Chernobyl também carrega a negligência como legado

Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia cortaram os benefícios pagos às vítimas do desastre

iG São Paulo |

AP
O presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, cumprimenta veterano de Chernobyl
Os governos das antigas repúblicas soviéticas afetadas pelo desastre de Chernobyl estão fracassando em proteger suas populações das consequências dos eventos de 25 anos atrás, denunciam trabalhadores que atuaram na limpeza da área atingida e grupos ambientalistas.

Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia cortaram os benefícios pagos a trabalhadores de limpeza adoentados. Muitos deles apresentaram suas queixas pessoalmente ao presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, que os condecorou na segunda-feira (25).

Autoridades de Bryansk, a região russa mais atingida, não realizaram as obras necessárias no hospital de câncer local, disse o trabalhador Leonid Klestov.

A explosão, em 26 de abril de 1986, gerou uma nuvem de detritos radioativos que se espalhou sobre boa parte da Europa e forçou centenas de milhares de pessoas a abandonar suas casas nas áreas mais atingidas da Ucrânia, Bielo-Rússia e oeste da Rússia. O desastre foi ocultado do público por vários dias. Autoridades soviéticas só divulgaram informações 72 horas após o acidente .

A explosão liberou cerca de 400 vezes mais radiação que a bomba atômica lançada pelos Estados Unidos sobre Hiroshima. Centenas de milhares de pessoas ficaram doentes e florestas e terras aráveis seguem contaminadas até hoje.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse, na semana passada, que entre as 600.000 pessoas mais expostas à radiação, 4.000 a mais morrerão de câncer do que seria esperado pelas estatísticas.

Para muitos, as experiências das populações de Bielo-Rússia, Rússia e Ucrânia são um exemplo do fracasso governamental em administrar uma catástrofe.

O governo da Bielo-Rússia diz que a desintegração natural de materiais radioativos como césio e estrôncio permitiu o replantio de cerca de 16.000 hectares de campos anteriormente contaminados.

O presidente bielo-russo, Alexander Lukashenko, visitou algumas dessas fazendas, declarando que “salvamos estas terras”. Ambientalistas afirmam que os campos ainda não são seguros e que os alimentos cultivados neles são um perigo para a saúde humana.

“As autoridades estão acobertando os fatos. Produtos contaminados estão indo direto para a mesa dos bielo-russos”, disse Irina Sukhiy, chefe do grupo ambientalista Ekodom. “Não há áreas limpas. A radiação se espalhou pelo país”.

Vladimir Volodin, ativista do Partido Verde, acusou as autoridades bielo-russas de manter em segredo as estatísticas de saúde nas áreas contaminadas.

O presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, e o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill, fariam uma homenagem às vítimas do acidente nuclear na capital, Kiev, antes de viajar para Chernobyl na terça-feira (26).

Uma área de 30 km ao redor da instalação nuclear se mantém desabitada, exceto por trabalhadores temporários e algumas centenas de moradores locais que voltaram para suas casas, a despeito das advertências das autoridades.

O governo soviético originalmente havia oferecido um generoso pacote de benefícios para os trabalhadores envolvidos na limpeza da área afetada. Mas, com o passar do tempo, esses benefícios foram sendo cortados.

Cerca de 2.000 veteranos da limpeza de Chernobyl fizeram uma passeata em Kiev no início do mês, em protesto contra os cortes em pensões e benefícios, depois que Yanukovich disse que cumprir as promessas feitas aos trabalhadores estava “acima das forças do governo”.

Os veteranos da Bielo-Rússia enfrentam cortes semelhantes. As autoridades de Minsk proibiram uma passeata pela cidade, restringindo as manifestações a um pequeno comício.

Evgeny Akimov, um engenheiro nuclear que chefiou as instalações de contenção de Chernobyl, disse estar convencido de que a escala do desastre em Fukushima – onde um complexo nuclear foi atingido por um terremoto seguido de tsunami – é muito menor, já que “nenhum combustível foi despejado para fora dos recipientes dos reatores”.

Uma conferência internacional de doadores realizada em Kiev, na semana passada, levantou US$ 780 milhões, de US$ 1 bilhão necessário para a construção de um novo abrigo sobre a usina de Chernobyl , e um armazém para o combustível atômico gasto.

(com informações da AP)

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