Crescimento rápido de Dubai esgota seus recursos

Tratamento de resíduos e fornecimento de águaexigem tanta eletricidade que a região considera futuro nuclear

The New York Times |

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Dubai se torna exemplo das armadilhas da construção de metrópoles no deserto
Os céus de Dubai são os mais populosos do Oriente Médio. Mas no chão, os problemas ambientais causados pelo rápido crescimento da cidade construída sobre a areia parecem muito menos sedutores.

No ano passado, os turistas nadaram entre o esgoto na fatia de Dubai do Golfo Pérsico. A purificação da água do mar para alimentar as torneiras e chafarizes tem elevado os níveis de salinidade. E, apesar de estar localizada em vastas reservas de petróleo, a região está esgotando suas fontes de energia para manter seu estilo de vida rico.

Os princípios simples de tratamento de resíduos e fornecimento de água doce, além de grandes projetos industriais, exigem tanta eletricidade que a região está considerando um futuro nuclear, levantando dúvidas sobre os riscos, tanto políticos quanto ambientais, de depender, em parte, de uma tecnologia vulnerável a acidentes e ataques terroristas.

Deslumbrados com a rápida urbanização de Dubai, outros países do Golfo têm tentado imitar a cidade, especialmente conforme se preparam para um grande crescimento populacional. Mas 

"O crescimento tem sido intenso e enorme, mas as pessoas se esqueceram do meio ambiente", disse Jean-François Seznec, especialista em Oriente Médio e professor da Universidade de Georgetown. "A atitude aqui sempre foi: os negócios em primeiro lugar. Agora, todos estão vendo que os problemas aumentaram e percebendo que é preciso ter cuidado".

Como uma versão de Las Vegas no Oriente Médio, o maior desafio de Dubai é a água, que pode existir em todos os lados do Golfo, mas não é potável sem instalações de dessalinização. Estas produzem emissões de dióxido de carbono que têm ajudado a dar a Dubai e a outros Emirados Árabes Unidos um dos maiores índices de emissões de carbono do mundo. Elas também geram enormes quantidades de lodo aquecido que é bombeado de volta ao mar.

Os Emirados dessalinizam o equivalente a 4 bilhões de garrafas de água por dia. Mas suas reservas são limitadas: a região tem em média uma oferta estimada de quatro dias de água doce.

Hoje, os níveis de salinidade do golfo subiram de 32 mil partes por milhão a cerca de 30 anos atrás para 47 mil. Isso é o suficiente, disse Christophe Tourenq, pesquisador sênior do World Wide Fund for Nature em Dubai, para ameaçar a fauna local e a vida marinha.

O rápido crescimento tem produzido outros problemas, inclusive para as operações de tratamento de esgoto que têm se esforçado para acompanhar o desenvolvimento da cidade.

Até agosto do ano passado, a única estação de tratamento de resíduos lidava com 480 mil metros cúbicos, ou 17 milhões de metros cúbicos de esgoto por dia, quase o dobro da capacidade que pode tratar adequadamente, disse Mohammed Abdul Aziz Najem, diretor da estação.

Alguns dos capitães dos 4.000 navios que transportavam resíduos de Dubai para a estação de tratamento simplesmente despejavam sua carga no esgoto que corria para o elegante subúrbio de Jumeirah, disse.

Enquanto isso, centenas de arranha-céus foram construídos sem pensar em água e eletricidade; normas ambientais raramente foram aplicadas.

As autoridades reconhecem que o ritmo alucinante esgotou os recursos naturais de toda a região. Os esforços para se atingir o status de desenvolvido dentro dos próximos 20 anos "ampliaram" os desafios da proteção ambiental, segundo Majid Al Mansouri, secretário-geral da Agência do Meio Ambiente de Abu Dhabi. "Embora tenhamos conseguido muita coisa, nós reconhecemos que ainda há muito trabalho a ser feito".

A sustentabilidade é hoje um grande tema e Abu Dhabi está tentando aprender com os erros de Dubai.

Para resolver o problema da água, Abu Dhabi criou um sistema de monitorização das águas subterrâneas e de reciclagem para a irrigação de gramados e florestas. A cidade iniciou uma campanha de sensibilização. No mês passado, o governo concedeu contratos para iniciar a construção de instalações nos Emirados Árabes Unidos que possam armazenar água suficiente para um mês.

O governo também começou a exigir que os novos edifícios sejam concebidos com o estilo ocidental de normas ambientais que estabelecem metas para o consumo de água e energia, disse Al Mansouri.

Dubai também abriu parte de uma instalação de tratamento neste verão, dobrando sua capacidade. Além disso, após a crise financeira atingir Dubai, cerca de 400 mil trabalhadores deixaram a cidade, aliviando a pressão sobre as estações de tratamento, que têm capacidade em excesso pela primeira vez, disse Najem.

Mas mesmo essas soluções enfrentam obstáculos. Enquanto isso, grandes projetos industriais como a fundição de alumínio e a produção de aço, que exigem grandes fontes de eletricidade, estão absorvendo muito da rede elétrica. Muitos destes projetos geram exportações de negócios que complementam o petróleo dos emirados e também são usadas para construir infraestrutura.

Mas eles são movidos a gás natural do Qatar, que limita o abastecimento para a região. Suplentes como a energia solar e a energia eólica são poucos e distantes entre si, enquanto outras soluções, como o carvão, não são viáveis por causa dos desafios de transporte e abastecimento.

Como resultado, os emirados estão pensando na energia nuclear como uma nova e importante fonte de energia. Os Emirados assinaram um acordo em dezembro com Washington permitindo que os países construam centrais nucleares, desde que não enriqueçam urânio. Abu Dhabi planeja construir quatro usinas até 2017 e gerar cerca de 23% da potência dos Emirados até 2020. Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Bahrein e Egito também estão estudando a energia nuclear.

Mas da perspectiva da sustentabilidade, a energia nuclear faz pouco sentido, disse Mohamed Raouf, diretor de meio ambiente no Centro de Pesquisas do Golfo. Ainda que ela produza energia limpa, “não é renovável, há um problema muito grande com o lixo e o abastecimento de urânio, que é projetado para durar de 40 a 50 anos – o mesmo que o petróleo ", disse ele. "Portanto, há pouca lógica, a menos que você realmente queira desenvolvê-la por razões políticas e de segurança".

Mohamed Al Hammadi, chefe-executivo da Emirates Nuclear Energy Corporation, disse que a tecnologia nuclear a ser utilizada é "segura e pacífica".

Ainda assim, os ambientalistas temem que os governos estejam levando a cabo o desenvolvimento de forma desordenada. "O que os Emirados Árabes Unidos no mostraram", disse Raouf, "é que se você não lidar com a sustentabilidade do meio ambiente você vai conseguir um lucro rápido, mas enfrentará muitos riscos".

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