Cientistas confirmam que aquecimento global intensifica enchentes

Estudos detalham relação entre emissões de gases causadores do efeito estufa e maior incidência de chuvas

Maria Fernanda Ziegler, iG São Paulo |

AP
Enchente no Paquistão em 2010: cientistas agora afirmam que eventos extremos estão relacionadas ao aquecimento global
A sequência de inundações pelo mundo nos últimos meses sempre foi relacionada às mudanças climáticas com muita cautela por cientistas climáticos. A resposta mais comum era a de que eventos extremos poderiam estar ligados ao aquecimento global, mas ainda não havia base científica para comprovar tal relação. Dois estudos publicados nesta semana no periódico científico Nature tentam responder essa pergunta. E a resposta é sim, há relação. Gases causadores do efeito estufa estão associados ao aumento da formação de chuvas. Os resultados dos dois estudos são as primeiras identificações formais sobre a contribuição humana para eventos extremos como nevascas, inundações e secas.

Um dos estudos analisou a intensificação da precipitação (formação da chuva a partir de altos índices de umidade na atmosfera) sobre grandes áreas do Hemisfério Norte na segunda metade do século XX. Pesquisadores do Consórcio de Impactos Climáticos do Pacífico combinaram séries de dados de modelos climáticos que têm o mesmo histórico sobre concentração de gases do efeito estufa.

“Nosso estudo indica que em grande parte do Hemisfério Norte, quantidades anuais de precipitação máxima em qualquer dia ou em cinco dias consecutivos (que normalmente estão relacionadas às enchentes) têm aumentado” disse ao iG Xuebin Zhang, co-autor do estudo que atribuiu o aumento em larga escala destes eventos aos efeitos do homem na concentração de gases do efeito estufa na atmosfera.

“O que descobrimos foi que determinadas mudanças observadas na análise dos padrões não podem ser explicadas apenas com a variabilidade climática natural. Desta forma, fomos capazes de atribuir as mudanças na precipitação às influências do homem”, disse Zhang.

Os autores cruzaram dados de diversos modelos climáticos para identificar variações nos padrões. “Quando cruzamos estes modelos climáticos podemos perceber a resposta específica a estas mudanças de concentração. Normalmente estes padrões deveriam ser quase homogêneos. Então é como reconhecer um rosto na multidão. Podemos identificar a relação de tais mudanças nos dados”, disse Francis Zwiers da Universidade de Victoria, no Canadá, também autor do estudo.

Os autores do estudo enfatizam que inundações ocorrem naturalmente, sem o aquecimento global. Mas argumentam que modelos climáticos têm subestimado os efeitos do aquecimento global provocado pelo homem sobre a intensificação da precipitação na atmosfera.

Inundações no Reino Unido criam modelo
Outro estudo, realizado por pesquisadores das universidades de Oxford (Reino Unido) e Zurique (Suíça), analisou as inundações que ocorreram no Reino Unido em outubro e novembro de 2000. Os pesquisadores constataram que é muito provável que gases causadores do efeito estufa tenham intensificado a precipitação que gerou as inundações.

O modelo criado a partir da análise dos padrões de chuva aponta que a ação do homem foi responsável por 20% da intensidade das precipitações. Mas os pesquisadores alertam que esse valor não é absoluto e pode estar sujeito a revisões.

A partir deste estudo, os pesquisadores criaram um modelo climático. Ele aponta que, em nove entre dez casos de chuvas, as emissões de gases do efeito de estufa aumentaram o risco de inundações na Inglaterra e País de Gales em mais de 20%. Em dois em cada três casos o aumento de risco foi maior que 90%.

Para entender porque o aquecimento global pode aumentar a intensidade das chuvas, é preciso considerar que a emissão de gases causadores do efeito estufa resulta no aumento da temperatura do ar. A quantidade máxima de vapor de água que o ar pode conter (sem condensar) aumenta com a elevação da temperatura.

Isto quer dizer que um mundo mais quente, devido ao aumento dos gases com efeito de estufa, tem mais umidade no ar disponível para a precipitação. Assim, o aumento dos gases de efeito estufa pode contribuir para a precipitação mais intensa.

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