Desmatamento no Mato Grosso dobra apesar da fiscalização

No ano passado, perda de árvores no Estado já havia provocado criação de um gabinete de crise no governo

AE |

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O ritmo das motosserras no Mato Grosso dobrou desde a apuração da última taxa oficial de desmatamento da Amazônia. Satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectaram 637 quilômetros quadrados de desmatamento no Estado entre agosto e março, segundo dados preliminares. Isso representa um aumento de 96% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O corte de grande extensão de floresta aconteceu apesar da presença de fiscais na região. Em dois meses e meio, até 16 de março, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) embargou 4,3 mil quilômetros quadrados de áreas para a produção em Mato Grosso, por desmatamento ilegal. As multas aplicadas no Estado somaram R$ 31,6 milhões até essa data. O valor equivale a 64% das multas por desmatamento ilegal em toda a Amazônia no período.

 "É inegável que temos um pico de desmatamento no Mato Grosso", disse a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente) ao comentar os números, após reunião com integrantes da área de inteligência do governo. O ministério cobra explicações do Estado sobre autorizações de desmatamento concedidas no período. 

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"Ainda não temos as explicações, mas sabemos que tem gente lá dizendo que pode desmatar porque o sujeito vai ser anistiado", afirmou a ministra, apontando entre as hipóteses para explicar o pico de corte de floresta do Mato Grosso expectativas falsas criadas pelo debate do Código Florestal, em votação no Congresso. A lei estadual de zoneamento econômico-ecológico, que ampliava os casos de anistia a desmatadores, teve seus efeitos suspensos recentemente.

Izabella Teixeira também considerou o efeito de lei sancionada em dezembro pela presidente Dilma Rousseff e que supostamente esvaziaria o poder de fiscalização do Ibama. "Não existe nada na lei que impeça a atuação de órgãos federais", insistiu a ministra. A lei determina que cabe aos estados fiscalizar as áreas em que têm competência para licenciar o corte de vegetação. Ainda de acordo com a lei, prevalece o auto de infração estadual, o que pode levar a que proprietários de terra recorram das multas de R$ 49,4 milhões aplicadas pelo Ibama desde janeiro.

O novo surto de desmatamento em Mato Grosso foi detectado em fevereiro por conta da baixa cobertura de nuvens na região. As nuvens atrapalham a visão dos satélites. De qualquer forma, o desmatamento aconteceu em período de chuvas, quando a atividade das motosserras tradicionalmente cai na Amazônia. No ano passado, Mato Grosso já havia provocado a convocação de um gabinete de crise no governo, por conta do ritmo acelerado do desmatamento. 

Demais estados da Amazônia
Nos últimos meses, o satélites do Deter (mais rápidos, mas menos precisos) também detectaram aumento de 363% do abate de árvores em Roraima. O governo federal ainda apura os motivos de a taxa no Estado ter aumentado 363% entre agosto em março, comparado ao mesmo período do ano passado.

Embora seja proporcionalmente maior do que o aumento do desmatamento no Mato Grosso, o abate de árvores em Roraima somou 56 quilômetros quadrados, menos de 9% do que foi desmatado no Estado governado por Silval Barbosa (PMDB). O governo acredita que a migração da atividade madeireira do Pará possa explicar o abate de floresta em Roraima. Rondônia também registrou aumento, de 9,7%.

 Os demais estados da Amazônia tiveram queda do desmatamento nos oito primeiros meses de coleta da nova taxa oficial da Amazônia. No Pará, as nuvens ainda atrapalham a visão dos satélites. Por isso, o diretor do Inpe, Gilberto Câmara, admite que o resultado apurado até aqui pode não corresponder à realidade. "O Pará ainda está sob nuvens", comentou. No Estado, os fiscais já embargaram neste ano 2,3 mil quilômetros quadrados de áreas desmatadas para a produção. As multas aplicadas ultrapassam R$ 15,5 milhões.

No conjunto dos Estados da Amazônia Legal, o desmatamento somou 1.398 quilômetros quadrados entre agosto de 2011 e março deste ano, contra 1.371 quilômetros quadrados em igual período anterior. "Não temos crise de desmatamento, estamos procurando nos antecipar a qualquer tendência de aumento", disse a ministra.

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