiro para nosso Laboratório Forense do Serviço de Vida Selvagem e Pesca dos Estados Unidos. Nesse trabalho viajei por todo os Estados Unidos com um crachá, uma pistola e um kit de investigação ajudando nossos agentes especiais no trabalho de investigação em vida selvagem.

iG: O senhor gostava de trabalhar em cenas de crime?
Godard: Minha parte favorita era tentar entender o quebra-cabeça (ou seja, reconstruir o que acontece na cena). Isso compensava as longas horas de procura por evidências com minhas mãos e joelhos. O trabalho real de investigação criminal não chega nem perto do glamour que aparece na TV...

iG: Qual o caso mais bizarro em que o senhor já esteve envolvido?
Godard: Acho que foi um em que o suspeito matava garotos jovens, desmembrava os corpos e deixava os pedaços em diferentes cidades do sul da Califórnia. Ele matou ao menos 57 pessoas antes de conseguirmos pegá-lo. É algo que espero que nunca mais se repita!

iG: O senhor gosta de trabalhar como investigador criminal da vida selvagem?
Godard: Sim. Nos 12 anos que trabalhei como investigador policial em cenas de crime humanas passei a achar o que fazia muito repetitivo e deprimente. Nos outros mais de 30 anos que tenho trabalhado com investigação relacionada à vida selvagem, a grande diversidade e complexidade das leis da vida selvagem nunca deixaram de me fascinar. Em resumo, me sinto fazendo bom uso da minha carreira profissional. Além disso, encontro pessoas interessantes de todas as partes do mundo. É difícil imaginar um trabalho melhor.

iG: Por que é tão fascinante o trabalho com vida selvagem?
Godard: De forma diferente das investigações de homicídio humano nas quais é quase sempre ilegal matar a vítima, nos casos de vida selvagem é necessário primeiramente de qual espécie é a vítima para depois saber qual crime foi cometido. Para complicar ainda mais, pode ser legal ou ilegal matar a vítima dependendo de quarto fatores. Antes de tudo, é preciso levar em conta a hora e o local em que o animal foi morto, saber se era temporada de caça, por exemplo. Depois, saber o local em que o suspeito e a vítima estavam no momento do crime (as regras da temporada de caça). Ainda é preciso saber o sexo da vítima e qual arma foi usada. Ou seja, investigações relacionadas à vida selvagem podem ser muito mais difíceis e interessantes de resolver do que seus equivalentes ‘humanos’.

iG: Qual o caso relacionado à vida selvagem mais interessante em que o senhor já esteve envolvido?
Godard: O mais interessante em que estive diretamente envolvido foi um no qual centenas de morsas sem cabeça apareceram ao longo da costa do Alasca. Após passar oito dias pousando nas praias em dois aviões pequenos (e batendo um deles no chão...ninguém se machucou) e fazendo necropsias em dezenas de corpos decompostos provamos que as leis de caça de subsistência haviam sido violadas.

iG: Como foi trabalhar na investigação de danos em recifes de corais?
Godard: Percebi que era necessário modificar dramaticamente as técnicas de investigação. Ao fazer o trabalho em Cozumel há três anos, descobri que tudo que eu sabia de técnicas de investigação em terra não funcionava na água. Neste caso, por exemplo, não é possível fazer um perímetro em torno da cena do crime. O recife de coral danificado não pode ser transportado para uma área de autópsia. Portanto, é difícil descrever ou categorizar a vítima como estando viva ou morta. Tirar uma simples fotografia da cena do crime pode ser frustrante devido às fortes correntes e ao aumento da profundidade. Dependendo de quão profundo for, o seu tempo disponível na cena do crime pode ser muito limitado. Frequentemente temos dois ou três mergulhos de uma hora. Eu também não estava habituado a ter coisas que mordem aparecendo nas minhas cenas de crime.

iG: O senhor é também autor de diversos livros de ficção científica. O trabalho como investigador forense ajuda na criação deles?
Godard: No trabalho de investigação forense você descobre o que aconteceu na cena do crime de forma lenta e metódica. Você aprende, em um sentido figurado, a estar na “pele” da vítima e do suspeito. Provavelmente não é bom para a sua saúde mental, mas termina por ser um grande treino para criar e escrever personagens fictícios.

iG: O senhor sempre quis ser escritor de ficção científica?
Godard:Desde que li meu primeiro livro de ficção longo, um dos primeiros do Robert Heinlein. Acho que tinha uns 10 anos de idade e o título do livro era “Cadetes do Espaço”. Acabei escrevendo e publicando seis livros policiais antes de escrever meu primeiro livro de ficção científica.

iG: Como senhor terminou por escrever um livro da série de TV CSI, o “In Extremis"?
Godard: Devido aos meus livros de ficção, minha experiência de 40 anos em investigação policial, do livro de não-ficção que escrevi há muitos anos e do trabalho com vida selvagem, me pediram para ser consultor dos autores da série CSI. Após cerca quatro anos fazendo isso me pediram para escreve um livro (“In Extremis”) com os personagens do CSI de Las Vegas. Eu, no entanto, raramente via os episódios da série (é difícil esquecer minha descrença...eles mostram muitas coisas erradas nos episódios), e não conhecia os personagens bem. Então eles me mandaram cinco temporadas da série em DVD.

iG: Qual será o tema de sua palestra no TEDx Amazônia?
Godard: No TEDx, irei descrever como a investigação científica forense pode ser aplicada a uma grande gama de questões de danos ambientais.

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