Chernobyl e Fukushima dividem feridas parecidas

Fotógrafo da Associated Press esteve nas zonas de exclusão dos dois acidentes e relata o que viu

Sergey Ponomarev, da AP* |

Com o passar do tempo, Chernobyl se tornou um território bem explorado. Guias turísticos pegam os visitantes na cidade mais próxima, Prioyat, e sabem exatamente onde levá-los – e o mais importante – onde não levar. Eles alertam para que a floresta laranja seja fotografada apenas a distância. Porém, permitem andar em direção ao chamado sarcófago, o túmulo que protege o reator que explodiu.

Em Fubata, onde a usina japonesa Fukushima Dai-ichi está localizada, você dita o seu próprio caminho e cada passo leva a um lugar desconhecido. Não há guias na cidade deserta. Diferente de Pripyat, uma cidadezinha com árvores crescendo a partir do asfalto quebrado, Fukushima é uma ferida aberta. A usina ainda está instável e a crise ainda terá desdobramentos.

A cidade é habitada apenas por funcionários que trabalham em caráter de emergência, trabalhando em conjunto sob constante ameaça da radiação e de outras explosões – dois prédios já foram destruídos por explosões de hidrogênio. Cães sem dono e alguns gatos perdidos pela rua lembram que pessoas costumavam viver naquela área.

Pripyat se tornou um ímã para pessoas que gostam de adrenalina e artistas. Grafites cobrem a cidade. Artistas deixaram seus trabalhos de lado para captar a ironia do lugar. No jardim de infância foi colocada uma boneca com uma máscara de gás cobrindo o rosto. Paredes pintadas relembram o tempo das crianças.

Algumas pessoas continuam vivendo a sombra de Chernobyl. Velhos fazendeiros se recusaram a abandonar a terra onde sempre viveram. Eles comem as batatas, bebem leite e cozinham frangos criados ali mesmo. Eles não querem pensar a respeito da radioatividade que envenenou o meio ambiente.

O Japão – mais que qualquer outro país no mundo – é uma nação de pessoas velhas. Lá, também, fazendeiros ficaram relutantes em deixar suas terras. Contra os avisos das autoridades, muitos saíram dos abrigos e retornaram às fazendas para alimentar o gado, resgatar seus animais de estimação e passar algumas horas preciosas em suas casas antes de partir outra vez . Mas isto não durou por muito tempo – depois de mais de um mês do acidente, a zona de exclusão foi fechada.

O mundo vai se lembrar de Chernobyl e Fukushima como símbolos, sinônimos de um desastre nuclear. Pripyat e Futaba são seus rostos – de gente que já não está mais lá.

* Sergey Ponomarev é fotógrafo da Associated Press e passou cinco dias documentando a vida dentro da zona de exclusão de Chernobyl em abril de 2006. Neste mês, ele fotografou a vida ao redor da Usina Nuclear Fukushima Dai-ichi, no Japão

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